Capítulo 15

1406 Palavras
O dia começou como qualquer outro. E isso, por si só, já era estranho. As portas se abriram no horário habitual. Crianças cruzaram as ruas de terra com passos apressados. O sino improvisado do vilarejo soou uma única vez, anunciando o início das tarefas. Não havia correria. Não havia fogueiras apagadas às pressas. Não havia esconderijos. Rute percebeu primeiro. — Eles não se trancaram — disse à anciã. A mulher observou ao redor, tensa. — Estão cansados de viver abaixando a cabeça. Aethon sentiu o mesmo movimento do alto das colinas. Não pelo cheiro do ar, mas pela ausência dele. O medo, quando domina, deixa rastros claros. Naquele dia, não havia rastros. Lyren pousou ao seu lado. — Algo mudou — disse. — As pessoas decidiram ficar visíveis — respondeu Aethon. No centro do vilarejo, Rute acendeu uma fogueira. Dessa vez, não foi um pedido silencioso. Foi um gesto claro. — Se forem nos marcar — disse ela, a quem quisesse ouvir — que saibam onde estamos. Alguns hesitaram. Outros se aproximaram. Um homem retirou o pano que cobria a marca discreta em sua porta. — Não tenho mais interesse em p******o comprada — disse. Uma mulher fez o mesmo. Depois outra. O gesto espalhou-se sem gritos. Sem ordem. No alto das montanhas, o movimento foi notado. — Eles não recuaram — informou um batedor. Draco cerrou as garras. — Então avancem. Mas o avanço não veio do céu. Veio da terra. Um grupo de homens armados apareceu na entrada do vilarejo. Não soldados oficiais. Não caçadores experientes. Voluntários do medo. — Disseram que estão colaborando — sussurrou alguém. Rute avançou um passo. — Estamos apenas vivendo — disse. — Isso agora é crime? O líder do grupo hesitou. — Pediram nomes — disse ele. — Não confronto. — Então não terão nenhum — respondeu Rute. O silêncio foi quebrado por passos atrás dela. Aethon surgiu. Não em voo. Caminhando. As pessoas o viram chegar. E ninguém correu. — Volte — alertou Lyren, pousando mais atrás. — Não hoje — respondeu Aethon. Ele posicionou-se ao lado de Rute. — Não vim desafiar — disse aos homens. — Vim estar presente. Um dos voluntários ergueu a arma. Não apontou. Abaixou. — Não nos disseram o que fazer se vocês não corressem — murmurou. O grupo recuou lentamente. Não derrotado. Desorientado. No alto, Draco observava, furioso. — Ele transformou presença em escudo — rosnou. — Ou revelou que vocês nunca quiseram lutar — respondeu um dragão próximo. Draco se virou. — Cuidado. No vilarejo, a fogueira continuava acesa. Pessoas permaneciam. Falavam. Não sobre dragões. Sobre escolhas. Aethon olhou ao redor. Não era uma vitória. Era algo mais frágil. — Hoje — disse ele a Rute — ninguém se escondeu. Ela assentiu. — Amanhã, talvez cobrem por isso. Aethon ergueu o olhar para o céu. — Então amanhã responderemos. O Reino de Cristal havia cruzado um limite invisível. E limites, uma vez cruzados, nunca se apagam. Naquela mesma tarde, pequenas consequências começaram a surgir. Uma mulher que nunca havia falado em público passou a distribuir água entre os presentes, como se o simples gesto a ancorasse àquele momento. Um ferreiro largou o martelo e sentou-se próximo à fogueira, observando o fogo com atenção incomum. As pessoas não sabiam exatamente o que estavam fazendo — apenas sabiam que não estavam mais sozinhas. Aethon permaneceu ali por mais tempo do que pretendia. Sentiu olhares curiosos, alguns ainda desconfiados, outros francamente cansados demais para sustentar o ódio. Ele não falou. Não precisava. Sua presença dizia o suficiente. — Eles vão voltar — murmurou Lyren, aproximando-se com cautela. — Não hoje. Mas virão. — Eu sei — respondeu Aethon. — E quando vierem, encontrarão mais do que esperam. Rute observava tudo com atenção silenciosa. Pela primeira vez, não sentia o peso de representar algo maior. Era apenas uma entre muitos. E isso, percebeu, era a verdadeira mudança. Quando o sol começou a se pôr, ninguém pediu que a fogueira fosse apagada. Ela permaneceu ali, queimando baixo. Não como desafio. Mas como lembrança. E, naquela noite, enquanto o vilarejo adormecia sob um céu atento, algo ficou claro para todos que haviam permanecido: não era mais possível fingir que nada estava acontecendo. O dia começou