Capítulo 16

612 Palavras
A visibilidade não chegou como um grito. Chegou como peso. Na manhã seguinte ao dia em que ninguém se escondera, o vilarejo acordou com a sensação incômoda de estar sendo observado. Não havia dragões no céu. Nenhum grupo armado nas estradas. Ainda assim, portas se abriram mais devagar. Conversas começaram e terminaram em sussurros. Rute percebeu primeiro no mercado improvisado. — Estão anotando — disse a anciã, em voz baixa. Do outro lado da rua, dois homens que ninguém reconhecia conversavam enquanto fingiam negociar grãos. Um deles observava demais. O outro fazia perguntas que não pediam resposta. — Eles querem mapear — completou a anciã. — Quem fica. Quem fala. Quem acende fogo. Aethon manteve-se distante naquela manhã. Não por covardia, mas por cálculo. A presença dele, agora, funcionava como lente de aumento: tudo que acontecia ganhava outra leitura. Lyren pousou nas colinas com cuidado. — Draco não moveu tropas — informou. — Moveu mensageiros. — Convencer é mais barato do que atacar — respondeu Aethon. — E mais difícil de rebater. No vilarejo, o primeiro preço foi cobrado antes do meio-dia. Um comerciante teve o fornecimento interrompido. Um carpinteiro foi avisado de que seus serviços não seriam mais requisitados fora dos limites do vale. Nada explícito. Nada que pudesse ser acusado. — Estão nos isolando — disse Rute, ao relatar o que ouvira. — Isolamento força escolhas rápidas — respondeu Aethon. — E escolhas rápidas erram. Ao cair da tarde, um aviso foi deixado na praça. Não uma ordem. Uma recomendação. “Evitem contatos que tragam risco desnecessário.” Não havia assinatura. Mas todos sabiam de onde vinha. Alguns recuaram. Outros ficaram. E alguns poucos avançaram. — Não podemos fingir que não vimos — disse o ferreiro, quebrando o silêncio em uma reunião pequena. — Se voltarmos atrás agora, eles saberão que funciona. — E se ficarmos? — perguntou alguém. — O que acontece? Ninguém respondeu de imediato. Aethon falou por fim. — Acontece que vocês serão vistos — disse. — Não como ameaça. Como escolha. — E isso basta? — questionou uma mulher. — Não — respondeu ele, honesto. — Mas é o começo. No alto das montanhas, Draco recebia relatórios. — Eles não dispersaram — disse um mensageiro. — Então apertem — respondeu Draco. — Sem fogo. Sem marcas. — E o príncipe? Draco fechou as garras. — Ele não é mais príncipe. — Ainda é ouvido — retrucou o mensageiro. Draco se voltou. — Então o custo precisa aumentar. Naquela noite, uma família decidiu partir. Não por medo imediato. Por cansaço. Rute ajudou a carregar sacolas até a estrada. — Não somos covardes — disse a mulher, chorando baixo. — Só não aguentamos mais esperar. — Eu entendo — respondeu Rute. Quando voltaram, o vilarejo parecia menor. — É assim que começa — murmurou Lyren. — Eles não quebram todos de uma vez. Quebram aos poucos. Aethon observou as casas, as luzes, as sombras em movimento. — Então precisamos sustentar quem fica — disse. — Não com promessas. Com estrutura. — Estrutura exige liderança — respondeu Lyren. Aethon não respondeu de imediato. Pensou no título que perdera. No peso que recusara. — Não liderança — disse por fim. — Coordenação. Rute aproximou-se. — As pessoas estão perguntando o que fazer. — Diga que observem — respondeu Aethon. — Que cuidem uns dos outros. Que não se isolem. — E você? Aethon ergueu o olhar para o céu escuro. — Eu vou continuar visível — disse. — Mesmo quando custar. Naquela noite, nenhum ataque aconteceu. Mas o custo fora sentido. E todos compreenderam a verdade simples e dura: ser visto era o primeiro preço. Os próximos seriam mais altos.
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