Pré-visualização gratuita capítulo 1
Selene
O papel do contrato cheirava a mentira.
Selene Monteiro segurou a folha com a ponta dos dedos, como se o documento pudesse queimar sua pele. Não queimou. Mas deveria. Porque o que estava escrito ali era, para todos os efeitos, uma sentença de morte para tudo o que ela construiu.
"Termo de Fusão Obrigatória entre Monteiro Holdings e Kael Corp — Decisão do Conselho Administrativo Nacional."
Ela leu a frase três vezes. Quatro. Cinco. Cada repetição era um prego no caixão do império que seu bisavô fundou em 1923, que seu pai expandiu com suor e sangue, e que ela passou os últimos sete anos reconstruindo após a morte dele.
— Isso é uma piada? — Ela levantou os olhos do papel e encarou o advogado à sua frente. — Uma fusão obrigatória? Nós não somos duas empresas de ônibus municipais. A Monteiro Holdings fatura 40 bilhões por ano. A Kael Corp é nossa concorrente direta. Isso é...
— Antitruste? — O advogado, um homem de meia-idade com óculos de aro fino e um sorriso que ela queria arrancar do rosto, inclinou a cabeça. — É exatamente por isso que o governo está forçando a fusão, Srta. Monteiro. As duas empresas dominam setores complementares. Segurança e biotecnologia, no caso da Monteiro. Tecnologia e logística, no caso da Kael Corp. A união cria um monopólio controlado.
Selene jogou o contrato sobre a mesa de mogno. O impacto fez o café no copo de vidro tremer.
— Controlado por quem? Por aquele...
Ela parou. Não queria dizer o nome. Dizer o nome era dar poder. Era admitir que ele tinha espaço na cabeça dela.
— Pelo Sr. Kael Alves — completou o advogado, com aquele tom de quem sabia exatamente o que estava fazendo. — Ele já concordou com os termos.
— Claro que concordou — Selene bufou, levantando-se da cadeira. A vista de São Paulo se estendia atrás dela, a cidade cinzenta e pulsante que ela via como seu reino. Mas naquele momento, o reino parecia estar desmoronando. — Ele sempre concorda com tudo que vai arruinar os outros. Esse homem tem um talento especial para destruir o que não é dele.
Ela começou a andar de um lado para o outro. O salto alto fazia um clique rítmico no piso de mármore. Click. Click. Click. Cada passo era uma tentativa de organizar os pensamentos.
— Srta. Monteiro — o advogado tentou novamente. — Seu pai, quando estava vivo...
— Não fale do meu pai. — Ela parou e virou-se para ele com uma velocidade que fez o homem recuar na poltrona. — Meu pai não está aqui. Meu pai está morto. E sabe o que aconteceu com ele? Ele foi destruído. Não por um acidente. Não por uma doença. Foi destruído por aquele homem.
Ela apontou para o contrato como se ele fosse a própria face do inimigo.
— Você sabe qual foi o último ano de vida do meu pai? — Ela se aproximou da mesa, colocando as duas mãos sobre o mogno. — Ele passou tentando recuperar o que Kael Alves tirou dele. Aquele contrato. Aquele maldito contrato de logística de 2018. Meu pai perdeu 30% do valor da empresa numa queda de ações orquestrada por Kael. Trinta por cento, Dr. Campos. Você tem ideia do que é perder trinta por cento de um império? Ele nunca mais dormiu direito. Nunca mais sorriu. Ele tinha 58 anos quando morreu. Parecia ter 80.
Ela sentiu a garganta apertar. Não. Não ia chorar. Não na frente de um advogado. Não por causa de Kael Alves.
— Ele sofreu um ataque cardíaco — continuou, controlando a voz. — Isso foi o que o laudo disse. Mas eu sei a verdade. Foi a humilhação que matou meu pai. E Kael Alves foi o carrasco.
O Dr. Campos suspirou, ajustando os óculos.
— Com todo o respeito, Srta. Monteiro, o Sr. Alves não foi o responsável pela queda. Seu pai... bem, ele cometeu alguns erros de gestão. A Kael Corp apenas capitalizou em cima...
— Eu sei o que meu pai fez. — Selene interrompeu, a voz cortante. — Eu sei que ele errou. E você acha que isso torna mais fácil? Saber que seu pai cometeu erros e foi destruído por alguém que não erra nunca?
Ela riu — um som amargo e sem humor.
