I
A luva amarela
É inverno. As ruas estão cobertas de neve espessa na imensa e populosa
Nova York. A minha cidade nunca perdeu o brilho, principalmente no inverno.
Aguardamos a neve intensamente, porém quando ela chega é uma dor de cabeça.
Entro na lavanderia com uma sacola pesada, cheia de roupas minhas e de minhas
irmãs para lavar. O horário das lojas é dividido entre manhã e tarde por gênero. A
manhã é reservada às mulheres e a tarde é reservado aos homens.
Assim que entro, com dificuldade em ultrapassar a neve espessa da entrada,
carregando a bolsa e segurando a porta para não fechar, sinto que sou ajudada. A
porta estava sendo impedida de bater na minha cara por uma mão com uma luva
amarela. Encaro bem aquela luva amarela. Ergo meu olhar em direção a pessoa
dona da luva e sinto um perfume diferente. Um homem? O que um homem faz no
meu horário da lavanderia? Ele está de boné e com o capuz do casaco sobre a
cabeça para proteger mais do frio. A lavanderia está vazia. Talvez pelo mau
tempo, mas acumulei tanta roupa em casa por causa da preguiça, que aquele dia
foi decisivo. Ou eu lavava as roupas ou ouviria os gritos estridentes de Claire e
Bridget. Agradeço com o olhar e me dirijo rapidamente a uma das máquinas. Ele
continua ali. Será que não sabe que é proibido?
— Me desculpe vir em horário errado, mas estava com pressa e não tinha
mais meias, já estou terminando.
A voz é grave e baixa. Ele parece ter minha idade. E eu tenho 26. Sinto o
coração acelerado na presença de um homem. Por que? A voz é igual na televisão,
grave e eu diria, bonita. Olho para ele por milésimos de segundos. Ele tem barba
e bigode ralos, é branco e tem os olhos castanho-esverdeados. É alto. Bastante
alto. Não sei se devo responder, é inadequado, mas não há câmeras na lavanderia
e essa é uma vantagem que me permite analisar o tal homem. Ensaio algo patético
na minha cabeça para responder. Não tenho coragem. Não consigo sequer sorrir.
Ensaio mais uma vez uma resposta. A voz sai fraca.
— Não há problema, fique á vontade.
Ele ergue o olhar surpreso. Em seu rosto, claramente, consigo perceber que
ele não esperava sequer uma resposta, quanto mais uma resposta educada. No
mínimo deve passar por isso várias vezes por dia e com mulheres bem menoseducadas. Porém, existe alguma coisa em mim que grita que as coisas não
deveriam ser assim. As minhas aulas de biologia me lembram que ele não vai me
engravidar só de me olhar e que aquilo tudo pelo que passamos não passa da
intensa propaganda do governo para nos afastar.
Enfim, o homem se levanta e caminha até a máquina de lavar. Por que
parece que ele faz tudo em câmera lenta para que eu o admire? Ou é somente eu
que pareço fazer o tempo quase andar para trás tal a forma como reparo em seu
corpo? Não só o corpo, mas o que veste, como caminha, como se move, como
pega as coisas. Eu não devia reparar. Uma amiga do trabalho fez isso e terminou
sem saber como parar de pensar no rapaz. Ela disse que era paixão. Eu não sei o
que é isso, o que é uma vergonha pois eu tenho 26. Não sei o que é uma paixão,
sou virgem, tímida e amedrontada. Odeio esse sentimento. Eu sei muitas coisas.
Sei sobre os grandes filósofos da Humanidade, de Sócrates a Simone de Beauvoir.
Tenho muito conhecimento geral e inútil. Amo Astronomia, música e Literatura.
Mas sobre paixão e amor eu desconheço quase tudo.
O homem tira suas roupas da máquina e as dobra pacientemente, as
colocando em um cesto para levar para casa. Só nesse momento me dou conta de
que olho para ele insistentemente. Ele me lança um olhar um pouco desafiador.
— Eu sei, — diz ele — É difícil parar de olhar para algo que você pouco vê.
É como estar em um zoológico, por trás das grades, sendo a principal atração.
