Thiago
Dizem que o café é o combustível do mundo corporativo, mas para mim, ele é a única coisa que separa o meu corpo de um colapso total em cima do teclado. Estava arrasado, morto, exaurido, e todos os sinônimos para totalmente cansado, existentes! O preço por passar uma noite em claro começando a bater em mim com uma força absurda. E se eu continuasse nessa leva, já, já adoeceria.
Ajustei meus óculos e encarei a planilha de Excel à minha frente. Os números pareciam dançar, zombando da minha falta de sono. Se embaralhavam dando as mãos num gira gira que me faria vomitar a qualquer momento. Eram oito da manhã de uma segunda-feira nublada em São Paulo, e eu já sentia que tinha vivido uma semana inteira em apenas algumas horas. Tudo culpa de um certo "Viking" e sua teimosia em ser a criatura mais instigante — e irritante — da internet. Se ele não existisse, a minha sanidade mental estaria intacta, e eu dando o meu máximo em meus afazeres.
— Se você bocejar mais uma vez, sua mandíbula vai travar, Thiago.
Sobressalto levando um susto. Estar avoado me incapacita mesmo de prestar a devida atenção ao meu redor.
Nem precisei desviar o olhar para saber que era a Amanda. Minha estagiária, melhor amiga e a única pessoa que já viu o histórico do meu navegador e não me denunciou para a polícia dos bons costumes. Ela pousou um copo térmico gigante na minha mesa. Me olhando com uma preocupação que se misturava a um ar meio debochado.
— Toma. Extra forte. Poderia compra se não gastasse o salário do mês em Krowns .
— Bom dia para você também, Amanda — resmunguei, pegando o café como se fosse o Santo Graal. — E eu não gastei o salário todo. Ainda tenho… vinte reais para o almoço — o que eu disse não parecia algo tão i****a, até que eu abrisse a boca para dizer.
Amanda se sentou na beirada da minha mesa, cruzando os braços com um sorriso de quem sabia demais, e sim, ela sabia mesmo. Ela era o oposto de mim: enérgica, com o cabelo tingido de um azul elétrico escondido sob um coque comportado, e uma capacidade única de ler o meu humor pelas minhas olheiras.
— Ele fez o show de ontem, não fez? O "Viking"?
Senti minhas orelhas esquentarem. Tentei manter o tom profissional, mesmo que estivéssemos sozinhos no setor de auditoria por enquanto. Pigarrei para ajustar o tom da voz.
— Fez. E foi um desastre técnico. A luz estava péssima. Eu tive que intervir.
— "Intervir" — ela repetiu, fazendo aspas no ar. — Você quer dizer que deu um chilique por mensagem porque ele estava dando atenção para outro seguidor, enquanto você ficava babando na tela? Quem foi agora? O Hades?
— Eu não dou chiliques, Amanda. Eu prezo pela qualidade do conteúdo que consumo. É uma transação comercial.
— Claro, Thiago. Uma transação comercial onde você paga para ele te chamar de "apressadinho" e você quase tem uma síncope no quarto. Você é o contador mais brilhante que eu conheço, mas quando entra naquele site, parece que seu cérebro derrete e vira um pote de... como é mesmo o seu nome de guerra? Petitgattô?
— Shiiiiu. Fala baixo! — sibilei, olhando para a porta da sala do sócio-diretor. — Aqui dentro eu sou o Dr. Thiago, o auditor sênior encarregado de casos complexos. O Petitgattô está devidamente enterrado em um servidor criptografado. Só esperando que eu o desenterre.
Eu gostava da minha rotina. Gostava do silêncio do escritório, do cheiro de papel novo e da lógica inquestionável da contabilidade. No mundo dos números, não havia rejeição, não havia máscaras e ninguém me trocava por um tal de "LordHades". No escritório, eu estava no controle. Eu era o cara que encontrava erros de centavos em balanços de milhões. O cara que nunca chegava atrasado e cujos ternos estavam sempre perfeitamente passados. Sempre apresentável e pronto para as transações.
— O "Chefe" quer a gente na sala de reuniões em dez minutos — Amanda disse, mudando o tom para algo mais sério, embora o brilho de diversão ainda estivesse lá. — Parece que pegamos um caso grande. Uma consultoria jurídica e fiscal para uma agência de "novas mídias".
— Influenciadores? — suspirei, massageando as têmporas. — Detesto lidar com essa gente. Eles acham que recibo de restaurante de luxo é despesa operacional e que permuta não paga imposto. É sempre uma bagunça.
— Bom, prepare o seu melhor sorriso de "eu vou salvar suas finanças", porque o contrato é gordo. E o cliente está vindo pessoalmente para a primeira reunião de alinhamento.
— Um cliente vindo pessoalmente? — franzo o cenho meio confuso com a informação.
— Ele deve ser um velho que não se adaptou as chamadas de vídeo... Meu pai é desses, ele viria pessoalmente.
Solto um suspiro, lidar pessoalmente com pessoas era um saco. Eu preferia mil vezes lidar com o tanto de números e problemas matemáticos do que isso. Por esse motivo, odeio reuniões. Poderia simplesmente viver sem elas. Acreditava que, tudo na vida dava sim para resolver a distância! Até as necessidades sexuais eu mantinha em controle, e olha que sexo é algo que só vejo nas telas mesmo. Mas para mim era o suficiente. Tinha ciência de que nunca encontraria um homem como o Viking, então me dava por satisfeito com sua imagem na tela do notebook, e com meus devaneios.
— Terra se comunicando com Thiago — Amanda estala os dedos na frente do meu rosto me fazendo voltar a realidade — acho melhor irmos de uma vez.
— Vamos — eu disse, me levantando e abotoando o paletó. Esperava estar alinhadinho e apresentável — Quero resolver isso rápido. Tenho uma lista de contas para auditar e um cartão de crédito para tentar renegociar.
— Vicío em pornografia dá nisso.
— Pelo amor de Deus, diz isso baixo, Amanda... E não é bem... pornografia, é só... É o Viking, ok?
— Não estou nem um pouco a fim de discutir com louco, enfim, vamos.
Eu não sabia na época, mas aquele café extra forte seria a única coisa me mantendo de pé quando a porta daquela sala se abrisse. m*l sabia eu que a conta que eu mais teria dificuldade de fechar não seria em reais, mas sim em segredos.