O dia começou como qualquer outro.
E isso, por si só, já era estranho.
As portas se abriram no horário habitual. Crianças cruzaram as ruas de terra com passos apressados. O sino improvisado do vilarejo soou uma única vez, anunciando o início das tarefas. Não havia correria. Não havia fogueiras apagadas às pressas.
Não havia esconderijos.
Rute percebeu primeiro.
— Eles não se trancaram — disse à anciã.
A mulher observou ao redor, tensa.
— Estão cansados de viver abaixando a cabeça.
Aethon sentiu o mesmo movimento do alto das colinas. Não pelo cheiro do ar, mas pela ausência dele. O medo, quando domina, deixa rastros claros. Naquele dia, não havia rastros.
Lyren pousou ao seu lado.
— Algo mudou — disse.
— As pessoas decidiram ficar visíveis — respondeu Aethon.
No centro do vilarejo, Rute acendeu uma fogueira.
Dessa vez, não foi um pedido silencioso.
Foi um gesto claro.
— Se forem nos marcar — disse ela, a quem quisesse ouvir — que saibam onde estamos.
Alguns hesitaram.
Outros se aproximaram.
Um homem retirou o pano que cobria a marca discreta em sua porta.
— Não tenho mais interesse em p******o comprada — disse.
Uma mulher fez o mesmo.
Depois outra.
O gesto espalhou-se sem gritos.
Sem ordem.
No alto das montanhas, o movimento foi notado.
— Eles não recuaram — informou um batedor.
Draco cerrou as garras.
— Então avancem.
Mas o avanço não veio do céu.
Veio da terra.
Um grupo de homens armados apareceu na entrada do vilarejo. Não soldados oficiais. Não caçadores experientes.
Voluntários do medo.
— Disseram que estão colaborando — sussurrou alguém.
Rute avançou um passo.
— Estamos apenas vivendo — disse. — Isso agora é crime?
O líder do grupo hesitou.
— Pediram nomes — disse ele. — Não confronto.
— Então não terão nenhum — respondeu Rute.
O silêncio foi quebrado por passos atrás dela.
Aethon surgiu.
Não em voo.
Caminhando.
As pessoas o viram chegar.
E ninguém correu.
— Volte — alertou Lyren, pousando mais atrás.
— Não hoje — respondeu Aethon.
Ele posicionou-se ao lado de Rute.
— Não vim desafiar — disse aos homens. — Vim estar presente.
Um dos voluntários ergueu a arma.
Não apontou.
Abaixou.
— Não nos disseram o que fazer se vocês não corressem — murmurou.
O grupo recuou lentamente.
Não derrotado.
Desorientado.
No alto, Draco observava, furioso.
— Ele transformou presença em escudo — rosnou.
— Ou revelou que vocês nunca quiseram lutar — respondeu um dragão próximo.
Draco se virou.
— Cuidado.
No vilarejo, a fogueira continuava acesa.
Pessoas permaneciam.
Falavam.
Não sobre dragões.
Sobre escolhas.
Aethon olhou ao redor.
Não era uma vitória.
Era algo mais frágil.
— Hoje — disse ele a Rute — ninguém se escondeu.
Ela assentiu.
— Amanhã, talvez cobrem por isso.
Aethon ergueu o olhar para o céu.
— Então amanhã responderemos.
O Reino de Cristal havia cruzado um limite invisível.
E limites, uma vez cruzados, nunca se apagam.
Naquela mesma tarde, pequenas consequências começaram a surgir.
Uma mulher que nunca havia falado em público passou a distribuir água entre os presentes, como se o simples gesto a ancorasse àquele momento. Um ferreiro largou o martelo e sentou-se próximo à fogueira, observando o fogo com atenção incomum. As pessoas não sabiam exatamente o que estavam fazendo — apenas sabiam que não estavam mais sozinhas.
Aethon permaneceu ali por mais tempo do que pretendia. Sentiu olhares curiosos, alguns ainda desconfiados, outros francamente cansados demais para sustentar o ódio. Ele não falou. Não precisava. Sua presença dizia o suficiente.
— Eles vão voltar — murmurou Lyren, aproximando-se com cautela. — Não hoje. Mas virão.
— Eu sei — respondeu Aethon. — E quando vierem, encontrarão mais do que esperam.
Rute observava tudo com atenção silenciosa. Pela primeira vez, não sentia o peso de representar algo maior. Era apenas uma entre muitos. E isso, percebeu, era a verdadeira mudança.
Quando o sol começou a se pôr, ninguém pediu que a fogueira fosse apagada.
Ela permaneceu ali, queimando baixo.
Não como desafio.
Mas como lembrança.
E, naquela noite, enquanto o vilarejo adormecia sob um céu atento, algo ficou claro para todos que haviam permanecido:
não era mais possível fingir que nada estava acontecendo.
