O silêncio não durou.
Ele nunca dura.
Durante dois dias inteiros, o vale permaneceu calmo demais. Não houve patrulhas baixas. Nenhum dragão cruzou o céu ao amanhecer. Nenhum humano ergueu armas ao menor ruído. À primeira vista, parecia paz.
Mas Aethon sabia reconhecer o vazio antes da tempestade.
Ele permanecia próximo, nunca visível demais, nunca ausente. Observava rotas, hábitos, mudanças sutis. O Reino de Cristal sempre falava — bastava saber ouvir.
Foi Lyren quem sentiu primeiro.
— Algo está errado — disse, pousando com as asas ainda tensas. — Draco não reage assim.
Ele provoca e testa.
O silêncio… não é o estilo dele.
Aethon concordou.
— Quando alguém cala uma multidão à força, não precisa gritar.
No vilarejo, Rute percebeu mudanças diferentes.
As conversas cessavam quando ela se aproximava.
Não por rejeição.
Por cautela.
— Estão observando — disse a anciã, em voz baixa. — Não dragões as pessoas.
Rute franziu o cenho.
— Quem?
— Aqueles que não querem escolher lados.
Naquela mesma noite, uma das fogueiras não se apagou.
Ela foi deixada acesa.
Sozinha.
Era um sinal antigo entre humanos — pedido de ajuda silencioso.
Aethon sentiu o chamado como um peso no peito.
— Não é um convite — disse Lyren. — É um aviso.
Eles chegaram juntos.
O homem estava sentado perto do fogo, mãos trêmulas, olhos baixos.
— Não posso falar alto — disse ele. — Mas ouvi coisas.
— Sobre o quê? — perguntou Rute.
— Sobre entregar nomes — respondeu. — Para garantir p******o.
O silêncio que se seguiu foi diferente.
Mais denso.
— Nomes de quem? — perguntou Aethon.
O homem engoliu em seco.
— De quem conversa com dragões. De quem defende neutralidade. De quem… escuta.
Lyren rosnou baixo.
— Draco.
— Não só ele — corrigiu o homem. — Há humanos que acreditam que, se colaborarem, estarão seguros.
Rute sentiu um frio percorrer-lhe a espinha.
— Eles estão entregando pessoas.
— Ainda não — disse o homem. — Mas estão se preparando.
Aethon fechou os olhos por um instante.
O silêncio agora tinha nome.
— Medo organizado — disse ele.
Na manhã seguinte, marcas surgiram nas portas de três casas.
Nada explícito.
Apenas riscos discretos.
Mas suficientes.
As pessoas entenderam.
— Estão marcando — sussurrou alguém.
— Para p******o? — perguntou outro.
— Para separação — respondeu a anciã.
Aethon observou à distância.
— Se eu aparecer agora, confirmo o perigo — disse.
— E se não aparecer? — perguntou Rute.
— Eles aprenderão a se vigiar sozinhos.
A decisão pesou.
Mas foi tomada.
Naquela noite, Aethon não desceu.
Lyren também não.
O céu permaneceu vazio.
No vilarejo, duas pessoas foram levadas para interrogatório “preventivo”.
Voltaram.
Machucadas.
Não fisicamente.
— Eles perguntaram sobre você — disse uma delas a Rute. — Querem saber quando você fala com o dragão.
Rute sentiu o mundo inclinar.
— Então o silêncio virou ameaça — disse.
Aethon ouviu a frase mais tarde.
Ela ecoou.
— O silêncio não é neutralidade — disse ele a Lyren. — É ferramenta.
— E ferramentas exigem resposta — respondeu o dragão.
Aethon ergueu o olhar para o céu escuro.
— Então acabou o tempo de apenas observar.
No alto das montanhas, Draco também se movia.
— Eles estão com medo — disse ele aos seus. — Agora, direcionem.
No vale, Rute acendeu uma fogueira.
Não para chamar dragões.
Para chamar pessoas.
E, naquela noite, o silêncio finalmente se rompeu.
Não com gritos.
Mas com passos.