Irina O inverno ensina sem metáfora. Aos doze, eu contava caixas num porão de peixe enquanto a água mordia meus ossos. Meu pai devia à Bratva; meu irmão fugiu no primeiro trem; minha mãe aprendeu a rezar em silêncio. Eu aprendi a não tremer. Lá embaixo, havia uma regra que nenhum padre assina: quem fala perde o calor primeiro. O capataz me chamava de “fósforo” — pequena, seca, pronta para acender. Um dia, um dos rapazes soprou meu nome no ouvido errado. Ofereci a ele dois destinos: a rua, sem dedos; o porão, sem voz. Ele escolheu a rua. Eu devolvi a conta ao meu pai. A dívida passou a ser minha — e eu sempre pago. Cresci na contabilidade do frio. “Ninguém fala, ninguém sabe.” Subi na organização por crueldade limpa: sem espetáculo, sem sangue espalhado. Só contas certas, portas certas, s