O dia começou como qualquer outro.
E isso, por si só, já era estranho.
As portas se abriram no horário habitual. Crianças cruzaram as ruas de terra com passos apressados. O sino improvisado do vilarejo soou uma única vez, anunciando o início das tarefas. Não havia correria. Não havia fogueiras apagadas às pressas.
Não havia esconderijos.
Rute percebeu primeiro.
— Eles não se trancaram — disse à anciã.
A mulher observou ao redor, tensa.
— Estão cansados de viver abaixando a cabeça.
Aethon sentiu o mesmo movimento do alto das colinas. Não pelo cheiro do ar, mas pela ausência dele. O medo, quando domina, deixa rastros claros. Naquele dia, não havia rastros.
Lyren pousou ao seu lado.
— Algo mudou — disse.
— As pessoas decidiram ficar visíveis — respondeu Aethon.
No centro do vilarejo, Rute acendeu uma fogueira.
Dessa vez, não foi um pedido silencioso.
Foi um gesto claro.
— Se forem nos marcar — disse ela, a quem quisesse ouvir — que saibam onde estamos.
Alguns hesitaram.
Outros se aproximaram.
Um homem retirou o pano que cobria a marca discreta em sua porta.
— Não tenho mais interesse em p******o comprada — disse.
Uma mulher fez o mesmo.
Depois outra.
O gesto espalhou-se sem gritos.
Sem ordem.
No alto das montanhas, o movimento foi notado.
— Eles não recuaram — informou um batedor.
Draco cerrou as garras.
— Então avancem.
Mas o avanço não veio do céu.
Veio da terra.
Um grupo de homens armados apareceu na entrada do vilarejo. Não soldados oficiais. Não caçadores experientes.
Voluntários do medo.
— Disseram que estão colaborando — sussurrou alguém.
Rute avançou um passo.
— Estamos apenas vivendo — disse. — Isso agora é crime?
O líder do grupo hesitou.
— Pediram nomes — disse ele. — Não confronto.
— Então não terão nenhum — respondeu Rute.
O silêncio foi quebrado por passos atrás dela.
Aethon surgiu.
Não em voo.
Caminhando.
As pessoas o viram chegar.
E ninguém correu.
— Volte — alertou Lyren, pousando mais atrás.
— Não hoje — respondeu Aethon.
Ele posicionou-se ao lado de Rute.
— Não vim desafiar — disse aos homens. — Vim estar presente.
Um dos voluntários ergueu a arma.
Não apontou.
Abaixou.
— Não nos disseram o que fazer se vocês não corressem — murmurou.
O grupo recuou lentamente.
Não derrotado.
Desorientado.
No alto, Draco observava, furioso.
— Ele transformou presença em escudo — rosnou.
— Ou revelou que vocês nunca quiseram lutar — respondeu um dragão próximo.
Draco se virou.
— Cuidado.
No vilarejo, a fogueira continuava acesa.
Pessoas permaneciam.
Falavam.
Não sobre dragões.
Sobre escolhas.
Aethon olhou ao redor.
Não era uma vitória.
Era algo mais frágil.
— Hoje — disse ele a Rute — ninguém se escondeu.
Ela assentiu.
— Amanhã, talvez cobrem por isso.
Aethon ergueu o olhar para o céu.
— Então amanhã responderemos.
O Reino de Cristal havia cruzado um limite invisível.
E limites, uma vez cruzados, nunca se apagam.
Naquela mesma tarde, pequenas consequências começaram a surgir.
Uma mulher que nunca havia falado em público passou a distribuir água entre os presentes, como se o simples gesto a ancorasse àquele momento. Um ferreiro largou o martelo e sentou-se próximo à fogueira, observando o fogo com atenção incomum. As pessoas não sabiam exatamente o que estavam fazendo — apenas sabiam que não estavam mais sozinhas.
Aethon permaneceu ali por mais tempo do que pretendia. Sentiu olhares curiosos, alguns ainda desconfiados, outros francamente cansados demais para sustentar o ódio. Ele não falou. Não precisava. Sua presença dizia o suficiente.
— Eles vão voltar — murmurou Lyren, aproximando-se com cautela. — Não hoje. Mas virão.
— Eu sei — respondeu Aethon. — E quando vierem, encontrarão mais do que esperam.
Rute observava tudo com atenção silenciosa. Pela primeira vez, não sentia o peso de representar algo maior. Era apenas uma entre muitos. E isso, percebeu, era a verdadeira mudança.
Quando o sol começou a se pôr, ninguém pediu que a fogueira fosse apagada.
Ela permaneceu ali, queimando baixo.
Não como desafio.
Mas como lembrança.
E, naquela noite, enquanto o vilarejo adormecia sob um céu atento, algo ficou claro para todos que haviam permanecido:
não era mais possível fingir que nada estava acontecendo.