CAPÍTULO 02

1939 Palavras
Amanda — É INVASÃO, OS CANAS TÃO INVADINDO! — CL tenta me proteger com seu corpo, me empurrando para o interior da sorveteria, local que parecia ser o depósito. Instantaneamente pensei no Cristiano. — E o Cristiano? Onde ele está? — Onde ele tá, eu não sei patroa, mas tá trocando com a polícia em algum lugar. Passou um rádio agorinha! — Trocando? O que você está dizendo, CL? Mais rajadas vinham em direção à sorveteria, e eu gritei com o susto que levei. — É patroa, trocando… — ele senta no canto do balcão e abre a mochila lotada de munição. — Payú tá trocando tiro com os vermes. — ONDE ESTÁ O RAMPINHA? — pergunto apavorada. CL me olhou, mas não houve tempo para responder. Disparos vindo lá de fora estilhaçam a porta de vidro da entrada da sorveteria. Os três funcionários já estavam atrás de algumas caixas no depósito, e CL gesticulava desesperadamente para que eu fizesse algo. — Vai porrä, mete o pé! — Ele ordenou sem nenhum tato, tentando assim, me fazer entender para sair de perto dele. — Vem também! — supliquei. — A missão é te proteger, patroa! — Se você ficar, vai morrer! CL me encara. — Sou pago pra isso! Posso ir em cana ou posso morrer, mas a minha missão é salvar a tua vida! Fiquei petrificada, complicando ainda mais a situação, que exigia agilidade. Uma mão firme puxou meu braço com força, me arrastando pelo piso frio, como se eu fosse um tecido fino e leve. E mais uma rajada de tiros fez meu coração acelerar. Rampinha era quem me arrastava e eu nem sei como, mas ele estava no depósito e me levava para sair pelos fundos. — Parado aí, vagabundo! Arma no chão e mãos para o alto! — escuto uma voz rude e grossa ordenar, mesmo estando relativamente distante. Os policiais haviam entrado na sorveteria e eu perguntei como eles chegaram tão rápido? — Perdi, perdi! — Escuto CL dizer e olhei apavorada para o Rampinha. — Anda logo! — ele ordenou enquanto me obrigava a sair pela janela, que do outro lado dava acesso a uma casa, a moradia do proprietário da sorveteria, provavelmente. Eu ali, fugindo da polícia mesmo sem ter cometido crime algum. Meu único erro foi me apaixonar pelo Cristiano. Mas eu não me arrependo, me entregaria a ele outra vez, mesmo se soubesse o preço que pagaria por isso. O aviso de meu pai ressoando como um eco dentro da minha cabeça: “Querem pegar você para chegar em quem eles querem” É isso, a polícia quer me pegar para chegar no Cristiano. Não posso deixar isso acontecer, preciso tentar proteger a vida do homem que amo. Esse pensamento me deu coragem para pular e por sorte, não havia grade ou outro obstáculo, pois o estoque da sorveteria estava passando por uma reforma. Durante o salto, o boné que eu usava caiu, meu coração martelando no peito enquanto a adrenalina corria em minhas veias. Meu corpo tremia sem parar, sentindo os efeitos do nervosismo. Rampinha pulou logo atrás de mim. O barulho das rajadas era infernal e assustador. Os funcionários da sorveteria não nos acompanharam, eles são trabalhadores honestos e nada devem à justiça. Eu também não devo, mas sou mulher do homem que comanda o tráfico nesta favela e isso é motivo mais que suficiente. Não posso ser pega, não posso ser isca para prenderem o amor da minha vida. Correndo por um espaço minúsculo, eu quase caí ao escorregar no limo esverdeado de uma escada de concreto. — Não aguento mais, estou exausta! — falei ao me segurar com as mãos apoiadas numa parede. — A gente não tem escolha! — Rampinha me repreendeu, puxando meu braço. — CL foi preso? — pergunto. — Não sei disso agora. Não dificulta o meu trabalho, você precisa meter o