Ele sorri meio tristemente e reparo o quanto é bonito. E eu sei que é bonito,
pois esbarrei com alguns homens na vida, também vejo revistas digitais e
modelos nas redes sociais. O que é uma grande falta de piedade porque não
podemos tocar a beleza. Tomo coragem para responder alguma coisa.
— Você não está atrás das grades, eu posso te ver, mas sei o que quer dizer,
é como uma piada r**m, você está sendo observado porque eu m*l vejo homens.
Como eu sou estúpida! Ele deve estar pensando como sou i****a para dizer o
óbvio. Ele sabe que m*l vejo homens e que o governo seria capaz de me cobrar
um imposto somente por estar conversando com ele. Tudo bem, isso é um
exagero, mas deve ser h******l ser observado com medo.
— É h******l o que nos tornamos, não acha?
Ele continua puxando assunto, deve estar sem ter o que fazer em casa, tanto
quanto eu. Ele parece ansioso para que eu concorde e eu não o faria por força da
atração em querer conversar, mas porque eu realmente acho o mesmo.
— Completamente h******l — Eu sou um desastre em conversas. Tento
melhorar minha imagem — Quer dizer, eu sei bem pouco na verdade. Eu só sei
que não devemos nos falar, mas acho tudo tão exagerado. A mutação de 2023 já
quase nos levou a extinção e agora parece que os governos querem fazer o
mesmo.
Ele para de dobrar as roupas nessa altura da conversa e me olha com
curiosidade. Um meio sorriso se forma em seu rosto. Acredito que me achou
inteligente. É bem raro encontrar mulheres que pensam criticamente na minhaidade. Elas seguem uma cartilha bastante restrita de como lidar com os homens e
que se resume a: Não fale com eles, não olhe para eles.
— Interessante reflexão — Ele estica a mão para um cumprimento, mas eu
não posso — Sou Brian, prazer em conhecer.
Olho atentamente aquela mão da luva amarela estendida ali no ar, me
aguardando e lhe sorrio.
— Me chamo Kimberly.
Ele recolhe a mão, um tanto frustrado mas ainda com um sorriso comedido
no rosto. Ouvimos a porta da lavanderia fazer barulho. Nossos rostos se voltam
para a mulher que entra. Ela para um pouco o examinando.
— Você deveria estar aqui? — Pergunta ela, com um tom indignado.
— Não senhora, até mais, Kimberly.
Ele pega seu cesto de roupas e anda apressadamente para a porta. Já do lado
de fora, ele ainda me olha com um sorriso e move a cabeça em um gesto de
despedida.
— Alguns não sabem seu lugar. — Comenta ela — Principalmente os
jovens. — Ela me olha de cima a baixo, parece ter uns 40 anos — Não dê
conversa aos homens, menina.
Sento-me sobre uma máquina enquanto aguardo e não respondo nada. Ela
estava sendo inconveniente em me passar um sermão já que era uma
desconhecida. Por fim, espero pacientemente pelas minhas roupas serem lavadas,
depois as coloco na secadora enquanto olho as redes sociais. Brian... Ele deve ser
inteligente pela maneira como colocou suas ideias de forma tão rápida em tão
pouco espaço de tempo. Cinco minutos foi o tempo em que trocamos algumas
frases, mas foi o suficiente para me impactar e me deixar curiosa. A mulher que
entrou depois de mim saca um maço de cigarros da bolsa e acende um enquanto
aguarda.
“A Era do amor proibido levou e ainda leva muitos jovens ao suicídio. Sem
poder ter filhos sem pagar altas taxas ao governo federal, esta é uma geração de
jovens tristes, a beira do abismo social e que não sabe se relacionar.”
A matéria é de um jornal online que ainda diz as verdades cruéis da minha
geração, antes que sofra a censura atroz do governo. Eu já me pergunto o quanto
há de verdade em tudo que sai na mídia. Porém o fato é que a gente tem medo dos
impostos. Assim que a máquina termina de secar as roupas, eu desço de onde
estou sentada e vou até a máquina para começar a retirar as roupas e dobrá-las.
Devolvo ao mesmo saco de onde as retirei e saio da lavanderia sem olhar para a
mulher que também apenas olha o iphone. Não temos o hábito de conversar com
pessoas na rua, por isso foi tão estranho que o rapaz tenha puxado assunto comigo.
