Sophie Bennett
Chegar à mansão dos Castellini foi como abrir uma caixa de Pandora. Assim que os meus olhos percorreram o portão de ferro ornamentado e a imponente construção à frente, um turbilhão de lembranças invadiu minha mente. Dante e eu já fomos felizes, apaixonados. Nosso casamento deveria ser o início do “felizes para sempre”, mas naquele dia tudo ruiu como um castelo de areia diante de uma maré inesperada. Respirei fundo e sacudi a cabeça, empurrando essas memórias para o fundo da mente. Não podia permitir que nada me distraísse agora. Essa era minha chance de finalmente encontrar o meu filho e cumprir a promessa feita ao meu avô.
David foi fundamental para chegar até aqui. Sua amiga, uma cabeleireira habilidosa, me ajudou a mudar o visual para garantir que Lorenzo e Dante não me reconhecessem. Cortei meus cabelos, que antes eram longos, na altura dos ombros. Adicionei uma franja que cobria parte da testa, algo que nunca havia usado antes. A tonalidade clara também foi escurecida para um castanho quente, dando-me uma aparência diferente e madura. Olhei no espelho e quase não me reconheci. Era essa a intenção: desaparecer como Sophie e renascer como Lia.
Ao chegar, informei ao segurança que estava ali para a entrevista de emprego. Ele me lançou um olhar avaliador e, após uma breve comunicação pelo rádio, me liberou para entrar. Fui conduzida até a entrada principal, onde uma mulher me esperava.
- Olá! – ela cumprimentou com um sorriso educado. – Sou Clara, a atual babá do menino Lucca. – ele percebeu minha expressão confusa e então continuou. – Preciso me demitir, pois a minha mãe está doente e preciso voltar para a Europa para cuidar dela.
Clara parecia gentil, embora cansada. Enquanto caminhávamos juntas para dentro da casa, ela foi me falando mais sobre a rotina.
Eu só queria garantir que encontrássemos alguém boa para substituir. – explicou. – O senhor Dante quer alguém que possa começar o mais rápido possível. Ele mesmo fará a entrevista com você.
Senti meu estômago revirar ao ouvir o nome de Dante. Meu coração deu um salto, uma mistura de nervosismo e raiva. O homem que destruiu minha vida e levou o meu filho agora estaria diante de mim. Mas não podia vacilar. Respirei fundo e continuei andando ao lado de Clara, tentando manter a expressão neutra.
Chegamos ao escritório. Ela bateu na porta e, de dentro, ouvi a voz familiar, grave e imponente.
- Entre.
Meu coração parecia querer sair pela boca. A porta se abriu, revelando Dante Castellini. Ele estava sentado atrás de uma escrivaninha imponente, sua presença dominando a sala. Seu rosto era exatamente como eu me lembrava: os mesmos olhos intensos, a mandíbula forte e a expressão séria. Se os anos haviam deixado marcas em seu rosto, só haviam tornado sua beleza ainda mais marcante.
- Senhor Dante, esta é Lia Williams. – Clara anunciou, usando o nome falso que David havia providenciado.
Dante ergueu o olhar para mim, seus olhos verdes me estudando por um longo momento. Estremeci sob o seu olhar, mas mantive a postura. Ele se levantou e estendeu a mão para me cumprimentar.
- Lia... – ele repetiu, como se experimentasse o som do nome em seus lábios.
Quando nossas mãos se tocaram, uma corrente elétrica percorreu o meu corpo. Puxei minha mão depressa, tentando esconder a reação. Seus olhos continuaram fixos em mim, como se tentasse decifrar algo.
- Nos conhecemos de algum lugar? – ele perguntou, estreitando os olhos.
Meu coração disparou. Ele havia me reconhecido? Forcei um sorriso tranquilo.
- Não, senhor Castellini. Nunca nos vimos antes.
Ele inclinou a cabeça ligeiramente, ainda desconfiado, mas não insistiu.
- Me perdoe. Estive fora por muito tempo.
Apenas assenti, tentando manter a calma. Ele então começou a entrevista, questionando sobre minhas experiências com crianças. David havia me ajudado a criar um currículo impecável, e repeti as informações falsas com confiança.
- Tenho experiência com crianças pequenas. Trabalhei como babá por alguns anos. – menti, mantendo a minha voz firme.
Dante fez mais algumas perguntas formais sobre minha disponibilidade e habilidades em situações de emergência. Mantive a postura, tentando parecer o mais profissional possível, embora estivesse em frangalhos por dentro.
No meio da entrevista, uma porta se abriu de repente. Um garotinho de cabelos claros entrou correndo, rindo, e foi direto para o colo de Dante.
- Papai! – ele exclamou, abraçando o pescoço do pai.
Meu coração quase parou. Era Lucca. Meu filho. Ele era tão lindo que quase não conseguia respirar. As lágrimas ameaçaram surgir, mas me obriguei a engolir o choro. Eu estava diante do meu menino pela primeira vez em cinco anos.
Dante o repreendeu com suavidade.
- Lucca, o que dissemos sobre bater na porta? Estou em uma reunião.
- Desculpa, papai. – O menino sorriu com inocência e então olhou diretamente para mim.
Nossos olhares se encontraram, e foi como se o mundo ao redor desaparecesse, ele tinha cor dos meus cabelos, mais os olhos… os olhos eram iguais aos do pai. Lucca desceu do colo do pai e caminhou até mim, estendendo a pequena mão.
- Oi! Eu sou o Lucca.
Minha garganta se fechou de emoção. Seu gesto simples quase me fez desabar. Estendi minha mão trêmula para apertar a dele, tentando manter a compostura.
- Oi, Lucca. Eu sou Lia. É um prazer te conhecer.
Ele sorriu, e antes que eu pudesse reagir, ele me envolveu em um abraço apertado. As pequenas mãos ao redor do meu pescoço foram o toque mais doce e doloroso que eu já senti. Todo o meu ser queria apertá-lo contra mim e nunca mais deixá-lo ir, mas me forcei a controlar o impulso.
- Você tem um cheiro bom, Lia! – Lucca disse com uma risadinha inocente, enquanto ainda me abraçava.
Antes que eu pudesse responder, a porta do escritório se abriu novamente. Uma mulher elegante entrou com passos firmes. Ela usava um vestido justo e impecável, com um ar de superioridade que não deixava dúvidas sobre sua posição. Ela foi direto até Dante e o beijou na boca, deixando claro seu território.
- Lia, esta é Charlotte. – Dante disse, com naturalidade. – Minha noiva.
Senti uma pontada no peito, como se uma lâmina fria tivesse sido cravada ali. Forcei um sorriso educado, mesmo que por dentro eu estivesse desmoronando.
- Prazer em conhecê-la, Charlotte. – falei, tentando manter a voz estável.
Ela me lançou um olhar avaliador, cheio de desdém, antes de responder com um sorriso frio.
- O prazer é todo meu, tenho certeza.
O ambiente ficou tenso por um momento, mas me mantive firme. Eu não podia deixar que Charlotte ou Dante percebessem o que eu realmente sentia. Precisava seguir com o plano. Nada me impediria de ficar perto do meu filho novamente.
Depois de uma breve despedida, Dante voltou sua atenção para mim.
- Nós entraremos em contato, Lia. Obrigado por vir.
Saí do escritório com o coração pesado e a mente fervilhando. Lucca havia me abraçado, e agora eu sabia que ele estava ao meu alcance. Eu cumpriria minha promessa, não importava o que tivesse que fazer.