Capítulo 18

1299 Palavras
Luna Narrando O som da faca cortando o cabelo seco da Kátia era a única coisa que se ouvia naquele galpão, além dos soluços desesperados dela. Eu não sentia pena. Onde a pena deveria estar, só havia um buraco n***o, frio e fundo. Cada tufo de cabelo que caía no chão era um pedaço da minha dor que eu tentava externalizar. — Para, Luna! Por favor, eu te imploro! — Kátia gritava, as lágrimas borrando a maquiagem barata que ela ainda tinha no rosto. — Tu me implorou lá no c*******o? — Perguntei, segurando o rosto dela com força, obrigando-a a olhar para mim. — Quando tu deu aquele chute na minha barriga e eu gritei, tu parou? Não, tu riu. Tu disse que eu tava pondo pra fora o "fruto do pecado". JP, no canto da sala, soltou uma lufada de fumo. Eu sentia o olhar dele em mim, pesado, mas ele não deu um passo pra intervir. Ele sabia que se tentasse me tirar dali agora, a nossa história acabava ali mesmo. Peguei a faca e fiz um corte superficial na bochecha dela, só pra ver o sangue escorrer. Ela estremeceu. — Eu não vou te m***r agora, Kátia. A morte é muito rápida, é um favor que eu te faria. — Falei, limpando a lâmina na roupa dela. — Tu vai sair daqui viva. Mas tu vai sair de um jeito que nunca mais ninguém vai querer olhar pra esse teu rosto de sonsa. Olhei pro Menor, que tava encostado na porta com os braços cruzados. Meu irmão. A palavra ainda soava estranha na minha cabeça, mas o conforto que ela trazia era real. — Menor, pega o ferro. — Falei. Menor não hesitou. Ele foi até um braseiro que o PH tinha acendido num canto do galpão e pegou um ferro de marcar gado que os meninos usavam às vezes pra "avisar" os traíras. A ponta tava incandescente, um vermelho vivo que iluminava a escuridão do lugar. Kátia começou a gritar tão alto que o som parecia rasgar as paredes. — NÃO! JP, PELO AMOR DE DEUS! EU TE AMO, JP! — Ela tentava se soltar das cordas, mas o PH tinha feito um serviço bem feito. JP deu dois passos à frente, jogou a ponta do cigarro no chão e pisou. O rosto dele tava nas sombras, mas a voz saiu gélida: — Tu nunca me amou, Kátia. Tu amava o poder que achava que tinha por deitar comigo. Tu mexeu com a minha família, com o meu sangue. Tu matou o meu filho. — Ele olhou pra mim e assentiu. — Faz o que tu tem que fazer, Luna. O morro é teu agora. Peguei o ferro da mão do Menor. O calor que emanava dele era absurdo. Aproximei do ombro da Kátia, onde ela tinha uma tatuagem com as iniciais do JP. — Isso aqui morre hoje. — Falei. O som do ferro encostando na pele dela foi acompanhado por um chiado h******l e o cheiro de carne queimada. O grito dela foi morrendo até ela desmaiar de dor. Eu soltei o ferro no chão e respirei fundo, sentindo minhas pernas tremerem pela primeira vez. — Acabou. — Falei, olhando pro JP. — Tira ela daqui. Joga em qualquer vala fora do morro. Se ela voltar, eu mesma dou o tiro na testa. Saí do galpão sem olhar pra trás. O ar frio da noite bateu no meu rosto e eu finalmente consegui chorar. Não pela Kátia, mas pelo que eu tinha me tornado. JP Narrando Vi a Luna sair do galpão como se tivesse carregando o mundo nas costas. Olhei pro corpo desmaiado da Kátia e senti um nojo que não cabia no peito. — PH, manda os crias jogarem essa carcaça lá na rodovia. Longe daqui. — Falei. — Pode deixar, chefe. E a Luna? — PH perguntou, preocupado. — Eu cuido dela. Menor, tu vem comigo? — Olhei pro meu novo cunhado. O bagulho era louco, o meu melhor amigo agora era oficialmente da família. — Vou pra minha goma, JP. A Luna precisa de tu agora. Amanhã a gente troca aquela ideia sobre o velho. — Menor montou na moto e sumiu no escuro. Fui atrás da Luna. Ela tava sentada num meio-fio, a uns cem metros do galpão, com a cabeça entre os joelhos. Me sentei do lado dela, sem dizer nada. Só passei o braço pelos ombros dela e a puxei pra perto. — Eu sou um monstro, JP? — Ela perguntou com a voz abafada. — Tu é uma sobrevivente, Luna. No nosso mundo, ou tu vira o bicho, ou o bicho te come. — Apertei ela mais forte. — Tu fez o que tinha que ser feito pra essa dor parar um pouco. — Não parou. — Ela olhou pra mim, os olhos vermelhos. — Eu ainda sinto o vazio aqui dentro. Eu queria aquele bebê, JP. Eu nem sabia, mas eu queria. Aquilo acabou comigo. Eu, que nunca tive medo de tiro nem de polícia, tava ali desarmado pelas palavras de uma mina. — Eu também queria, pretinha. Papo reto. Eu já tava até imaginando o moleque correndo pela casa, tirando a paz da Juju. — Tentei dar um sorriso curto, mas a dor não deixava. — Mas ó, a gente tá vivo. Eu tô aqui contigo. Ninguém mais encosta em ti, eu dou minha vida por isso. — Tu disse que ia me deixar livre... — Ela lembrou da conversa que o Menor me contou. — Tu ainda quer que eu vá embora? Olhei bem no fundo dos olhos dela. O ódio tinha passado, mas o amor que tava ali era assustador de tão forte. — Eu falei aquilo porque sou um covarde, Luna. Tive medo de te perder de novo e achei que longe de mim tu estaria segura. Mas a verdade é que eu não sei mais viver sem esse teu jeito marrento. Se tu quiser ir, a porta tá aberta e eu te dou o dinheiro que precisar pra recomeçar. Mas se tu ficar... — Dei uma pausa, sentindo o coração bater na garganta. — Se tu ficar, tu vai ser a dona disso tudo aqui comigo. Luna não respondeu com palavras. Ela me beijou. Foi um beijo com gosto de sal, de lágrimas, mas com uma urgência que dizia tudo. A gente voltou pra casa em silêncio, de mãos dadas. Quando entramos, a Lua tava na sala com a Juju. A pequena, quando viu a Luna, esticou os bracinhos e deu aquele sorriso que iluminava a casa toda. — Mamã! — Juju gritou. Luna pegou ela no colo e chorou de novo, mas dessa vez parecia que uma parte do buraco tava começando a fechar. Eu fiquei ali, olhando as duas, e jurei pra mim mesmo: o Manuel tava morto, a Kátia tava destruída, e agora eu ia descobrir quem era o "chefe" por trás disso tudo. Porque o sangue da minha mãe e do meu filho ainda não tinha sido totalmente vingado. O rádio no meu cinto chiou. Era o Doglas. — JP, tu precisa vir aqui na entrada. Tem um carro abandonado com um bilhete. O bagulho é pra tu. Olhei pra Luna, que já me olhava com preocupação. — Fica aqui. — Falei. — Eu volto já. Desci o morro voando. Quando cheguei na barreira, os crias tavam todos em volta de um Opala velho. No para-brisa, preso por uma faca de caça, tinha um papel pardo. Peguei o papel e abri. "O bebê foi só o começo. O que eu comecei com o teu pai, eu vou terminar contigo. O trono não te pertence, bastardo." Senti o sangue ferver. O jogo tava só começando, e dessa vez, a guerra ia ser dentro de casa.
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