Capítulo 17

1146 Palavras
Luna Narrando Acordei com o sol batendo na cara e uma sensação de vazio que nem o abraço do JP conseguia preencher totalmente. Minha barriga ainda doía, não só pelo corte da faca, mas por dentro. Cada vez que eu fechava os olhos, lembrava do chute daquela desgraçada e do que eu perdi sem nem saber que tinha. JP já tinha levantado. Ouvi o barulho do chuveiro e logo ele saiu, só de toalha, com aquela cara de quem não dormiu nada. Ele me olhou, veio até a cama e deu um beijo na minha testa. — Vou descer pra resolver uns bagulhos na gerência. Tu fica de boa, se precisar de qualquer fita, grita a Lua. O Menor vem te buscar às 19h, né? — Ele perguntou, já catando a bermuda. — É, ele disse que tem um bagulho sério pra falar. Tu sabe o que é? — Olhei bem nos olhos dele. JP travou por um segundo, desviou o olhar e terminou de se vestir. — Deixa ele te falar, Luna. É fita dele. Se cuida, tá ligada? — Deu um selinho demorado e saiu. O dia passou arrastado. A Lua tentou me animar, trouxe a Juju pra brincar na cama comigo, mas eu só conseguia pensar na Kátia. O ódio tava me consumindo. Quando deu 18:30h, tomei um banho demorado, ignorei os curativos que ainda ardiam e vesti uma calça cargo preta e um cropped largo. Ouvi a buzina da moto. Desci as escadas devagar e vi o Menor parado lá fora. Ele tava estranho, sem aquele sorriso de deboche de sempre. — E aí, praga. Pronta? — Ele me entregou o capacete. — Pronta eu não tô pra nada, mas vamos nessa. — Subi na garupa e ele deu partida. Ele não foi pro asfalto. Pegou um caminho por dentro do morro, indo em direção a um mirante isolado que quase ninguém frequentava. Quando ele parou a moto e tirou o capacete, o silêncio tava de lascar. — Fala logo, Menor. Tu tá me deixando nervosa. — Falei, sentando num banco de cimento velho. Ele suspirou, sentou do meu lado e ficou olhando as luzes da favela lá embaixo. — Luna... tu sabe que desde que tu chegou, eu senti um bagulho diferente contigo. Não era safadeza, era um instinto de querer cuidar, de não deixar ninguém te encostar a mão. — Ele deu uma pausa, a voz meio embargada. — O velho apareceu lá no galpão há duas semanas. O teu pai, Luna. Meu coração disparou. — O que aquele desgraçado queria? Ele te ameaçou? — Não... ele me contou a verdade. A verdade que a nossa coroa não teve tempo de contar. — Ele tirou uma foto amassada do bolso e me entregou. — Ele me deu pra uma tia criar quando a nossa mãe morreu no parto, lá no interior. Ele não tinha como cuidar de dois, disse que tava passando fome. Ele ficou contigo e me mandou pra longe. Eu olhei pra foto. Era um bebê no colo de um homem que, apesar de mais novo, tinha os mesmos traços do meu pai. Olhei pro Menor, pros olhos dele, pro jeito que ele coçava a sobrancelha igualzinho a mim quando tava nervoso. — Tu... tu é meu irmão? — Minha voz saiu num sussurro, e as lágrimas que eu tava segurando o dia todo desceram. — Sou, sua chata. Sou teu sangue, Luna. Eu jurei pra mim mesmo que depois de tudo o que tu passou naquela c*******o, ninguém nunca mais vai te triscar. Eu tô contigo pra tudo, tá ouvindo? A gente se abraçou e eu desabei. Chorei por tudo. Pela mãe que eu não conheci, pelo pai lixo que eu tive, pelo bebê que eu perdi e pela sorte de ter achado um irmão no meio daquele caos. Ficamos ali um tempo, até que o clima mudou. O luto deu lugar pro ódio. — Menor... — limpei o rosto. — Me leva no galpão. Ele me olhou sério, já sabendo do que eu tava falando. — O JP disse que era pra tu descansar, Luna. — Eu descanso quando eu olhar nos olhos daquela p**a e mostrar pra ela o que acontece com quem mexe com a minha família. Me leva lá. Agora. Ele não discutiu. Ligou a moto e descemos o morro igual um raio. O destino era o galpão abandonado no final da rua 3. JP Narrando Tava lá embaixo, fumando um baseado e conversando com o PH sobre o carregamento que ia chegar, quando vi a moto do Menor parando bruscamente. Ele desceu e a Luna veio logo atrás, com uma cara que eu nunca tinha visto. Era a cara da morte. — Onde ela tá? — Ela perguntou, direta, nem olhou pros lados. — Luna, vai pra casa, tu ainda tá com ponto... — Tentei segurar o braço dela, mas ela se soltou. — JP, não me testa. Me diz onde essa c****a tá agora, ou eu vou entrar em todas as salas desse galpão até achar. PH olhou pra mim e fez um sinal com a cabeça, tipo "deixa ela". Eu sabia que se não deixasse, ela ia fazer uma loucura pior. Apontei pra porta de ferro no fundo. — Ela tá lá dentro. Amarrada. O Menor já tinha deixado ela no esquema. Luna caminhou firme. Eu, Menor e PH fomos atrás. Quando abrimos a porta, o cheiro de mofo e suor tava forte. Kátia tava sentada numa cadeira de madeira, com fita na boca e os olhos arregalados de medo. Quando ela viu a Luna, começou a se debater igual um bicho. Luna pegou uma cadeira, arrastou pro meio da sala e sentou de frente pra ela. Com toda a calma do mundo, ela tirou uma faca que o Menor tinha passado pra ela no caminho. — Lembra de mim, Kátia? — Luna falou baixo, a voz gélida. — Tu disse que eu não ia sair viva, né? Mas olha só... eu tô aqui. E tu tá aí. Luna puxou a fita da boca dela de uma vez, arrancando um grito de dor da p*****a. — ME SOLTA! JP, ME AJUDA! EU FIZ POR NÓS, ELA IA TE ESTRAGAR! — Kátia gritava, desesperada. Eu nem me mexi. Só encostei na parede e acendi outro cigarro. A noite ia ser longa. — Tu matou meu filho, sua desgraçada. — Luna falou, e o silêncio na sala ficou ensurdecedor. — Tu tirou de mim a única coisa pura que eu tinha. Tu acha que vai sair daqui com esse cabelo lindo? Luna agarrou o cabelo da Kátia e deu o primeiro corte. Não foi com máquina, foi na faca, cega, pra doer. — Eu vou te destruir aos poucos, Kátia. Igual tu fez comigo no escuro daquela cela. Mas aqui não tem chefe pra me mandar parar. Aqui, quem manda sou eu.
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