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1682 Palavras
Dulce  Christopher e Annie me deixaram sozinha com a minha mãe e ela já foi desfazendo suas malas sobre a minha cama. Eu a observava sem dizer nada, pensando na melhor atitude a ser tomada.  Christopher aconselhou que eu a tratasse como qualquer outra mãe é tratada. E quem sabe assim, eu pudesse finalmente desarmar o ar de mandona que ela tinha.  — Então, você vai ficar com o quarto? — perguntei.  — Este é o meu quarto. — respondeu.  — Quanto tempo pretende ficar?  — Já quer que eu vá embora? — me olhou de canto. — Olha, eu esperava mais recepção da sua parte.  — Eu só fiquei nervosa. Não consigo acreditar que está aqui só pra me ver.  — Dulce, eu sou a sua mãe. Será que uma vez na sua vida você pode me ver assim? — suspirou.  — Ok, desculpe. — dei de ombros. Ela me olhou com estranheza.  — Só isso? Sem nenhuma objeção?  — O que eu posso fazer?  — Ok... ótimo. — sorriu.  — Depois eu peço pro Rodolfo tirar as minhas coisas e as do Christopher daqui e colocar em outro quarto.  — Espera, o seu namorado mora aqui? — me encarou.  — Ele saiu do antigo apartamento e está aqui até conseguir encontrar outro.  — O que está acontecendo com você? Desde quando age dessa forma?  — De que forma, Mary?  — Namorando um funcionário, trazendo ele pra morar com você, dando uma festa para todos eles na nossa casa. — enumerou. — Nem parece a minha filha.  — Só estou tentando ser uma pessoa melhor. — falei calmamente.  — Pra mim isso é ser fraca.  — Não tô nem aí. — sorri de lado.  — Espero que você só esteja usando esse seu namorado e depois desista dessa loucura.  — Sinto muito por te decepcionar, mas eu pretendo ficar com o Christopher por muito tempo. — cruzei os braços.  — Ele não tem nada a te acrescentar!  — Com isso você quer dizer que ele não tem dinheiro? — arqueei a sobrancelha. — Eu não preciso de um homem rico, Mary. Eu sou rica.  E mesmo se eu não fosse, não quero um homem que me sustente financeiramente ou socialmente. Eu quero alguém que me faça feliz. Da minha vida financeira cuido eu.  — Eu não disse que você precisa do dinheiro de ninguém. É uma mulher forte, cheia de fibra e respeitada. Gosto que seja assim. E gostaria que arranjasse um homem à altura.  — Pode apostar que o Christopher é tão forte quanto eu.  — Eu duvido.  — Não me interessa. Só o deixe em paz, ok? Não se meta no nosso relacionamento.  — Não vou fazer nada pra separar vocês, serei eu mesma. — deu de ombros.  — É exatamente isso que eu não quero. Só o evite, por favor. — ela respirou fundo e voltou a desarrumar suas malas. — Eu estou falando sério!  — Eu sei. — falou despreocupada.  — Não vai se meter com ele, vai?  — Seu namorado é insignificante pra mim. Não vou perder o meu tempo.  — Ótimo. — continuei a observando em silêncio.  — O que? — franziu a testa.  — Eu estava com saudade. — me dei por vencida.  Ela sorriu e abriu os braços. Fui até ela e me aconcheguei em seu abraço, enquanto ela acariciava meus cabelos.  — Eu também, minha querida. — beijou o topo da minha cabeça. — Sei que nossa vida teve uma reviravolta, mas nada disso fez com que eu deixasse de amar você e o Alfonso.  — Então, por que vocês me deixaram?  — Dulce, querida, nós não deixamos você. — ela me olhou com ternura. — Pelo menos, não eu. Eu sempre estive aqui, mesmo estando longe. Só precisava colocar a minha mente no lugar e deixá-la mais forte. Não sei se eu conseguiria superar tudo isso estando aqui com todas essas lembranças do Fernando. Não queria que vocês me vissem desmoronando. — desviou o olhar.  — Tudo bem. — acariciei seu rosto. — Está tudo bem agora. — sorrimos.  — E que tal se nós fôssemos até aquela social lá embaixo?  — Quer que todos vejam que você está de volta, não é? — a olhei desconfiada.  — Já que a Dulce megera se redimiu, a Mary megera vai tocar o terror um pouquinho. — Mãe! — a repreendi.  — É brincadeira! — riu.  Nós fomos juntas até o exterior da casa e assim que pisamos no jardim, todos voltaram os seus olhares para a minha mãe. Pareciam surpresos e desacreditados por estarem a vendo ali.  Ela sorriu, satisfeita pelo clima que sua presença gerava no ambiente e começou a andar até uma das mesas da frente, onde eu sentei ao seu lado.  — Eu adoro isso. — sorriu.  — É, eu sei.  — Tia Dul! — Bernardo se aproximou e sentou no meu colo.  — Oi, meu bem. Comendo muitos docinhos? — perguntei.  — Sim e estão muito bons.  — Quem é você? — minha mãe perguntou curiosa.  — Eu me chamo Bernardo, sou o melhor amigo da Dulce. — ele respondeu com orgulho. — E a senhora?  — Mary, mãe da Dulce. — ela sorriu. — Não sabia que gostava de crianças. — Nem eu, até conhecer o Bernardo.  — Quem são os seus pais?   — Eu não tenho pais. — falou despreocupado.  — Bernardo vive num orfanato  — Visita orfanatos agora, Dulce? — arqueou as sobrancelhas. — A cada segundo que passo aqui, me surpreendo mais. Acho que você mudou mesmo.  — E isso é r**m?  — Só é r**m se você não se sentir bem com isso. — sorriu e eu retribuí.  — Já está na hora.  Eu levantei e deixei Bernardo sentado ao lado da minha mãe. Peguei o microfone e subi no palco. Depois de algumas batidinhas, consegui ter a atenção de todos.  — Sejam muito bem vindos à minha casa.  Espero que estejam de sentindo bem vindos e que também estejam se divertindo. Afinal, isso também é uma festa. Antes de mais nada, eu gostaria de dar as boas vindas à minha mãe, Mary Saviñon, que nos deu a honra de sua presença neste dia. — ela assentiu satisfeita. — Para aqueles que se candidataram e irão lutar pela chance de representar a nossa empresa, vocês têm dez minutos para se prepararem até que comecemos com as apresentações.  A correria no lugar começou e cada um foi para um canto diferente, com seus notebooks e papéis que pareciam roteiros de tão extensos.  Antes que eu pudesse voltar para o lado da minha mãe, fui parada por Henri.  — Senhorita Saviñon, saiba que está belíssima hoje. — ele disse com um sorriso exagerado.  — Obrigada. Já está preparado para a sua palestra?  — Não preciso de ensaios em cima da hora. Toda a minha preparação já foi feita e eu tenho certeza que me sairei muito bem.  — Ótimo! Confiança é tudo! — falei com aprovação.  — Eu tenho que te agradecer por ter me convencido a participar disso. Sei que é uma ótima oportunidade.  — Imagina, os créditos são seus. — agora eu estava até começando a ficar sem jeito.  — Olha só. — Christopher se aproximou. — Eu estava te procurando, meu amor. — me pegou de surpresa ao me dar um selinho em público.  — Cortez, eu nem te vi aí! — falou num tom sarcástico.  — Sei... — Henri o olhou de forma desafiadora e intercalou o olhar entre nós dois, deixando transparecer o seu desconforto ao nos ver tão próximos. — Bom, era só isso que eu tinha a dizer, senhorita Saviñon. Espero que goste da apresentação. — ele segurou minha mão e depositou um beijo e antes de se afastar, sorriu de forma provocadora.  Christopher segurou a minha mão e começou a esfregar como se quisesse limpa-la.  — Sério? — arqueei a sobrancelha.  — Ele é um verme, pode ter te passado alguma doença.  — Você ficou com ciúmes. — relatei o óbvio.  — Claro que sim. O cara nem disfarça que é apaixonado por você e ainda tem a pachorra de beijar a sua mão na minha frente! — disse com frustração.  — Awn, que lindo. — envolvi seus ombros com meus braços. — Não precisa se preocupar com ele.  — É inevitável, porque eu te amo e detesto ver esses parasitas em cima de você.  — Fala de novo... — fechei meus olhos esperando que meus ouvidos se inundassem com aquelas palavras.  — Eu te amo. — disse num tom baixo, sobre os meus lábios.  — Te amo! — abri um largo sorriso.  Ele abraçou o meu corpo e me puxou para perto, me dando um beijo carinhoso que me fez esquecer que estava rodeada dos meus funcionários e da minha mãe, que certamente não havia ido com a cara do Christopher e não aprovaria essa demonstração de afeto tão explícito. Mas isso pouco me importava, pois esse era o lugar onde eu queria estar.  Nós cessamos o beijo e fitamos o rosto um do outro.  — Estão olhando pra nós. — ele sussurrou.  — Não me importo. Nada mais me interessa quando eu estou com você. — acariciei seu rosto.  Ele fechou os olhos, parecendo se aconchegar na palma da minha mão e Deus, como Christopher era lindo! Eu tinha tanta sorte te ter alguém tão perfeito comigo!  As apresentações se iniciaram e os diretores se colocaram em seus devidos lugares onde poderiam ter uma visão privilegiada de tudo, assim podendo escolher melhor o representante.  Todos estavam indo bem, porém nós víamos algo repetitivo, palavras genéricas e denominações que não eram uma surpresa para ninguém. Pareciam até robôs pré-programados.  Na vez do Henri, foi um pouco diferente e eu até me surpreendi com a sua competência, levando em consideração que ele não era um dos melhores funcionários em sua função.  Por último, seria o Christopher e ele teria que trazer algo realmente inovador para conseguir abafar os ânimos que Henri havia deixado após sua apresentação. Mas eu confiava nele, sabia que era capaz de qualquer coisa.
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