Jean
A ligação de Anna me pegou de supresa. Eu estava quase, tão perto, de me declarar para Olivia, a mulher que faz meu mundo ficar de cabeça para baixo — e ela nem sabe que eu existo.
Então, eu larguei tudo, sai correndo do bar e entrei em um táxi. Eu sabia que de alguma forma essa noite terminaria assim, com Anna aos cacos por causa do pai, mas eu tinha a minhas esperanças, é claro.
Parece que quando estamos com mais pressa mais o trânsito se torna vagaroso. Eu quase pedi ao motorista que pegasse outra rota, mas olhando para o estrangeiro ao volante eu percebi que seria melhor poupar meu fôlego. Anna precisa de mim, e eu fiz uma promessa que sempre estaria do lado dela. Não que eu me arrependa, mesmo que de trabalho, Anna é uma amiga querida e eu não mudaria nada na nossa relação.
Quando eu a encontro ela está agachado na calçada da casa do pai dela. O rosto inchado e os olhos avermelhados me entregam o tamanho do estrago feito.
— Esse filho de uma... — Sufoco o palavrão em minha garganta. Não é hora para ficar irritado.
Me agacho até ficar na altura dela. Anna olha para meu corpo e então mais lágrimas se antecedem.
— Você estava com a Olívia, não estava?
— Não tem problema, você sabe disso.
E então mais e mais choro. Eu deveria ter tirado o blazer, ou simplesmente desabotoado a camisa social. Se tinha como piorar o estado emocional de Anna, eu o fiz.
— Vem gatinha, eu vou te levar pra casa.
Puxo ela para cima, e a sustento em meus braços.
— Eu sou uma amiga terrível. — Ela choraminga.
— Você não é uma amiga terrível, você e a minha melhor amiga. Vem, o táxi ainda está contando.
Eu sei que a noite seria regada em lágrimas e lenços encharcados. Felizmente eu tenho paciência, vontade e um pote de sorvete esperando para ser atacado. Se existe um jeito de recompor Anna, é com comida e carinho.
Eu já disse a ela que ser amigo dela e ter um gato de estimação é a mesma coisa, e é claro que ela não gostou da comparação. Ainda assim, Anna é a minha gata preferida, com arranhões e tudo.