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1296 Palavras
JERICHO Pela primeira vez em sua vida, levamos Angelique para ouvir contar histórias em uma livraria. Angelique está sentada no tapete com o Bebê Urso no colo, formando um círculo com uma dúzia de outras crianças. Todas têm mais ou menos a idade dela. Estamos na seção de livros infantis de uma 1 pequena livraria. Uma mesa Thomas The Tank Engine empilhada com trens de brinquedo em uma vila fica no canto. Estamos cercados pelas cores vibrantes de bichos de pelúcia, brinquedos e livros, bem como um mural elaborado de um mundo de conto de fadas ao longo da parede oposta. A seção infantil fica no fundo da livraria. Eu pairo na entrada em arco entre ela e o resto da loja. Minha mãe e Isabelle sentam perto de Angelique e ouvem a mulher lendo a história. Tudo o que posso fazer é observar o rosto da minha filha. Ela está sorrindo, feliz, batendo palmas e cantando junto o máximo que pode. Ela não sabe a letra das músicas que as outras crianças parecem saber de cor. Quando ela vacila, ela observa os outros. Acho que ela está tentando imitálos, para se encaixar. Algo distorce dentro de mim. Eu não gosto que ela tenha que fazer isso. Dex vem ficar ao meu lado. — Ela está se divertindo. — Dex esteve aqui a maior parte da vida de Angelique. Em algum momento, ela decidiu chamá-lo de tio Dex. Eu nunca a corrigi. — Sim. — Ela está. — Como foi sua reunião? — ele pergunta depois de um longo minuto enquanto uma música termina e Angelique chama minha atenção. Ela me dá um pequeno aceno feliz. Sorrio de volta e aceno, mas o sorriso é mecânico. — Encontrei o que procurava. — Encontrei o que eu gostaria de não ter encontrado. Ele não comenta. Ele sabe por que fui para a Áustria. Eu respiro e expiro, me viro para ele. — Agora, para entender o por quê. Ele concorda. As crianças começam a se levantar, mães empurrando carrinhos carregados de irmãos mais novos vindo buscarem seus filhos. Angelique vai direto para Isabelle, que pega sua mão e a leva até uma estante. Elas passam os próximos dez minutos escolhendo livros. Minha mãe, testemunhando isso, caminha em direção a Dex e eu. — Ela é a coisa nova e brilhante. — digo a ela, não querendo que ela se sinta magoada pela óbvia preferência de Angelique por Isabelle. — Oh, eu não estou machucada, Jericho. — ela diz, dando um tapinha na minha mão. — Isabelle é boa para ela. Eu os assisto também. Ela é. Eu posso ver daqui. — Mas ela não é o pai dela. — minha mãe acrescenta. Eu sorrio. — Eu também não estou machucado. — digo a ela, percebendo que não é bem verdade enquanto falo as palavras. — Bem, se você estivesse, seria natural. Eu cerro os dentes porque minha mãe me conhece bem. — Podemos comprar isso, papai? — Angelique pergunta, carregando uma pilha de livros. Isabelle segue atrás. — Eles não são um pouco difíceis para ela? — minha mãe pergunta a Isabelle depois de examiná-los. — Eu não acho. Angelique já é uma boa leitora. — E eu quero um caderno como o da Belle, por favor. — Angelique diz. Eu levanto minhas sobrancelhas e olho para minha esposa. — Para música. — Isabelle diz e se vira para Angelique. — Eu costumo fazer o meu próprio. Se você tiver um caderno vazio, podemos fazer... — Compre o que você precisa. Para você também. Isabelle olha para mim como se quisesse dizer alguma coisa, mas então ela pega a mão de Angelique, levando-a para o que eu acho que é a seção de música. Nós as seguimos e alguns minutos depois, Angelique tem mais dois livros, um caderno e um novo bicho de pelúcia. Ela está