Christopher
Mesmo estando muito atarefado, saí da empresa antes do anoitecer. Se eu passasse mais uma hora olhando toda aquela papelada dos projetos, iria entrar em combustão expontânea. Se Dulce queria me moer até os ossos, estava conseguindo.
Me olhando no espelho do elevador, eu pude notar meu olhar fundo por conta das olheiras e em como meu rosto parecia inchado. Eu precisava mesmo relaxar um pouco.
Dirigi até a loja de games que eu frequentava regulamente. Um jogo de muito sucesso da Nintendo havia sido renovado e eu precisava garantir o meu.
Entrei na loja cumprimentando alguns vendedores que já eram meus conhecidos de longa data e fui direito para as prateleiras onde ficavam os novos jogos.
Quase tudo estava esgotado, mas tive a chance de encontrar o último exemplar do jogo na prateleira mais baixa.
Me abaixei tão rápido pra pegar que nem notei que outra pessoa também foi na mesma direção. Acabamos batendo a cabeça uma na outra e eu segurei seu braço antes que ela caísse no chão.
Estava prestes a pedir desculpas, quando notei quem era. Dulce estava vestida de maneira completamente diferente do que eu estava acostumado a ver. Usava um short jeans curto, uma blusa de flanela vermelha e nos pés, simples sandálias marrom.
— Meu Deus... será que você vai sempre se enfiar no meu caminho? — falou irritada, deixando a mão apoiada no local da cabeça onde havia batido.
— E dizem que um raio não cai duas vezes num mesmo lugar. — gargalhei. — É a segunda vez do dia em que eu preciso te segurar.
— A segunda vez que você quase me derruba, você quer dizer. — correu os dedos pelo cabelo.
— Achei que ainda estivesse na empresa.
— Achei a mesma coisa sobre você. Não está cheio de trabalho? — cruzou os braços.
— Quero evitar de me sentir mais
sobrecarregado do que já estou. Então, resolvi vir aqui comprar isso. — balancei o jogo que estava em minhas mãos. Ela olhou para ele parecendo levemente desapontada. — Eu não sabia que você curtia vídeo games.
— É uma coisa que não faço a muito tempo, na verdade. Mas eu adorava jogar e resolvi vir aqui relembrar o passado... — disse com sinceridade.
— Interessante... — indaguei. — Bem, pode ficar com o jogo. — ofereci.
— Não, tudo bem. Eu posso comprar qualquer outro.
— Imagina, pode ficar. — tornou a negar com a cabeça e eu fui obrigado a segurar sua mão, fazendo-a segurar o jogo. — É sério, pode ficar.
— vi um leve sorriso começando a se formar em seus lábios, mas ela tratou de impedir isso.
— Posso fazer um comentário inconveniente?
— Não, mas sei que vai fazer mesmo assim. — dei risada.
— A senhorita está muito bonita.
— O que? — franziu a testa.
— É que... sei lá... parece bem mais leve, mais real e até mais jovem vestida assim, sem maquiagem e parecendo tão despreocupada com a postura. Quem olha nem imagina que é a chefe de uma grande corporação.
— E isso me deixa mais bonita? — perguntou curiosa.
— Muito mais. Não que você não seja bonita nas suas roupas mais formais, é só que desse jeito mais natural você parece ser uma pessoa como qualquer outra, e não uma mulher de negócios prestes a destruir a vida de alguém. — tentei soar o mais leve possível, mas ela endureceu a expressão mesmo assim.
— Uckermann, ainda sou uma mulher de negócios.
— Isso não te impede de tentar ser uma mulher comum. — suspirei. — Eu só quis fazer um elogio sem deixar você com raiva de mim, mas isso parece impossível.
— Não é culpa minha. — deu de ombros.
— Nunca é. — ironizei. Ficamos em silêncio olhando um para o outro.
— Tá... — respirou fundo. — Obrigada pelo elogio.
— Uau... está mesmo me agradecendo por algo? — coloquei a mão sobre o peito fingindo surpresa.
