Capítulo 4

1351 Palavras
Annabeth Jean faz carinho em meus cabelos sem parar. Tenho a vaga impressão de que sua mão está cansada, mas ele não para. Estamos na sala do seu apartamento, assistindo a um filme, o pote de sorvete está em minhas mãos e é muito saboroso. Estou me sentindo melhor, essa é uma das habilidades de Jean. Me tranquilizar até nos piores momentos. — Liz perguntou por você. — Ele fala baixinho. Me sinto péssima por saber que Jean a visitou e eu não. Olha, entre meu trabalho e os ensaios eu não tenho tempo para quase nada. Mas isso não é desculpa. Eu preciso visitar Liz. — Você foi visitá-la? — Sim, ela está...abatida. Os médicos disseram que a químio sempre a deixa pior. — Esses remédios só machucam ainda mais. — Vagarosamente, aquele nó em minha garganta volta. Estou tão cansada de chorar. — Eu vou visita-la amanhã, sem falta. — Isso vai ser bom, ela gosta quando você a visita. — Deixe de mentira, ela prefere você. Você sabe que ela tem uma queda por você, né? Uma apaixonite de adolescente. Jean ri. — Eu sei, já suspeitava. Pelo menos ela tem bom gosto. — Ele dá uma piscadela e eu reviro os olhos. Jean sempre teve um auto amor inabalável. Que inveja dele, é raro as vezes em que eu acordo e me sinto bem com o que está no espelho. Talvez, esse lance de felicidade e dias bons não seja para mim. {•••} — Vamos Olivia, está errando os passos de novo! — Reclama Natália. É a terceira vez que repassamos tudo do início. Meus pés estão tão doloridos. Minhas costas queimam como um inferno. Tudo dói. Eu só quero tomar um banho, vestir algo confortável e ir visitar minha irmã. Eu só quero que esse espetáculo chegue logo, para que eu tenha alguns dias de folga. — Não, Mike, está errando o passo e Mia, está muito afrente da música! Natália grita e grita e grita. Ao menos não estou na direção da sua raiva. Eu posso estar com os pés doloridos e cheios de bolha, mas não errei um passo hoje. — Chega! Parem todos agora! O estúdio fica em silêncio absoluto. Até mesmo o próprio vento deixou de correr através das janelas. Ninguém quer ficar perto de Natália quando ela está em seu acesso de raiva. — Uma semana. Faltam apenas sete dias para o show e vocês ainda erram os passos simples! — Ela está gritando, a veia em sua testa dilatou e seu ódio é palpável. Eu posso não gostar das broncas mas eu entendo Natália. Tudo está sob os ombros dela e se esse espetáculo for um fiasco é o nome dela que vai para a lama. É pressão demais em cima de alguém. — Eu quero que façam mais uma vez do início, e tentem ao menos acertar os passos. Não sei que tipo de bailarinos vocês querem ser mais o meu show não vai ser um fiasco por causa de vocês. Então me entendendo? Todos dizem sim em unissono. E então giramos e rodopiamos. Dançamos até sentir que nossos pés foram cortados dos nossos corpos. Cada nota da música e cada batida se tornou parte dos nossos movimentos. Eu tomei cuidado para não errar o salto, e felizmente consegui. Quando acabou Natália não estava feliz, mas também não estava cheia de raiva como antes. — Pelo menos não erraram os passos. — Ela suspira alto. — Anna, quero falar com você. O resto está dispensado. Com a ansiedade na boca do estômago vou até ela, descendo do palco e atravessando uma fileira de cadeiras. — Pois não? — Eu preciso da sua ajuda. Eu achei que daria para fazer a cena final com todos os dançarinos com você, mais está um fiasco. Eu não posso nem sonhar em ter que colocar eles lá. — Ela esfrega a têmpora. — Acha que consegue fazer essa parte em um solo? — Como a companhia Dollor fez em Paris? Ela afirma que sim. Minha nossa. Essa