animada. Eu vejo isso no brilho de seus olhos. O rubor de suas bochechas. Ela está olhando em todos os lugares, em tudo e radiante. — Você pode cuidar disso? — Eu pergunto a Dex, entregando-lhe meu cartão de crédito. — Claro. Vamos, garota. — diz ele. — Carona? — Estou ficando velha demais para pegar carona, tio Dex. — ela diz, mas continua animada mesmo assim. Minha mãe os segue e quando Isabelle tenta me passar, eu toco em seu braço, parando-a. Ela olha para mim. — O quê? — Qualquer doçura que ela tenha em sua voz para Angelique se foi. — Por que você faz seus próprios cadernos? — Por que você se importa? — Não é mais fácil simplesmente comprá-los? — Basta comprá-los. Isso é o que as pessoas com dinheiro fazem, certo? Basta comprar coisas. Qualquer coisa que eles quiserem. Inclusive as pessoas. — É dinheiro? — Suas bochechas coram e seu olhar vacila. Eu sei que é. Ela está envergonhada. — É também por isso que você não está na faculdade? Ela cruza os braços na frente dela. — Tenho um grupo de música com quem estudo. Ou eu costumava. — Não é uma escola de música? — Mais uma vez, por que você se importa? Eu dou de ombros. — Apenas curioso. — Não, não é uma escola. Eu não tinha dinheiro para a faculdade, então encontrei um grupo com o qual eu podia pagar para estudar. Usei a escassa mesada que Carlton me deu. Satisfeito? Não serei humilhada por não ter dinheiro. Por não ter permissão para ter um emprego ou ir à faculdade. — Não estou pedindo para envergonhá-la, Isabelle. Eu realmente quero saber. Agora me mostre o que você precisa. — Estou bem. — Para minha filha então. Mostre-me o que você precisa para ensinála. Ela range os dentes. Teimosa. Então sua expressão muda. Seus olhos brilham. E juro que quase consigo ver uma lâmpada acendendo-se sobre a cabeça dela. — Eu perdi um monte de aulas de violino. Eu gostaria de ir novamente. E eu gostaria de um emprego. — Nós conversamos sobre um trabalho. Isso é um não. — Mas as aulas? — ela pergunta. Percebo que, dada a velocidade de sua resposta, ela sabia que o trabalho seria um não. Ela perguntou para que ela pudesse ter algo para negociar. Angelique vem correndo até nós, com a sacola na mão. — Compras realizadas! Vamos comer bolo! Nós dois sorrimos para ela, eu espero até que Isabelle olhe para mim novamente. — Pegue o que você precisa para ensinar a minha filha e discutiremos suas aulas mais tarde. — Mais tarde quando? — Veremos. — Não está bom o suficiente. Hoje. Eu suspiro. — Tudo bem, hoje. Ela sorri e é um sorriso que eu não tinha visto antes. — Ok. Eu serei rápida. — ela diz a Angelique e se apressa para escolher algumas coisas das prateleiras. Ela então os entrega para mim e novamente, vejo um rubor em suas bochechas. Pego os livros e a levo até a caixa registradora. — Eu odeio isso. — ela diz enquanto esperamos na fila. — O quê? — Que você está pagando. Eu quero um emprego, Jericho. Quero ganhar meu próprio dinheiro. — Eu vou te pagar para ensinar minha filha. — eu digo, a ideia tomando forma ali mesmo. Pelo olhar em seu rosto, ela está intrigada, mas cética. — Vou deduzir isso do seu primeiro cheque. — digo a ela enquanto coloco os livros no balcão e olho para ela. — Combinado? — Sério? Eu concordo. Ela me estuda. Eu levanto minhas sobrancelhas. — Ok. — ela diz. — Combinado. — Bom. — Agradeço ao caixa, pego a sacola e me inclino em direção à minha esposa. — Agora vamos pegar aquele bolo que você está desejando, pequena mentirosa. Ela sorri vitoriosa. Eu posso dar isso a ela.
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