como qualquer outro. E isso, por si só, já era estranho. As portas se abriram no horário habitual. Crianças cruzaram as ruas de terra com passos apressados. O sino improvisado do vilarejo soou uma única vez, anunciando o início das tarefas. Não havia correria. Não havia fogueiras apagadas às pressas. Não havia esconderijos. Rute percebeu primeiro. — Eles não se trancaram — disse à anciã. A mulher observou ao redor, tensa. — Estão cansados de viver abaixando a cabeça. Aethon sentiu o mesmo movimento do alto das colinas. Não pelo cheiro do ar, mas pela ausência dele. O medo, quando domina, deixa rastros claros. Naquele dia, não havia rastros. Lyren pousou ao seu lado. — Algo mudou — disse. — As pessoas decidiram ficar visíveis — respondeu Aethon. No centro do vilarejo, Rute acendeu uma fogueira. Dessa vez, não foi um pedido silencioso. Foi um gesto claro. — Se forem nos marcar — disse ela, a quem quisesse ouvir — que saibam onde estamos. Alguns hesitaram. Outros se aproximaram. Um homem retirou o pano que cobria a marca discreta em sua porta. — Não tenho mais interesse em p******o comprada — disse. Uma mulher fez o mesmo. Depois outra. O gesto espalhou-se sem gritos. Sem ordem. No alto das montanhas, o movimento foi notado. — Eles não recuaram — informou um batedor. Draco cerrou as garras. — Então avancem. Mas o avanço não veio do céu. Veio da terra. Um grupo de homens armados apareceu na entrada do vilarejo. Não soldados oficiais. Não caçadores experientes. Voluntários do medo. — Disseram que estão colaborando — sussurrou alguém. Rute avançou um passo. — Estamos apenas vivendo — disse. — Isso agora é crime? O líder do grupo hesitou. — Pediram nomes — disse ele. — Não confronto. — Então não terão nenhum — respondeu Rute. O silêncio foi quebrado por passos atrás dela. Aethon surgiu. Não em voo. Caminhando. As pessoas o viram chegar. E ninguém correu. — Volte — alertou Lyren, pousando mais atrás. — Não hoje — respondeu Aethon. Ele posicionou-se ao lado de Rute. — Não vim desafiar — disse aos homens. — Vim estar presente. Um dos voluntários ergueu a arma. Não apontou. Abaixou. — Não nos disseram o que fazer se vocês não corressem — murmurou. O grupo recuou lentamente. Não derrotado. Desorientado. No alto, Draco observava, furioso. — Ele transformou presença em escudo — rosnou. — Ou revelou que vocês nunca quiseram lutar — respondeu um dragão próximo. Draco se virou. — Cuidado. No vilarejo, a fogueira continuava acesa. Pessoas permaneciam. Falavam. Não sobre dragões. Sobre escolhas. Aethon olhou ao redor. Não era uma vitória. Era algo mais frágil. — Hoje — disse ele a Rute — ninguém se escondeu. Ela assentiu. — Amanhã, talvez cobrem por isso. Aethon ergueu o olhar para o céu. — Então amanhã responderemos. O Reino de Cristal havia cruzado um limite invisível. E limites, uma vez cruzados, nunca se apagam. Naquela mesma tarde, pequenas consequências começaram a surgir. Uma mulher que nunca havia falado em público passou a distribuir água entre os presentes, como se o simples gesto a ancorasse àquele momento. Um ferreiro largou o martelo e sentou-se próximo à fogueira, observando o fogo com atenção incomum. As pessoas não sabiam exatamente o que estavam fazendo — apenas sabiam que não estavam mais sozinhas. Aethon permaneceu ali por mais tempo do que pretendia. Sentiu olhares curiosos, alguns ainda desconfiados, outros francamente cansados demais para sustentar o ódio. Ele não falou. Não precisava. Sua presença dizia o suficiente. — Eles vão voltar — murmurou Lyren, aproximando-se com cautela. — Não hoje. Mas virão. — Eu sei — respondeu Aethon. — E quando vierem, encontrarão mais do que esperam. Rute observava tudo com atenção silenciosa. Pela primeira vez, não sentia o peso de representar algo maior. Era apenas uma entre muitos. E isso, percebeu, era a verdadeira mudança. Quando o sol começou a se pôr, ninguém pediu que a fogueira fosse apagada. Ela permaneceu ali, queimando baixo. Não como desafio. Mas como lembrança. E, naquela noite, enquanto o vilarejo adormecia sob um céu atento, algo ficou claro para todos que haviam permanecido: não era mais possível fingir que nada estava acontecendo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR