Capítulo 4

1192 Palavras
Naquela mesma noite, o clima na casa dos Khadowsky estava pesado. Louise voltara exausta do primeiro dia de trabalho, o qual fora marcado por longas horas de serviço e pelas interações enigmáticas com o Duque de Ridley. Embora ele mantivesse uma postura formal e controlada, Louise percebia em seus gestos uma presença intensa e magnética. Algo a deixava desconfortável — a sensação de que ele sabia mais sobre ela do que deixava transparecer. Enquanto Louise tentava relaxar em casa, Edmund, que havia esperado por um momento a sós com a irmã, se aproximou com uma expressão que misturava falsa preocupação e uma ansiedade contida. — Louise, preciso falar com você — começou ele, forçando um tom sério. — Ouvi dizer que Ridley é... um homem poderoso. Sabe, homens como ele raramente fazem algo sem segundas intenções. Louise ergueu o olhar, exausta, mas respondeu com paciência: — Edmund, ele foi educado comigo. A governanta me apresentou às funções, e eu apenas faço o meu trabalho. Não há necessidade de desconfiar. Mas Edmund inclinou-se para mais perto, a voz agora sussurrada, como se contasse um segredo. — Louise, pense no que poderia fazer. Ridley é um duque, com riqueza e influência. Ele pode oferecer mais do que um salário, entende? Se... soubermos como agir, você poderia garantir mais do que o sustento da família. Talvez ele precise de uma aliada... alguém em quem confiar para certos assuntos. Louise o fitou, tentando esconder a incredulidade. Ela sempre soube que Edmund não era o irmão mais confiável, mas não imaginava que ele a incentivaria a tirar vantagem de sua posição. — Edmund, o que está sugerindo é vergonhoso. Eu não sou esse tipo de pessoa, e espero que respeite isso. Só quero um trabalho honesto para que possamos nos sustentar. Edmund bufou, impaciente, e cruzou os braços. — Você é ingênua, Louise. Não é questão de ser honesta ou não; é questão de sobrevivência! Ou vai esperar que ele te use e depois a dispense como qualquer outra? É melhor jogar com inteligência. Louise suspirou, firme. — Edmund, eu trabalho para o Duque, nada mais. Se eu precisar de sua ajuda, confio que estará ao meu lado, mas jamais pedirei que me envolva em esquemas. Edmund abriu um sorriso cínico e se afastou. — Certo, irmãzinha, seja assim. Mas se um dia perceber que a oportunidade de algo maior bate à porta, não me culpe por incentivá-la a abraçá-la. Enquanto isso, na propriedade do Duque Mais tarde naquela noite, o Duque de Ridley saiu discretamente de sua propriedade. Com o céu encoberto por nuvens escuras e o vento cortante que balançava os galhos das árvores, ele caminhava rapidamente pelas ruas escuras de Yorkshire, com um propósito claro em mente: encontrar-se com Olívia, a soprano que visitava a cidade para uma curta temporada de apresentações. Ele sabia que as fofocas sobre suas escapadas haviam se espalhado pelos salões da alta sociedade, mas não se importava. Havia algo em Olívia que o fazia ignorar as consequências, e, naquela noite, seu desejo de vê-la falava mais alto que qualquer preocupação com sua reputação. Ao chegar ao pequeno chalé onde ela estava hospedada, bateu na porta com discrição. Em poucos segundos, Olívia abriu a porta e sorriu ao vê-lo. Com seu cabelo escuro caindo sobre os ombros e os olhos brilhantes, ela era o oposto das mulheres com quem o Duque estava acostumado — encantadora e despretensiosa, capaz de vê-lo como apenas um homem, e não um título. — Duque... já estava começando a achar que havia desistido de mim — ela murmurou, puxando-o para dentro. Ridley sorriu, envolvendo-a com um braço forte. — Eu jamais desistiria de uma noite com você, Olívia. Especialmente em meio a tantos aborrecimentos na minha vida. Ela o olhou curiosa. — Aborrecimentos? Conte-me mais. Ou... prefiro que esqueça de tudo enquanto está comigo? Ele riu suavemente, passando uma mão pelos cabelos dela. — Talvez ambos. Mas... já basta falar sobre mim. Esta noite é nossa. O tempo que passavam juntos era uma fuga, algo que Ridley prezava em sua vida cheia de responsabilidades. Ele sabia que, assim que amanhecesse, teria de voltar ao mundo que o esperava, com seus deveres e interesses. De volta à casa dos Khadowsky No dia seguinte, Louise acordou decidida a manter sua integridade, apesar das insinuações de Edmund. Ao se vestir, sentiu o peso da responsabilidade e a pressão que seu irmão estava tentando impor sobre ela. Mas sua determinação não diminuía — ao contrário, sentia-se ainda mais firme em provar que poderia cuidar dos irmãos sem sucumbir às armadilhas que Edmund propunha. No café da manhã, enquanto os outros irmãos ainda se recuperavam das farras, Edmund já estava de pé, aguardando-a. — Então, Louise, como foi a noite? Conseguiu refletir melhor sobre o que eu disse? — ele perguntou, casualmente, mas com um brilho malicioso nos olhos. Louise suspirou, mantendo a calma. — Edmund, já deixei claro que não tenho intenção de fazer o que sugeriu. Estou lá para trabalhar, apenas isso. Edmund estreitou os olhos, frustrado. — Está perdendo a chance de ajudar nossa família! Tudo o que passei, todos os sacrifícios... é como se não importassem para você. Louise o encarou, furiosa. — Sacrifícios? Edmund, os sacrifícios que fez foram jogando fora o pouco que tínhamos! Eu não tenho que me desculpar por querer um trabalho digno, nem por não seguir seus esquemas. A resposta de Louise pegou Edmund desprevenido, e ele se afastou, irritado, resmungando algo ininteligível. Mais tarde, na mansão do Duque Louise chegou à mansão com os nervos à flor da pele. No entanto, ao ver a imponente construção, ela endireitou os ombros e entrou. Havia uma determinação renovada em seu olhar. Ela não se deixaria intimidar pelas tentativas de Edmund de corrompê-la, e muito menos pelo carisma perigoso do Duque. Nos corredores, esbarrou com o próprio Duque de Ridley, que, com um leve sorriso, a observou. — Senhorita Khadowsky, bom dia — ele disse, estudando a expressão dela. — Tudo está bem? Louise assentiu, esforçando-se para parecer calma. — Sim, milorde. Apenas... questões familiares. Não vai afetar o meu trabalho. Ele inclinou a cabeça, como se considerasse aquela resposta. Algo nos olhos dele mostrava um interesse contido, mas perceptível, como se estivesse esperando uma chance de saber mais sobre ela. — Sabe, Louise, todos temos nossos desafios. Às vezes, as escolhas que parecem simples acabam sendo as mais difíceis de manter. Louise o olhou, surpresa com a sinceridade em sua voz. — Concordo, milorde. Mas acredito que manter minha dignidade será sempre mais fácil do que ceder. O Duque sorriu, como se estivesse satisfeito com a resposta dela. — Um pensamento admirável. Espero que mantenha isso, senhorita Khadowsky. Pessoas que sabem o que querem e que têm integridade são... raras. Ele seguiu em frente, deixando Louise com uma sensação estranha, de que ele poderia ser mais que um empregador. Ela percebeu que, mesmo com todos os desafios, aquele trabalho lhe oferecia uma chance real de provar a si mesma e de ajudar a família sem ceder à influência de Edmund. Mas, no fundo, ainda sentia a tensão do que estava por vir.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR