II
Central Park
Nunca sair de casa é um problema.
Somos obrigadas a ter um efémero contato com os homens pela internet,
porém se a coisa começa a esquentar, somos advertidos pelo governo de que
passamos do limite e que irão monitorar nossas ações. Contudo, o chamado da
natureza ainda é forte, pelo menos em mim. Vou até o quarto da mamãe e procuro
em suas coisas algo que possa me distrair dos pensamentos sensuais. À noite,
algumas vezes, pela proximidade dos quartos e paredes finas, ouço minhas irmãs
em seus quartos gemendo. Uma noite uma, outra noite outra. Separadamente em
seus quartos pensando em algum modelo de redes sociais ou vendo algum vídeo.
Eu não faço qualquer barulho, mas confesso que também sei aliviar meus
instintos. Quando estou próxima do meu ápice, tapo minha boca para que
ninguém me ouça. Temos uma vida contida.
Vejo o baú do quarto da mamãe. Ela guardava ali muitas fotos nossas de
criança, fotos do papai quando namoravam, essas coisas. Há muitos anos não
mexemos ali, é pura dor. Olhar o rosto de minha mãe me traz lembranças
dolorosas. Lembro de seu colo, de seu cheiro, de seu abraço quente. Como eu
queria sentir tudo novamente, mãe... Percebo que no baú há uma fresta, algo do
tipo que eu não tinha percebido nesses anos. Até porque não mexo muito ali.
Evitamos olhar as coisas dela para não sofrer. Então, finalmente, enfio a unha
pela fresta do baú de madeira e o puxo com cuidado. Uma tampa que separa dois
compartimentos se abre e descubro coisas novas ali.
Livros. Uma dezena de livros.
Porque aqueles livros não estão na estante da sala? Parecem ter sido
escondidos propositadamente. Ao ler os títulos começo a perceber o porquê. Há
homens seminus nas capas e são lindos. Romances. Ouvi falar neles. Minha mãe
tinha nos dito que queimou os romances, com raiva. Ela nos advertiu anos atrás
que romances femininos não deviam ser lidos pois despertavam paixões que não
podiam ser vividas. Romances femininos foram proibidos, inclusive pelo governo.
O que temos na sala são biografias de poetas, livros de poesias, de História, de
Geografia e dos imortais autores como Shakespeare, Stephen King, Edgard Allan
Poe, entre outros. Poucas autoras. Chamo minhas irmãs. É noite. Elas vem
correndo pensando que eu me machuquei ou algo com meu coração.— O que houve, Kim?!
— Você está bem? — Pergunta Claire
— Olhem o que achei!
Ao pegar os livros, elas viram o rosto.
— Como achou isso, Kim?! São coisas da mamãe, não pode mexer nisso!
— Vamos ler!
— Não! — Bridget é enfática, vem em minha direção para fechar o baú.
Mas ainda restam dois livros na minha mão — Me dá!
— Não! — Eu me levanto decidida — Não é porque você é puritana que vai
me obrigar a ser!
— Kim! — Reclama Claire.
— Nós podemos ter coisas em casa para nos satisfazer, não é? — Sou
enfática — Esses objetos que imitam os homens, — Não me atrevo a dizer
consolos para minhas irmãs — Só para nos deixar satisfeitas e não procurar por
homens! Então posso ler esses livros! Estou cansada de ser manipulada.
— Kim, sabe que não há emprego para todo mundo, não podemos nos
arriscar, pare de pensar em homens! - Exclama Bridget — Você seria capaz de
pagar a taxa? E se o marido for embora e te largar como papai largou a mamãe?
Terá que pagar sozinha! Isso não te apavora?!
— Claro que sim! Mas eu posso ler, eu posso sonhar...
— Sonhar com o que? Um casamento? Somos livres para ir onde quisermos
sem um marido. — Responde Claire.
— Eu não quero um marido, eu só quero saber como é.
Sento no chão, desolada. Aquele homem da lavanderia mexeu mesmo
comigo. Eu ainda sinto seu perfume, ouço sua voz. Queria nunca ter encontrado
um homem de novo. Como chegamos a esse ponto? m***r a natureza do que
somos? Aprendi que somos seres sociais e que formam família. Quando minhas
irmãs morrerem, eu estarei só no mundo. Um mundo caótico, regulador,
censurador. A culpa tinha sido inteiramente nossa. Não devemos tentar consertar
de outra forma e não como animais em currais?
— Coloque esses livros onde estavam, Kim e vamos à rua, vamos passear
na neve para ficarmos felizes e cansadas. Vamos ao Central Park.
Bridget sai rapidamente do quarto. Claire ainda continua me olhando com ar
de dó.
— Sinto muito, minha irmã, os homens são proibidos.
— É, eu sei.