pé, patroa! — Rampinha, continuava fazendo a minha escolta. E eu não conseguia parar de pensar no CL sendo preso para que eu pudesse escapar. O radinho dele não parava de emitir chiados e várias mensagens com vozes diferentes. As centenas de projéteis espalhados pelo chão, eram como as folhas de árvores no final do outono espalhadas pelas ruas de Chicago. Lá no exterior, a visão era linda. Aqui é um horror. Uma pontada no meu peito e uma leve tontura me fazem parar mais uma vez. Na minha mente só vinha o Cristiano. — Deus, proteja o meu amor! É tudo que eu peço, não deixa nada acontecer com ele. — clamei a força divina, mesmo em meio ao barulho de tiros e gritos que não cessavam. Não houve tempo de pedir proteção a Fabi, Diana, Tino, Brand e outros. — Entra aí! — Rampinha ordena e eu entro em um vão à minha esquerda. Uma escada espremida entre dois barracos. Correndo, olho para trás e vejo Rampinha recarregando seu fuzil. Me agacho para aguardá-lo e assim recuperar um pouco do fôlego. De repente, o estrondo de algo caindo no chão me faz olhar novamente em sua direção. A poucos passos de mim, uns três metros talvez, Rampinha fora atingido com um tiro na cabeça. Ele desliza lentamente até o chão e rapidamente uma poça de sangue se forma ao redor de sua calota craniana. Levo as duas mãos trêmulas até a boca para impedir o grito que queria sair por ela. Meus olhos são inundados por lágrimas. Não sei de onde veio o tiro, não olhei para trás, provavelmente os policiais estavam chegando perto. Uma cachoeira quente e salgada começa a rolar pelo meu rosto, e mais uma vez o aviso do meu pai, me trouxe de volta à realidade. Não parei, apenas corri muito. — Meu Deus, meu Deus, meu Deus! — eu repetia baixinho, tremendo sem parar. O desespero tomou conta de mim. Um homem foi preso para me proteger e outro acabou de perder a vida pelo mesmo motivo. CL enfrentou a polícia para que Rampinha e eu ganhássemos tempo e conseguíssemos sair de lá. Nós saímos, mas agora Rampinha ficou pelo caminho. Sua vida foi ceifada para proteger a minha e eu me sinto o pior dos seres humanos por isso. Correr, correr e correr. Era tudo que eu poderia fazer, enquanto a cachoeira quente e salgada continuava molhando minha face, culpa pela morte do Rampinha me atingindo com força. Não sei até quando aguentaria fugir sem encontrar um local seguro para me esconder. O carro do Cristiano era blindado, mas estava na área da sorveteria. Tentar ir até lá, seria o mesmo que procurar pelo BOPE. Se eu não encontrasse um local seguro, seria pega, exatamente como meu pai avisou que a polícia estava planejando fazer. Em um ponto no final da viela estreita e sem iluminação do sol, parei exausta, apoiando as mãos nos joelhos, olhando para todos os lados. O cansaço estava me vencendo e eu não sabia em que parte da favela estava, mas precisava me esconder. Então, mesmo com poucas forças, voltei a correr, tentando encontrar um local seguro, se é que isso era possível diante do horror que meus olhos viam. Pelas casas ao meu redor, acreditava estar no caminho perto da igreja. Lá seria um bom lugar para me abrigar. Eu podia ouvir os meus batimentos cardíacos muito acelerados martelando no meu peito, enquanto corria pelas vielas devastadas, tentando escapar do caos que estava em toda parte. Não havia um lugar tranquilo, não havia um canto sequer em que o desespero não estivesse presente. Rajadas de armas de fogo invadiam o ar, impedindo de ver o azul do céu limpo. Carros e pneus incendiados bloqueavam o meu caminho e de todos que tentavam se proteger, nos fazendo desviar entre escombros e destroços. O barulho das explosões de bombas de