— Kael Alves nunca erra. Kael Alves nunca perde. Kael Alves sempre vence. E sabe o que é pior? Eu passei anos tentando entender como ele faz isso. Como ele antecipa cada movimento, como ele lê as pessoas, como ele fareja fraquezas. E sabe o que eu descobri?
Ela inclinou-se sobre a mesa, os olhos verdes brilhando com uma fúria antiga.
— Ele não é humano. Não completamente. Algo naquele homem é... errado. Eu já vi os olhos dele mudarem de cor. Já vi ele cheirar o ar como um animal. Já vi ele sorrir de um jeito que nenhum ser humano deveria sorrir. Parece que está lendo a minha alma.
O Dr. Campos engoliu em seco.
— Srta. Monteiro, com todo o respeito, talvez o senhor devesse...
— Eu sei o que parece. Parece loucura. Mas você não estava naquela reunião em 2019. Você não viu ele desmontar a apresentação do meu diretor financeiro com uma calma doentia. Aquele homem sabia das coisas que meu diretor financeiro nem tinha dito ainda. Ele sabia o que ia ser perguntado. Ele sabia as respostas antes das perguntas.
Ela se endireitou, passando a mão pelos cabelos escuros.
— E agora querem que eu trabalhe com ele? Que eu sente na mesma mesa? Que eu compartilhe o império do meu pai com o homem que o destruiu?
O Dr. Campos levantou-se lentamente.
— Srta. Monteiro, se o senhor se recusar, o governo pode tomar medidas drásticas. A fusão é obrigatória. A Kael Corp já assinou. A única alternativa é o senhor vender sua parte da Monteiro Holdings e...
— Vender? — Selene arregalou os olhos. — O senhor está sugerindo que eu venda o império da minha família? Que eu entregue tudo para Kael Alves de bandeja?
— Estou sugerindo que o senhor considere todas as opções.
Ela ficou em silêncio por um longo momento. A cidade lá fora continuava pulsando, indiferente à guerra que se travava dentro daquela sala.
Finalmente, ela falou:
— Mande um e-mail para ele.
— Desculpe?
— Um e-mail. — Ela voltou para a cadeira e sentou-se, recompondo o rosto. — Diga que eu concordo com a fusão. Mas com uma condição: a primeira reunião vai ser na minha sala. Na Monteiro Holdings. Ele vem até mim. Não eu até ele.
O Dr. Campos franziu a testa.
— Isso não parece muito estratégico...
— Não é estratégico. — Selene sorriu — um sorriso que não chegava aos olhos. — É territorial. Eu quero que ele saiba que, mesmo que o governo esteja forçando essa união, ele não é o dono da minha casa. Aqui, quem manda ainda sou eu.
O advogado anotou algo em seu tablet e assentiu.
— Como desejar, Srta. Monteiro. Vou redigir o comunicado agora mesmo.
— Faça isso. — Selene virou-se para a janela, de costas para ele. — E Dr. Campos?
— Sim?
— Não mencione nada sobre o que eu disse. Sobre os olhos dele. Sobre ele cheirar o ar. Eu estava... exaltada.
— Claro, Srta. Monteiro. Está esquecido.
A porta se fechou com um clique suave.
Selene ficou sozinha com a cidade aos seus pés e o contrato queimando na mesa.
Ela sabia o que estava fazendo. Ela estava convidando o lobo para dentro da própria toca. Mas talvez fosse a única maneira de vencê-lo. De frente. Sem armadilhas.
Se Kael Alves quer me destruir, ela pensou, que venha olhando nos meus olhos.
O telefone vibrou. Ela pegou, distraidamente.
Uma mensagem de um número não salvo. Ela abriu.
"Obrigado pelo convite, Monteiro. Estarei na sua sala amanhã, 9h. Levei anos esperando para te encarar de perto. — K. A."
Selene sentiu um arrepio percorrer a espinha.
Ele já sabia. O advogado m*l tinha saído da sala, e Kael Alves já sabia.
A mensagem continuava:
"A propósito: você está linda hoje. O vermelho combina com você. — K. A."
Ela olhou para o próprio vestido.
Vermelho-sangue.
Ela não usava vermelho há meses.
Como ele sabia?
Selene jogou o telefone na mesa como se ele tivesse queimado sua mão. Seu coração acelerou. Sua pele arrepiava. E no fundo do seu peito, um sentimento que ela se recusava a nomear cresceu silenciosamente.
Não era medo.
Era algo pior.
Era antecipação.
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