é uma oportunidade única. — Claro, eu consigo. Vou dar o meu melhor. — Eu sei que vai querida, estou contando com você. {•••} Os tubos de soro impossibilitam dela se mexer com facilidade. O aparelho soa um apito por vez a cada batida do seu coração. Sua aparência é abatida e pálida, e apesar do seu corpo pequeno estar cansado, seus olhos estão brilhando e cheios de vida. — Que incrível, Anna! Você vai ser a Odete! — Eu ainda nem acredito que ela me ofereceu isso, Liz. Estou tão feliz. Eu queria que você pudesse estar lá, mas tudo bem. Você vai estar comigo de qualquer jeito. — Porque estou no seu coração. — Ela leva a mão até meu peito. — E você está no meu. Senti sua falta, Anna. Porque não me atendeu? Eu liguei para você. — Eu sei florzinha, eu estava trabalhando não podia atender. Você sabe que eu preciso ganhar dinheiro. — Eu sei, você paga o meu tratamento, mas é injusto eu não poder falar com você. Fala com seu chefe, explica que ele que tem uma irmã morrendo e que ela precisa falar com você. Sou golpeado pelas palavras dela. A vontade de chorar é um mero eco em meu corpo, pois a dor é avassaladora. — Liz, você não vai morrer. Não diga isso. — Anna, um dia todos vão morrer. É inevitável. — Mas não você, não minha irmãzinha. Você tem que ser forte, florzinha. Tem que lutar. Eu não consigo viver sem você, florzinha. As lágrimas rolam soltas e eu sufoco, soluço e engasgo. A mãozinha de Liz aperta a minha mão. Eu já perdi a minha mãe, não posso perder Liz também. Eu só tenho ela, é a única família que me restou. Eu não sei como vou seguir em frente se isso chegar a acontecer. — Eu vou lutar, eu prometo. Dou um beijo na testa da minha irmã. — Eu vou falar com o seu médico, eu já volto. Eu trabalho para que ela tenha conforto e o melhor tratamento. Eu vendo o meu corpo para homens arrogantes e pervertidos para dar uma boa vida a ela, para lhe dar conforto. Eu gasto mais com ampolas de morfina do que com o meu aluguel, só para que a dor não a derrube. Minha vida toda foi moldada para trazer conforto a Liz e eu não admito que ela esteja desistindo. — Ela ouviu que uma de nossas pacientes não resistiu. Nós tomamos cuidado com esse tipo de informação, mas os próprios pacientes espalham a fofoca. Eu sinto muito, Srta. MacAizen. — Eu entendo que a culpa não é de vocês, de verdade. Mas Liz está tão abalada. Eu preciso ouvir boas notícias doutor. No entanto, nada no semblante dele diz que coisa boa estar por vir, pelo contrário, mas notícias estão chegando. — Infelizmente o tratamento não está surtindo tanto efeito. Nós ligamos diariamente para o centro de doação atrás de uma medula compatível com a da sua irmã, mas infelizmente ainda não tivéssemos sorte. — Se ela não conseguir um doador, o tratamento não vai salva-la? — A químio no caso da sua irmã é apenas um paliativo para evitar a proliferação das células mutadas. O que ela precisa e de uma doação, mas infelizmente nem todos estão dispostos a doar. — Eu entendo, obrigada. Minha irmãzinha está morrendo de fato. O câncer no sangue dela a está matando e não há nada que eu possa fazer para mudar isso. Não somos compatíveis então não posso doar. Se ao menos meu pai tivesse um pingo de amor no coração e quisesse doar. Ou deixar que meu irmãozinho, filho dele com a megera da Violet pudesse testar, talvez assim pudéssemos ter esperança. Mas o orgulho dele é maior do que a bondade em seu coração. Chorar já se tornou comum mas dessa vez a dor em meu peito parece que quer me matar. Eu não posso perde-la. Por favor, eu não posso perde-la.
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