Dante Castellini
Voltar para Nova York era estranho, mas ao mesmo tempo, parecia certo. Assim que meu avião pousou, senti que estava retornando ao único lugar onde eu realmente pertencia. Como se estivesse voltando para casa depois de um longo exílio. Passei anos na Europa, vagando entre hospitais, clínicas de reabilitação e apartamentos solitários, tentando recuperar tudo o que o acidente havia me tirado de mim. Quando acordei do coma, estava em um hospital estrangeiro, meu corpo dolorido e minha mente envolta em névoa.
Meu avô, Lorenzo, alegou que precisou me levar para outro país para garantir o melhor tratamento. Na época, tudo parecia confuso demais para questionar. Acordei sem parte da minha memória, como se a linha que conectava meu passado tivesse se rompido, e, junto com ela, algo mais profundo que eu não conseguia identificar. Não era apenas a memória de fatos ou rostos; havia uma sensação, um vazio que não podia ser explicado. Algo importante havia se perdido, mas eu não sabia o quê.
Então, um dia, meu avô apareceu com um bebê nos braços.
- Esse é Lucca. Ele é seu filho. – sua voz era direta e fria, como sempre.
- Meu filho? – perguntei, incrédulo. A criança era tão pequena, tão frágil.
- Você teve um caso com uma mulher antes do acidente. Ela o deixou comigo para que ele tivesse uma vida melhor do que teria ao lado dela.
Eu olhei para o bebê por um longo tempo, sentindo um nó se formar na garganta. Perguntas borbulhavam em minha mente: Quem era essa mulher? Por que eu não me lembrava dela? E como poderia ter tido um filho e perdido todas as lembranças de sua mãe?
Quando peguei Lucca nos braços pela primeira vez, senti algo despertar em mim. Uma conexão instantânea, instintiva. Aquele menino dependia de mim para tudo, e naquele momento fiz uma promessa silenciosa: Eu cuidarei de você. Nada vai te machucar enquanto eu estiver por perto.
Ainda assim, o peso da ausência de memória sobre a mãe dele me assombrava. Como poderia explicar isso a Lucca um dia, quando ele começasse a fazer perguntas? Como eu poderia ser um pai completo se não me lembrava do início da nossa história?
Depois de meses de reabilitação e fisioterapia, o meu corpo começou a se recuperar. Mas a sensação de que algo ainda faltava nunca desapareceu. Foi durante essa fase que conheci Charlotte. Ela não era o tipo de mulher que eu costumava gostar. Charlotte era elegante, sim, mas também fútil e narcisista, mais preocupada com aparências do que com sentimentos. No entanto, parecia se dar bem com Lucca, e isso foi o suficiente para eu tentar. Além disso, Lorenzo a aprovava, e embora eu não vivesse para agradar o meu avô, eu sabia que isso tornava tudo mais fácil.
Quando decidi voltar para Nova York, Lorenzo foi contra. Ele disse que a vida na Europa era melhor para mim e que eu estava me precipitando. Charlotte também tentou me dissuadir, porém, ao perceber que eu não mudaria de ideia, aceitou relutantemente. Acabou alugando um apartamento por conta própria, algo que não me incomodou nem um pouco.
A mansão dos Castellini estava exatamente como eu lembrava: as paredes cobertas por obras de arte antigas, os móveis imponentes de mogno e o aroma familiar de madeira polida misturado com o leve perfume das flores frescas espalhadas em vasos elegantes. Ali, o tempo parecia congelado. Era como se nada nunca mudasse, exceto eu.
Clara, a babá de Lucca, nos acompanhou até Nova York, mas precisava voltar para a Europa em breve para cuidar da mãe doente. Isso significava que eu teria que encontrar uma nova babá o quanto antes. E encontrar alguém à altura de cuidar do meu filho não seria fácil.
Dois dias depois de nos instalarmos, comecei as entrevistas para babá. Nenhuma das candidatas me agradou. Algumas pareciam qualificadas no papel, mas nenhuma inspirava confiança para cuidar de alguém tão precioso quanto Lucca. Eu já estava prestes a encerrar as entrevistas quando Clara bateu na porta do meu escritório.
A próxima candidata chegou, senhor.
- Pode mandar entrar. – respondi, distraído.
Clara abriu a porta, e uma jovem mulher entrou. Quando levantei os olhos para cumprimentá-la, meu mundo pareceu parar por um instante. Ela era tão familiar... como um eco de algo perdido no tempo.
Clara a apresentou como Lia Williams.
- Lia… – falei experimentando seu nome. estendi a mão para ela, e por um momento senti uma corrente elétrica passar por mim, ela reiterou a sua mão rapidamente, mais não conseguia parar de encarar ela, tinha algo familiar nessa mulher. – Nós já nos conhecemos de algum lugar? — perguntei, franzindo o cenho.
Ela hesitou por um segundo, mas logo balançou a cabeça.
- Não, senhor Castellini. Nunca nos vimos antes. – havia desconforto em seu olhar, como se estivesse escondendo algo.
Decidi deixar essa sensação de lado por enquanto e comecei a entrevista. Falei sobre as responsabilidades do cargo, sobre Lucca e sobre minhas expectativas. Ela respondia com calma e educação, mas percebi que seus olhos ficavam inquietos, como se ela estivesse segurando um turbilhão de emoções.
Então, a porta do escritório se abriu novamente, e Lucca entrou correndo, como uma tempestade de energia.
- Papai! — Ele gritou alegremente, subindo no meu colo.
- Lucca, o que dissemos sobre bater na porta? Estou em uma reunião. — tentei repreendê-lo, mas sem muito sucesso.
- Desculpa, papai. – ele me deu um sorriso que sempre derretia meu coração
Então ele viu a candidata à babá. Seus olhos se iluminaram, e ele desceu do meu colo rapidamente.
- Oi! Eu sou o Lucca.
- Oi, Lucca. Eu sou Lia. É um prazer te conhecer. – respondeu ela, sorrindo para ele.
Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, Lucca correu até ela e a abraçou apertado. Fiquei sem palavras. Lucca não era do tipo que falava com estranhos, muito menos os abraçava.
Observei em silêncio enquanto ela se agachava para retribuir o abraço. Vi os seus olhos brilharem com lágrimas contidas, como se aquele momento significasse mais do que eu poderia imaginar. Algo em mim se agitou. Por que ela parecia tão familiar? Por que Lucca reagiu a ela desse jeito?
Antes que eu pudesse processar tudo, a porta do escritório se abriu novamente, e Charlotte entrou.
- Dante! – exclamou, com um sorriso radiante. Ela se aproximou e me beijou nos lábios, mas o toque dela parecia vazio, frio. Senti um desconforto imediato e me afastei, limpando a garganta.
- Charlotte, esta é Lia. Ela é a nova candidata à babá de Lucca.
Lia sorriu educadamente, mas seu desconforto era visível. Charlotte, por sua vez, analisou Lia dos pés à cabeça, como se estivesse avaliando uma rival.
Lia foi educada e cumprimentou Charlotte, mais Charlotte foi… Charlotte.
Eu encerrei a entrevista logo em seguida. Agradeci a Lia por ter vindo e disse que entraríamos em contato. Quando ela saiu, seu perfume suave permaneceu no ar. Era tão familiar... E a sensação de que ela era alguém que eu já conhecia se recusava a desaparecer.
- Podemos sair para jantar hoje? – perguntou Charlotte, interrompendo os meus pensamentos.
- Não. Prefiro jantar aqui com Lucca. Mas você é bem-vinda para se juntar a nós.
A expressão de Charlotte deixou claro que a ideia não lhe agradava, mas ela rapidamente disfarçou com um sorriso forçado.
- Claro... parece ótimo. – mas sua voz não convenceu.
Eu a observei sair da sala, sentindo que a vida que eu tinha construído até agora estava prestes a ser virada de cabeça para baixo.