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1514 Palavras
Dulce  Os acontecimentos do dia invadiam minha mente enquanto eu tentava me concentrar na série que eu assistia em meu quarto.  Christopher era a segunda pessoa a dizer que eu precisava de um psicólogo. Na opinião dele, eu precisava me tratar, na opinião da minha mãe, um psicólogo era um amigo comprado.  Bem, eu não tinha ninguém com quem desabafar sobre a exaustão que era fingir estar bem quando no fundo, eu estava aos cacos.  Ainda incerta sobre o que deveria fazer, eu peguei meu celular e liguei para a Annie.  — Alô? — ela parecia sonolenta.  — Te acordei?  — Sim, mas não tem problema. Aconteceu alguma coisa?  — Eu quero uma opinião sincera da sua parte.  — Ah... ok. — respondeu com confusão.  — Acha que eu preciso de um psicólogo?  — Hum... psicólogo? Bem... — Annie ficou em total silêncio.  — Responde. — ordenei impaciente.  — Todo mundo precisa de um psicólogo, não? Mesmo que não esteja com muitos problemas. E bem... a senhorita trabalha demais, tem uma vida cheia. Um psicólogo ajudaria a descarregar tudo.  — Ok. Sendo assim, eu quero que você procure o melhor psicólogo da região e marque uma consulta o quanto antes.  — Como quiser.  — Boa noite, Annie.  — Boa noite, senhorita Saviñon.  Desliguei a televisão e tentei pegar no sono sem precisar tomar um dos meus remédios. Já faziam alguns anos que dormir havia se tornado uma dificuldade para mim. Sempre achei que isso fosse algum problema de saúde, mas depois de uma bateria de exames, me convenci de que era estresse. E talvez, depois de ir ao psicólogo, eu conseguisse voltar a dormir bem como antes.  {...} Eu era uma das primeiras a chegar na empresa e era comum ir até a minha sala sem encontrar ninguém. Mas naquele dia, assim que saí no elevador, esbarrei tão fortemente em alguém que eu poderia ter ido ao chão, se meu corpo não fosse segurado por braços fortes.  Estava prestes a dar um chilique quando meus olhos encontraram os dele e eu perdi a fala. Christopher também me encarava sem dizer nada, enquanto me segurava.  Era loucura sentir uma espécie de atração física toda vez que estávamos próximos? Perdia o controle do meu corpo e só me concentrava nele e em como seus olhos me atormentavam de diferentes formas.  Me libertei do transe quando vi ele aproximar seu rosto do meu. Dei dois passos para trás, certificando-me de que ficaria longe o suficiente dele.  — O que faz aqui tão cedo? — perguntei ainda nervosa, tentando disfarçar todo o clima que havia sido gerado.  — A senhorita esqueceu que me encheu de trabalho? Preciso terminar o quanto antes. — alfinetou.  — Sendo assim, que ótimo que está aqui tão cedo. Não faz mais que a sua obrigação! — falei firme.  — Claro. — revirou os olhos.  — Agora, se me der licença, eu tenho mais o que fazer do que ficar batendo papo com um funcionário.  Ele estendeu as mãos como forma de rendição e abriu espaço para eu passar. Cada mínimo gesto dele me irritava, porque tudo parecia ser uma cartada pra me enfurecer. Podia ver em seus olhos o quanto ele queria que eu sentisse que nele não havia medo algum.  Segui até a minha sala tentando afastá-lo dos meus pensamentos. Christopher não merecia o meu esforço mental e muito menos a minha raiva.  Alguns minutos mais tarde, ouvi algumas batidas na minha porta e depois de permitir a entrada, Annie apareceu sorrindo gentilmente como sempre. — Consegui uma psicóloga para as três da tarde.  — Mas já? — franzi a testa.  — Fiz algumas ligações e depois de dizer que era para a senhorita, foi fácil arranjar uma hora com uma boa profissional. — ela tirou um cartão do bolso de trás de sua calça. — O nome dela é Angelique Boyer, é muito famosa e atende várias personalidades importantes. — segurei o cartão entre meus dedos e li seu nome completo, telefone para contato e endereço. — Espero que ela seja útil.  — Eu também. — suspirei. — Obrigada, Annie.  — Imagina. Com licença.  Continuei os meus afazeres e pedi pra que Annie cancelasse meus compromissos da tarde. Hoje eu focaria na minha saúde mental.  {...}  Na sala de espera, eu sentia minhas mãos suarem enquanto observava o ambiente ao meu redor.  Angelique exibia com precisão cada condecoração, diploma ou qualquer conquista que ela tivesse em sua carreira. Era realmente impressionante.  