Embora eu tenha passado toda minha vida frequentando a igreja, eu nunca realmente soube como os anjos se parecem. Eu não sabia se eles tinham asas suaves ou aterrorizantes. Eu não sabia se seus rostos eram dóceis ou cruéis. Guerreiros ou arcanjos. Amorosos ou letais.
Mas enquanto eu o vejo caminhar para mim, sei que é o mais próximo de um anjo que eu chegarei a ver. Não apenas por seus olhos tão azuis que nem mesmo a noite pode ofuscá-los. Não apenas por seu rosto malditamente bonito, que me faz desejar ajoelhar e contemplar sua divindade. Mas, principalmente, pela forma como ele parece resplandecer.
Eu não sei se minha cabeça ainda está muito atordoada, ou se o cansaço me venceu e meus pensamentos não fazem mais sentido. Mas quando eu pisco várias vezes e o homem diante de mim não fica menos bonito, eu penso que estou ficando louca.
Ele caminha como uma pluma. Seus passos, apesar de ágeis e rápidos, são como leves beijos de seu sapato contra o chão. E, diga-se de passagem, um lustroso sapato preto. E eu poderia admirá-lo pelo resto da minha vida, como nunca havia feito antes dentro de um templo sagrado.
Aquelas esculturas de barro e porcelana, apesar de serem lindas, não descrevem a beleza dos céus como este homem. E que Deus me perdoe, mas eu não imagino um céu onde alguém como ele não exista.
Seu terno é cinza escuro, mas não chega perto de ser preto. A camisa é preta, e não há uma gravata. No entanto, um lenço requintado está em seu bolso, e é branquíssimo. Seu rosto é simétrico, e eu passo alguns segundos olhando para ele, mais do que seria educado.
- Eu perguntei o que você pensa estar fazendo – o homem repete, e sua voz grave me faz sair do transe.
Eu balanço a cabeça e me repreendo. De verdade, o que eu estava pensando?
- Eu tentei fugir – respondo, mas isso não parece deixá-lo menos bravo.
E então eu sei que este não seria um anjo amoroso, ele seria um guerreiro. Seus traços são fortes, não delicados, e incrivelmente perfeitos.
- Você precisa de um hospital?
Olho para seu rosto, e juro que é a última vez. Seu cabelo castanho é bem penteado, seus olhos azuis são escuros e profundos, e o que eu poderia dizer sobre seus lábios? O homem, como um todo, é perfeito. E que sua namorada me desculpe, mas eu nunca vi alguém mais charmoso.
- Talvez? – pergunto.
Ainda estamos no meio da rua, atrapalhando a vida de vários carros que passam por nós. Nos tornamos a atração principal, então as pessoas em frente à boate nos observam. E, mesmo assim, eu não consigo de para de olhar para ele como se fosse o homem mais bonito da terra.
O homem caminha até o outro lado de seu carro a abre a porta. Eu olho confusa para ele. Entrar em uma boate e entrar no carro de um desconhecido na mesma noite não são coisas que eu pretendo fazer, embora passar alguns minutos ao lado dele seja a melhor tentação que eu já sofri.
Ele continua segurando a porta aberta para mim, me olhando com uma expressão pouco amigável.
Minhas maiores tentações eram faltar a missa de sexta-feira, por estar muito cansada, ou fingir estar lendo um livro quando, na verdade, eu só queria dormir. No entanto, esta tentação é diferente. É muito, muito pior.
Alguém buzina, e então eu me dou conta de que atrapalhei o trânsito de uma via inteira. Com um pulo, eu me ponho a correr para a porta que o homem mantém aberta. O que mais poderia dar errado esta noite?
Ele fecha a porta e volta a caminhar para o lado do motorista. Eu sequer me lembro da última vez em que me sentei no acento passageiro de um carro.
E antes que ele abra a própria porta, eu faço o sinal da cruz mais uma vez. Sim, ele tem a beleza de um anjo. E sim, eu não estou infeliz sabendo que estaremos juntos pelos próximos minutos. Mas isso não quer dizer que eu não precise de proteção. Afinal, Lúcifer também era um anjo.
Meu Deus, não permita que o noite fique ainda pior. Eu prometo rezar durante toda a madrugada, e sequer pensarei em faltar à missa de amanhã.
O homem adentra o carro, e quando eu penso que as coisas não poderiam ficar piores, elas ficam. Porque quando ele fecha a porta, eu começo a sentir seu perfume. Certamente caro, e sobre coisas caras eu entendo.
Chego a me inclinar em sua direção para sentir um pouco mais do perfume exalando. Tem cheiro de limpeza, depois creme para barbear e perfume requintado. Não parece que ele se esforça para ser extremamente cheiroso, ou lindo. Ele apenas é.
- Para qual hospital você quer ir? – ele pergunta, e só então eu percebo um sotaque inglês em seu tom.
E ninguém poderia me julgar agora. Os europeus são sempre os mais charmosos.
- Eu gostaria de ir para casa – digo. Ele me encara com as sobrancelhas levemente franzidas – por favor – trato de completar.
O desconhecido olha para mim. Realmente olha. Seus olhos percorrem meu rosto por inteiro, analisando cada detalhe. Sinto que todos meus poros foram vistos por ele. Penso que ele desce o olhar para baixo do meu rosto, mas volta tão rápido que eu poderia facilmente ter imaginado.
- Onde você mora?
- Nos Hamptons.
Eu sei que não estou perto de casa, e também sei que levaríamos alguns minutos até chegar, mas ele quase me atropelou. Temos muito o que falar, não?
Eu sei que não.
Encosto a cabeça no vidro frio do carro. A chuva lá fora está começando a ficar mais forte, e talvez isso me ajude. Eu posso dizer que a chuva atrapalhou o caminho de volta. Isso se meu pai quiser me ouvir, pelo menos.
Contudo, embora uma parte de mim esteja arrependida (a parte cristã), outra parte está contente. Eu nunca fui à um clube antes. Eu nunca me sentei no acento passageiro, pois sempre estive atrás do motorista. Eu nunca quebrei sequer uma regra. Até ontem, Skyla Campbell era uma santa.
- Me desculpe. Eu estava tentando fugir de um homem que me abordou, e acabei no meio da pista. Eu não sou louca, mas hoje certamente não é meu dia – confesso.
Eu não espero que, de repente, ele me entenda. Eu sou uma garota sem conhecimento do mundo, que faz as maiores besteiras se deixada sozinha. Ele não é um homem velho, mas certamente já viveu mais do que eu. Honestamente, qualquer pessoa já viveu mais do que eu.
O homem solta um longo suspiro. Espero que ele não pense tão m*l de mim agora. E eu estou em seu carro, em uma carona totalmente improvisada para casa. Não precisamos ser inimigos, afinal de contas. Ele só quase me matou.
- O importante é que você está bem – é tudo que ele diz.