Talvez ele seja solitário também e quisesse somente trocar algumas frases sobre o
quanto somos miseráveis.Chego em casa rapidamente pois moro perto. Subo os dois andares a pé,
pois precisamos poupar energia. A vida é cara. Tudo é caro. Ao entrar em casa,
jogo as chaves sobre a mesa de madeira reciclada da pequena sala. A casa está
ensolarada. Ouço vozes vindas da cozinha. Assim que me aproximo, vejo que
Claire e Bridget preparam o almoço e conversam animadamente. Paro em frente a
elas e aquela frase simplesmente pula da minha boca.
— Eu conheci um rapaz.
Imediatamente elas se calam e me olham.
— O que?! — Solta Bridget.
— Como assim, Kim?! Onde?
— Na lavanderia, ele puxou assunto comigo e eu não consegui deixar de
responder.
Elas se olham, em seguida me olham.
— Vai começar a ser irresponsável agora, Kim?! — Grita Bridget, a mais
velha.
Bridget tem profundos olhos azuis e os cabelos loiros cacheados, bem
cacheados. Ela faz penteados bonitos quando quer, mas naquela manhã parecia
ter levado um choque na tomada e seus cabelos estavam todos para o alto e
desalinhados. Bridget tem 30 anos. Claire é a irmã do meio, com 28 anos. Ela
também é muito loira e me encara com aqueles olhos azuis-esverdeados bonitos.
Entre nós, Claire é a mais bonita. Pelo menos eu considero assim, ainda que elas
digam que eu sou a mais bonita das três. Beleza não vale nada nos dias atuais,
não faz diferença. Beleza serve para atrair o s**o oposto e isso não podemos fazer.
— Eu não sou irresponsável. — Respondi e ponto.
Já ia dar as costas, como se fosse uma adolescente rebelde quando Bridget
começou a falar.
— Kim, sabe que nós lutamos com dificuldade. Dependemos uma da outra.
Você sabe por tudo que passamos com a perda da mamãe, não dá para ser
irresponsável e querer ter filhos!
— Eu sei, Bridget, você me lembra isso toda semana.
Respondo e saio para o meu quarto. Apesar de termos um apartamento
próprio pequeno, cada uma de nós tem seu pequeno quarto. Os maiores cômodos
do apartamento são a cozinha e a sala. Entro em meu quarto e me jogo sobre a
cama, com enfado e tristeza. A vida é dura. Mas não me lembro de ter sido fácil
em algum momento. Eu ainda sonho em visitar alguns lugares do mundo,
entretanto é extremamente caro. Mamãe morreu faz 3 anos. Algumas coisas dela
ainda estão no armário porque nunca tivemos a coragem de tirá-la de lá. É como
se mantendo as coisas dela, a gente possa fantasiar que ela vai entrar em casa a
qualquer momento e nos dizer como o trânsito estava caótico naquele dia. O
cheiro de mãe já se foi das roupas dela, mas eu guardo aquele cheiro na memória.
Cheiro de mãe...Um dos melhores perfumes do mundo.Os olhos dele pulam na minha memória depois dos olhos da minha mãe.
Castanho-esverdeados. Aquele rapaz tem a postura de um príncipe dos livros que
andei lendo. Faz pouco tempo que achei um baú velho da mamãe no fundo do
armário. Ela guardava um diário depois que papai se foi. Ali haviam anotações de
compras, mas também várias páginas de pensamentos e desejos de encontrar um
outro alguém. Ela descreveu minuciosamente como tinha sido o namoro com ele,
o casamento, as brigas e a separação. Nunca mais o vimos.
Enfim, eu preciso trabalhar. Ergo-me da cama para rumar ao notebook, o
abro e me sento à escrivaninha para fazer as contas da empresa. Ser contadora é
chato. Eu adoraria poder me transportar para os e-books que leio a noite. Por que
ainda temos um canal de séries na televisão se não podemos viver aquele amor
arrebatador que vivem na ficção? É para nos instigar a fazer o que não podemos e
com isso poderem cobrar mais impostos? Já não somos infelizes pelo que nos
proíbem de fazer?
Começo a trabalhar.