Capítulo 14

581 Palavras
O silêncio não durou. Ele nunca dura. Durante dois dias inteiros, o vale permaneceu calmo demais. Não houve patrulhas baixas. Nenhum dragão cruzou o céu ao amanhecer. Nenhum humano ergueu armas ao menor ruído. À primeira vista, parecia paz. Mas Aethon sabia reconhecer o vazio antes da tempestade. Ele permanecia próximo, nunca visível demais, nunca ausente. Observava rotas, hábitos, mudanças sutis. O Reino de Cristal sempre falava — bastava saber ouvir. Foi Lyren quem sentiu primeiro. — Algo está errado — disse, pousando com as asas ainda tensas. — Draco não reage assim. Ele provoca e testa. O silêncio… não é o estilo dele. Aethon concordou. — Quando alguém cala uma multidão à força, não precisa gritar. No vilarejo, Rute percebeu mudanças diferentes. As conversas cessavam quando ela se aproximava. Não por rejeição. Por cautela. — Estão observando — disse a anciã, em voz baixa. — Não dragões as pessoas. Rute franziu o cenho. — Quem? — Aqueles que não querem escolher lados. Naquela mesma noite, uma das fogueiras não se apagou. Ela foi deixada acesa. Sozinha. Era um sinal antigo entre humanos — pedido de ajuda silencioso. Aethon sentiu o chamado como um peso no peito. — Não é um convite — disse Lyren. — É um aviso. Eles chegaram juntos. O homem estava sentado perto do fogo, mãos trêmulas, olhos baixos. — Não posso falar alto — disse ele. — Mas ouvi coisas. — Sobre o quê? — perguntou Rute. — Sobre entregar nomes — respondeu. — Para garantir p******o. O silêncio que se seguiu foi diferente. Mais denso. — Nomes de quem? — perguntou Aethon. O homem engoliu em seco. — De quem conversa com dragões. De quem defende neutralidade. De quem… escuta. Lyren rosnou baixo. — Draco. — Não só ele — corrigiu o homem. — Há humanos que acreditam que, se colaborarem, estarão seguros. Rute sentiu um frio percorrer-lhe a espinha. — Eles estão entregando pessoas. — Ainda não — disse o homem. — Mas estão se preparando. Aethon fechou os olhos por um instante. O silêncio agora tinha nome. — Medo organizado — disse ele. Na manhã seguinte, marcas surgiram nas portas de três casas. Nada explícito. Apenas riscos discretos. Mas suficientes. As pessoas entenderam. — Estão marcando — sussurrou alguém. — Para p******o? — perguntou outro. — Para separação — respondeu a anciã. Aethon observou à distância. — Se eu aparecer agora, confirmo o perigo — disse. — E se não aparecer? — perguntou Rute. — Eles aprenderão a se vigiar sozinhos. A decisão pesou. Mas foi tomada. Naquela noite, Aethon não desceu. Lyren também não. O céu permaneceu vazio. No vilarejo, duas pessoas foram levadas para interrogatório “preventivo”. Voltaram. Machucadas. Não fisicamente. — Eles perguntaram sobre você — disse uma delas a Rute. — Querem saber quando você fala com o dragão. Rute sentiu o mundo inclinar. — Então o silêncio virou ameaça — disse. Aethon ouviu a frase mais tarde. Ela ecoou. — O silêncio não é neutralidade — disse ele a Lyren. — É ferramenta. — E ferramentas exigem resposta — respondeu o dragão. Aethon ergueu o olhar para o céu escuro. — Então acabou o tempo de apenas observar. No alto das montanhas, Draco também se movia. — Eles estão com medo — disse ele aos seus. — Agora, direcionem. No vale, Rute acendeu uma fogueira. Não para chamar dragões. Para chamar pessoas. E, naquela noite, o silêncio finalmente se rompeu. Não com gritos. Mas com passos.
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