efeito moral eram ensurdecedores e impediam o meu raciocínio. Cada passo era uma corrida pela sobrevivência e o pânico que eu sentia, se misturava com a fumaça. Era um pesadelo, porém eu estava acordada. Uma invasão de proporções cem vezes maior do que aquela em que minha mãe morreu, estava acontecendo. Tentei falar com Cristiano, mas é óbvio que não consegui. Será que ele estava bem? — Deus, proteja o meu homem. Proteja ele de qualquer m*l que o cerca. — eu pedia em pensamento. As lágrimas se misturavam com a sujeira em meu rosto, escorrendo até tocar minha boca sedenta por um copo de água e meus cabelos estavam uma bagunça. Esse era o retrato do caco que eu estava, enquanto lutava para não sucumbir ao desespero. Vidas se reduziam a instantes por onde eu passava e via corpos estendidos. O mundo ao meu redor ardia em chamas e gritos. Era desesperadora a vontade de estar com o Cristiano. Um aperto no peito e uma sensação de não vê-lo nunca mais tomavam conta de mim. Eu continuava correndo quando uma voz áspera me fez parar. — Parada aí, vagabundä! — o homem ordenou. — E gira bem devagar com as mãos pra cima, sem nenhuma gracinha. Me virei lentamente, tremendo igual vara verde, enquanto meu olhar cheio de lágrimas encontrava o rosto que mais parecia uma sombra do m*l. Um policial do BOPE, fortemente armado, estava diante de mim. Ele me agarrou com brutalidade, me arrastando pelos cabelos, andando alguns metros à frente, virando a direita logo depois, onde mais três deles estavam. Ao meu redor, todos fardados, incluindo uma mulher de pele morena, com o cabelo cheio de gel e impecavelmente preso em um coque. — Olha aí se não é a p*****a dele? - Um dos homens perguntou e sorriu. — Nem precisamos buscar, ela veio ao nosso encontro. Isso sim é um trabalho bem feito. — Disse o homem que me segurava. A mulher se aproximou de mim, com a postura e o olhar superior de quem se sente melhor do que qualquer outra pessoa. — Então você que é a piranhä do Payú? — Eu não sou piranhä! — A encarei e ele desferiu um tapa violento na minha cara, fazendo meu rosto virar com o impacto. Depois ela me puxou e me jogou sobre um carro que estava ali, pressionando meu rosto contra o capô do veículo. As mãos firmes da policial, pressionaram minhas costas contra o metal quase tão quente quanto o sangue que fervia em minhas veias. — Gosta de sentar pra bandido, piranhä? Gosta de ser depósito de esperma de assassino de policial pra ter vida boa com o dinheiro do tráfico? — Ela gritava no meu ouvido. — Então a tua conta chegou. É assim que mulherzinhas como você terminam. Você está presa, Amanda! E vai passar toda a sua juventude mofando na cadeia. RECADO DA AUTORA: Após muita análise e reflexão, decidi que, por enquanto, não irei postar o livro 2 nessa plataforma. Percebo que aqui o espaço já está muito bem delimitado para autores que têm seu público consolidado, e infelizmente, não há muita a******a para quem ainda está construindo seu caminho. Além disso, a circulação de PDFs ilegais que saem daqui tem me prejudicado de forma que não dá mais para ignorar. Essa história é totalmente fora dos padrões. É pesada, sangra, marca a alma de quem lê… mas, acima de tudo, mostra um amor incrivelmente surreal, insano e avassalador entre Amanda e Cristiano. Lamento muito por decepcionar quem estava aguardando por aqui, mas o livro 2 está completo e disponível no meu canal pago no Telegram. Quem tiver interesse em adquirir, é só me chamar no direct do i********:. Agradeço de coração a cada leitor que me acompanha, entende e valoriza meu trabalho. 💙
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