— Viu só? Não é culpa minha se tudo o que você diz me irrita!
— Desculpa, eu não resisto. Deveria tentar me enxergar de forma mais leve, senhorita Saviñon. Veria como eu sou engraçado.
— Detesto engraçadinhos.
— Percebi. — assenti com a cabeça.
— Bom, melhor eu ir pagar isso e voltar pra casa. — ela passou por mim, mas eu segurei seu braço a fazendo me olhar.
— Espero te ver mais vezes dessa forma.
— Que forma?
— Mais humana.
— Não diga bobagens, Uckermann. — revirou os olhos.
— Não é bobagem. Eu sempre admirei você pelo seu profissionalismo, gostaria de admirar a sua personalidade também. E acho que o seu eu fora da empresa diz muito mais sobre quem você é.
Ficamos nos encarando em silêncio e pela expressão dela, estava sem palavras, mas gostou do que eu disse. Eu sorri de leve e ela acompanhou o meu sorriso.
— Talvez. — falou por fim. — Até mais, Uckermann.
— Até, senhorita Saviñon.
Depois de um aceno de cabeça, vi ela se afastar em direção ao caixa. Fez sua compra e saiu da loja.
Agora a balança havia pendido para um dos lados. Antes eu só era atraído pela aparência dela, agora as diversas teorias sobre sua personalidade me faziam querer conhecê-la, até mesmo ter a ideia de convida-la para um café.
Por mais que Dulce sempre estivesse na defensiva, uma mulher com dureza no coração nunca gastaria seu precioso tempo com jogos eletrônicos. E depois de vê-la sorrir com um elogio meu, eu tive a certeza que tinha muito mais dela pra saber do que eu pensei.
Quem pode dizer que a grande empresária também é a mesma mulher fora do ambiente de trabalho? Na verdade, desde o dia do baile beneficente eu venho ignorando essa questão, mesmo o pranto de Dulce tendo me alertado sobre o quão diferente ela poderia ser. Sem contar que, desde aquele dia, eu não consigo tirar o doce toque dos seus lábios nos meus.
Não que eu fizesse questão, mas se tivesse a oportunidade de beija-la de novo, certamente não negaria.
Comprei outros jogos e fui direto pra casa. Depois de algumas partidas com Christian, me dediquei à continuar boa parte do meu trabalho e dormi já de madrugada.
Poucas horas depois, levantei bem cedo e fui direto para a empresa com Christian, Maitê e Anahi. Meu corpo nunca acostumaria com essa rotina pesada.
Dediquei as primeiras horas do meu dia aos projetos, sem fazer nenhuma pausa.
— Licença. — Annie entrou sem bater.
— Oi. — respondi sem tirar meus olhos dos papéis.
— Tenho boas notícias! — cantarolou.
— Pode falar.
— Dulce mandou eu vir buscar o material de quatro dos projetos que você está fazendo.
— O que? Por que? — levantei o olhar para ela.
— Ela disse que é coisa demais pra um produtor só e mandou que eu dividisse para outros. Você só vai precisar se dedicar à um.
— Por que ela faria isso? — franzi a testa.
— Não sei, mas é melhor aproveitar. — organizei o material de quatro dos projetos e entreguei nas mãos da Annie. — Mais uma coisa. — ela tirou um bilhete dobrado de seu bolso. — Ela disse pra te entregar. Eu li, mas não entendi o que ela quis dizer com isso. — "Talvez eu seja mais humana do que você imagina" era o que dizia no bilhete. Sorri de lado depois de terminar de ler. — E então... o que ela quis dizer?
— Você é muito curiosa. — dei risada.
— Não vai me contar? — fez bico.
— Outra hora. Agora vai logo distribuir esses projetos.
Annie me deixou sozinho e eu fiquei sorrindo feito bobo ainda tentando assimilar se Dulce Maria havia mesmo me livrado de todo o trabalho que me deu. Nunca imaginei que tivesse compaixão por mim, o funcionário que mais a irritava. Acaba de ganhar ainda mais pontos comigo.