Pré-visualização gratuita Episódio 1
Emilio
Rio de Janeiro, dezembro de 1998
Aquele desg*raçado me devia dinheiro.
Emilio caminhava de um lado para o outro na varanda que ladeava a casa do irmão. Abaixo dele, a cidade do Rio de Janeiro se estendia num deslumbrante conjunto de luzes, uma cidade pontilhada de arranha-céus e montanhas verdejantes que se erguiam ao longe como um manto protetor.
Era lindo, e ele não podia ne*gar.
— Quanto? Perguntou Emílio, dando uma tragada no cigarro e soltando a fumaça com um resmungo.
Juliano, seu irmão mais novo, descruzou as pernas e pousou o copo de Whisky ao lado dele. — Trinta.
Os punhos de Emílio fecharam-se em torno da sua própria garrafa de Whisky, uma fina rachadura aparecendo no delicado vidro. — Trinta?
— Foi uma grande remessa, chefe.
Julian sempre o chamava de chefe quando falavam de negócios.
Emilio colocou o cigarro entre os dentes e tentou transmitir uma sensação de calma. Ele era o chefão do tráfico do comando puro, o m*aldito dono do império da droga que se estendia das profundezas do Rio de Janeiro até o México, com os seus tentáculos alcançando o norte da Califórnia e além.
Ele era o chefe dos chefes. E quando tomava uma decisão, machados caíam e cabeças rolavam. Se os capangas e gerentes que ele contratava viviam ou morriam, não importava para um homem como Emílio.
Mas família. Ah, sim, família era diferente. Havia uma regra não escrita entre as favelas do Rio de Janeiro.
Se você cruzasse o caminho da facção, levava um tiro, simples assim. Mas a sua família, a sua esposa e os seus filhos, sairiam ilesos. No seu funeral, um capanga da facção entregaria à sua esposa dinheiro para ela se virar, talvez mais se você fosse um funcionário antigo, e você daria o seu último suspiro sabendo que pelo menos a sua família estaria bem depois que você morresse e fosse enterrado.
Mas trinta mil dólares em cocaína era uma grande cagada. Uma cagada colossal. Porque os trinta mil dólares gastos para produzir, embalar e enviar o melhor pó branco do Rio de Janeiro se transformariam em meio milhão de dólares de lucro puro.
A droga chegaria às ruas de Los Angeles e seria distribuída entre os pequenos traficantes e fornecedores.
Quinhentos mil dólares em potencial de lucro, e Marco Rodriguez tinha dirigido o m*aldito caminhão direto para os braços abertos da DEA (Administração de Repressão às Drogas dos Estados Unidos). A cocaína de Emílio estava trancada em algum depósito do governo, os traficantes de Los Angeles clamavam por mais produto para suprir a demanda, e Emílio estava com um prejuízo de meio milhão de dólares.
Ele lançou um olhar irritado para Julian. Julian parou de mastigar o cubo de gelo na boca e o deixou repousar na língua.
— Podemos conseguir alguém que recupere a carga? Perguntou Emilio, já sabendo a resposta.
Juliano balançou a cabeça, engolindo o gelo. — Não. Estava tudo organizado com a fronteira. Com os comprados. Mas, eles não tem poder para intervir em nada nos Estados Unidos. Lá não é tão fácil como no Brasil. O cara simplesmente pegou a rota errada.
Emilio assentiu, resignado. — Então, você sabe o que precisamos fazer.
— Fazer uma visita ao Marco?
Só de mencionar o nome daquele desgraçado, Emílio já sentia vontade de socá-lo até os seus olhos estourarem e os seus dentes se estilhaçarem.
— Fazer uma visita ao Marco. Repetiu Emílio, imitando o irmão mais novo. — E à família dele. Acrescentou. — Ele tem filhos, não é? Uma esposa?
Ele ia dar uma lição naquele desgraçado. Uma grande lição. E depois ia atirar nele e deixá-lo sangrar até morrer como castigo.
— Três filhos. Disse Juliano, cauteloso. — Uma esposa.
— Ótimo. Disse Emilio. — Então, esta noite. Faremos uma visitinha que eles não esquecerão tão cedo.
Juliano pareceu preocupado.
— Sabe o que dizem sobre tempos extraordinários? Ponderou Emílio, dando outra tragada no cigarro. — Eles exigem medidas extraordinárias.
— Você quer que eu acabe com a família? Perguntou Juliano.
— Não. Respondeu Emílio, com um sorriso largo que deixou os seus dentes à mostra. — Deixe isso comigo.