— Vamos ao mercado comprar doces e até o Central Park com Bridget. Isso
vai melhorar seu humor.
Claire é doce e bondosa, mas nada pode melhorar meu humor. Assim que
Claire sai, eu enfio dois livros debaixo do meu casaco e rumo para o meu quarto,fecho a porta e enfio os livros sob o meu colchão. Por que Bridget queria me
levar ao Central Park? Para ver rapazes andando de patinetes motorizados? Os
mesmos rapazes que eu não posso olhar? Até o Park foi dividido entre o lado dos
homens e o das mulheres. Desenvolvi até uma fobia de esbarrar com um deles,
como na lavanderia. Isso faz dois dias. E até agora não esqueço aquele olhar. Um
olhar bonito e cheio de significado.
Preciso guardar os livros e trocar de roupa. Visto calça, pantufa e um casaco
pesado. Não estou acostumada a sair tanto, por isso me visto de forma simples.
Saímos do prédio juntas e andamos um bocado. Existem poucas pessoas nas ruas,
afinal está muito frio. Todos estão entocados nas redes sociais, até mesmo no
parque. Não vejo crianças. Em nenhuma parte. Há pessoas patinando no gelo do
parque e minhas irmãs se sentam para apreciar. Claire compra um pretzel em uma
carrocinha de doces. Ela divide conosco o imenso pretzel, contudo cada pedaço
para nós parece pequeno. É tudo que o nosso dinheiro pode comprar.
Ao olhar ao redor, vejo a grade que separa os homens das mulheres. Vejo
rapazes encasacados, de luvas e botas. Nenhuma das luvas é amarela. Eu sei
exatamente o porquê procuro luvas amarelas, mas baixo meu olhar para a neve
logo abaixo dos meus pés e fico mexendo minhas botas. Ainda há pretzel na
minha boca. Mastigo e engulo. Ouço vozes masculinas. Quando ergo meu olhar
para a grade, há dois rapazes jogando frisbee na neve. Eles parecem se divertir.
— Podíamos jogar frisbee. — Olho minhas irmãs, cada um em seu celular
olhando a tela.
— Temos que comprar um quando fizermos as compras. — Responde
Bridget.
— É... — Respondo sem qualquer animação.
Balanço mais minhas botas, fazendo um risco perfeito na neve, desenhando
um B. Claire olha e pergunta animadamente.
— B de Bridget?
Aquele é o momento decisivo em que penso nos tapas que receberei se eu
disser que sei o nome do rapaz da lavanderia.
— Claro, Bridget!
Minha irmã olha para mim e sabe que há algo errado. Eu nunca escreveria a
inicial de seu nome na neve. Por que faria isso? Não fazia o menor sentido.
— O que é isso, Kim?
— A letra B, inicial do seu nome.
— Chega de passeios, Claire. Vamos para casa. A cabeça da Kim está em
outro lugar.
Ela se levanta e vai andando na frente, como se tivéssemos obrigação de
segui-la visto que é a mais velha. Claire se levanta e começa a caminhar
pesadamente sem questionar. Depois de cinco minutos, eu me levanto, claramente
sem vontade alguma de obedecer. Eu sigo minhas irmãs por dois quarteirões até
que olho para dentro de um café e vejo homens. Apenas homens. Obviamente,aquele café é destinado aos homens. Todos estavam em seus celulares. Então o
inesperado acontece, vislumbro uma luva amarela. Paro de andar. Meu olhar se
detém na luva amarela, como se fosse a coisa mais importante da minha vida.
Não faz sentido algum, se o homem da lavanderia está sempre de luvas, ele pode
ter várias de outras cores e não apenas um par de luvas amarelas. Os homens me
olham, enquanto estou parada do lado de fora da cafeteria. Quando o homem de
luvas ergue a cabeça e volta seu olhar para fora percebo que é ele. É Brian.
Durante instantes, ele olha ao redor, como se procurasse saber se é seguro me
olhar. Então, se certificando de que ninguém está olhando para ele, me mostra um
sorriso. Eu retribuo seu sorriso, mas sinto que meu braço é puxado quase ao
ponto de arrancar do meu corpo.
— O que está fazendo, Kim? Pelo amor de Deus, você ainda não entendeu
que não pode?!
Sim, eu entendo que não pode, eu tenho 26 anos. Não respondo nada, a
felicidade de ver aquele sorriso praticamente desconhecido fica estampado na
minha memória como um quadro.
— Ela agora pára em lavanderias e portas de cafeterias para olhar homens.
— Observa Claire.
— Não está em perfeito juízo, é isso mesmo que eles fazem, vai precisar de
terapia para esquecer!
Apenas ouço os berros como sons distantes e desimportantes.
Ele sorriu.
Para mim.
Eu sou importante a ponto de ele se lembrar de mim.