Nunca fui à um psicólogo antes e sempre era muito fechada quando se tratava de desabafar com alguém. Estava quase levantando para ir embora, quando a recepcionista disse que eu já podia entrar no consultório.  Ainda receosa, fui até lá, entrei e sentei no sofá divã, enquanto ela estava acomodada em sua poltrona.  Era uma mulher de aparência tão fina quando eu, tinha um olhar confiante e mantinha um sorriso gentil no rosto.  — Pode ficar à vontade. Se quiser se deitar ou apenas esticar as pernas, vai se sentir mais confortável. — falou de forma serena.  — Não, obrigada. Estou bem assim.  — Como quiser. — assentiu. — Só preciso me assegurar que está confortável o suficiente. Isso é algo essencial pra tornar o ambiente melhor para você. — ela coçou a nuca como se pensasse. — Hum... "você"? Prefere que eu a chame de "você"?  — Por mim tudo bem. As pessoas me chamam de senhorita Saviñon o dia inteiro, acho bom que alguém não seja tão formal comigo. — sorri de lado.  — Ótimo. — ela pegou uma caderneta e abriu em uma folha em branco. — Como está se sentindo hoje, Dulce?  — Calma, eu diria.  — Não teve nenhuma emoção extrema durante o dia?  Parei pra pensar e a única emoção extrema foi de quando eu caí nos braços de Christopher, mas não me sentia à vontade em falar sobre isso com ela. Pelo menos não agora.  — Realmente, não.  — O que te trouxe até aqui? Quero saber o porquê tomou a decisão de fazer uma consulta.  — Algumas pessoas acham que eu preciso disso. E parando pra pensar, deduzi que estavam certas.  — Por que?  Suspirei pesadamente e comecei a falar sobre como eu era uma mulher ocupada e nunca tinha tempo pra cuidar da minha saúde mental. Descrevi em detalhes a minha rotina e como aquilo tudo me cansava de uma forma sufocante. Ela apenas ouvia e anotava na caderneta. — Pode me falar da sua vida pessoal?  — Nem sei se eu tenho uma vida pessoal. O meu trabalho é tão parte de mim que parece que não tenho uma vida fora da empresa. E talvez eu não tenha mesmo. — dei de ombros.  — Eu já tentei frequentar lugares, ir à festas da alta sociedade, mas eu nunca me sinto parte disso. As pessoas não gostam de mim, sempre estão me evitando. Com certeza eu não me encaixo.  — Você já pensou em frequentar outros lugares? Não é porque você é da alta sociedade que seja obrigada a frequentar ambientes com essas pessoas. Não se sente encaixada porque não é igual à elas.  — Não me sinto igual a ninguém, na verdade.  — Você só precisa procurar. Testar coisas e ambientes novos é ótimo pra se manter bem. Viver uma rotina, seja ela qual for, desgasta as pessoas.  — Faz sentido.  — Agora me fale da sua família.  Relatei todos os problemas que tivemos, contei todas as características e relações que eu tinha com meu irmão e minha mãe e também falei sobre como me senti após a morte do meu pai.  A experiência estava sendo melhor do que eu imaginei. Para cada reclamação que eu tinha, Angelique dava a melhor solução.  Nem notei em como o tempo passou voando e o horário da consulta chegou ao fim.  — Essa semana você vai testar coisas novas? — perguntou.  — Sim, acho que eu posso fazer isso.  — Se ainda não estiver segura, pode tentar se distrair sozinha. Ir ao cinema, começar um hobby novo ou viajar... você decide.  — Ok. — assenti. — Muito obrigada, tudo o que me disse foi ótimo.  — Espero que volte na semana que vem. — sorriu.  — Sim, eu vou voltar.  Nos cumprimentamos e eu saí do consultório. Deixei agendado uma outra consulta neste mesmo dia e mesmo horário.  Não voltei para a empresa, fui direto para a minha casa e dispensei o meu motorista.  Assim que cheguei, corri até o meu closet e procurei algumas lembranças de quando eu era jovem. Lembro-me bem de como eu me ocupava fazendo várias coisas sozinha e como eu me sentia bem.  Numa caixa onde eu guardava algumas memórias, encontrei uma foto minha, aos 11 anos sentada no sofá de casa jogando vídeo game com o meu irmão. Sustentei meu vício em jogos até entrar na faculdade e não ter mais tempo para os jogos.  — É isso. — indaguei comigo mesma. Tomei um banho, vesti uma roupa mais confortável e logo depois, dirigi até uma loja de games que eu sabia que ficava aberta até tarde.
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