O Ativo Mais Valioso do Escritório

1567 Palavras
Thiago A sala de reuniões da Lacerda & Associados cheirava a couro legítimo, café caro e ar-condicionado ajustado no mínimo. Eu estava sentado com minha postura impecável, uma caneta montblanc entre os dedos e um bloco de notas em branco. Amanda estava ao meu lado, fingindo revisar uns documentos, mas eu sentia a energia dela vibrar. Ela estava inquieta. — O sócio-diretor disse que é uma agência de "gerenciamento de imagem e monetização digital" — Amanda sussurrou, m*l movendo os lábios. — Tradução: gente bonita com muito dinheiro e nenhuma ideia de como declarar um imposto de renda. — Foco, Amanda — repreendi, embora meu próprio cérebro estivesse lutando para se manter acordado após a noite de ontem. Foi então que a porta de carvalho se abriu. O Dr. Lacerda entrou primeiro, com aquele sorriso de quem acabou de pescar um tubarão. Mas eu parei de olhar para o meu chefe no segundo em que o "tubarão" entrou logo atrás. O mundo pareceu entrar em câmera lenta. O homem que caminhava em nossa direção era, sem dúvida, a criatura mais esteticamente ofensiva que eu já vira na vida real, o que me fez bambear para me levantar. Ele era alto, muito alto. Seus cabelos eram negros como graxa, penteados para trás com uma perfeição irritante, e os olhos... eram de um verde tão profundo que pareciam duas esmeraldas lapidadas. Ele vestia um terno sob medida, um azul-marinho tão escuro que beirava o preto. A camisa social branca, de um algodão egípcio que brilhava sob as luzes de LED, lutava uma batalha perdida para conter os músculos dos ombros e do peito. Era um físico atlético, imponente, que exalava um poder quase animal, apesar da embalagem de luxo. — Bom dia — ele disse. Minha espinha gelou. Aquela voz. Era um barítono ressonante, educado, mas com uma vibração que arranhou algum lugar lá, no fundo da minha memória, como se eu já tivesse escutado em algum lugar. Eu apertei minha caneta com tanta força que meus dedos ficaram brancos. — Este é o senhor Arthur Valente — anunciou Lacerda, radiante. — E seu assessor de negócios, o senhor Hugo. Hugo, um homem magro e igualmente bem vestido, sorriu com uma simpatia radiante, mas meus olhos voltaram para Arthur. Ele sorriu. Não era o sorriso de escárnio que eu estava acostumado a ver nas minhas madrugadas solitárias, era um sorriso de negócios, charmoso, perfeitamente equilibrado. Um homem tão gato quanto o mascarado, mas um pacote completo de simpatia. — É um prazer — Arthur disse, estendendo a mão primeiro para Amanda e depois para mim. Quando minha mão sumiu dentro da dele, senti uma corrente elétrica. A pele dele era quente. O aperto era firme, de quem domina qualquer ambiente. Olhei para o lado e vi Amanda com a boca levemente aberta, os olhos perdidos nos bíceps que tensionavam o tecido da manga de Arthur sempre que ele se movia. — Thiago é o nosso melhor auditor e contador — Lacerda continuou, me tirando do transe. — Ele é meticuloso, discreto e, honestamente, um gênio em encontrar soluções onde outros só veem problemas. Não se assuste com a pouca idade, pode confiar cem por cento em tudo que ele indicar. Arthur, a partir de hoje, o Thiago será o seu braço direito. Ele vai cuidar pessoalmente da regularização da sua agência e dos seus ganhos individuais. — Excelente — Arthur sentou-se à mesa, cruzando as pernas longas. — Eu preciso de alguém que não se assuste com números grandes e, principalmente, com a natureza "exótica" de alguns dos meus ganhos. Hugo e eu estamos expandindo a operação, mas a burocracia brasileira está começando a sufocar o nosso crescimento. — Entendemos, vamos falar de negócios então. — Lacerda diz soprando um riso amigavel. A reunião fluiu como um borrão. Hugo explicava sobre contratos de publicidade, direitos de imagem e recebimentos do exterior. Eu fazia anotações automáticas, tentando ignorar o perfume amadeirado de Arthur que parecia estar dominando todo o meu oxigênio. — Thiago, por que você não leva o senhor Arthur até a sua sala? — sugeriu Lacerda após uma hora. — Vocês podem começar a abrir o sistema e organizar o que é urgente. Hugo, você vem comigo para assinarmos as procurações. Eu me levantei, sentindo minhas pernas um pouco trêmulas. — Por aqui, por favor, senhor Arthur. — a voz quase não saindo. Caminhar pelo corredor com ele era como escoltar uma celebridade ou um predador. As cabeças se viravam. Amanda me seguiu de perto, e eu senti um chute leve no meu calcanhar. Quando olhei para trás, ela fez um sinal de "meu Deus do céu" com os olhos, e eu sabia ler muito bem o que ela dizia. E era realmente um "meu Deus do céu". O homem é perfeito... Uma geladeira eletrolux gigante! Entramos na minha sala, um espaço funcional, cheio de pastas organizadas e duas telas grandes de computador. Arthur olhou em volta, parecendo avaliar o meu ambiente. — Você é bem organizado, Thiago — ele comentou, sentando-se na cadeira de couro à frente da minha mesa. Ele parecia grande demais para a sala. Intimidante demais. — Os números exigem ordem, senhor Arthur — respondi, tentando recuperar minha voz de "contador sério". Sentei-me e liguei o monitor. — Bom, para começarmos a regularizar a sua situação com a Receita Federal e evitar que você caia na malha fina, o primeiro passo é separarmos a pessoa física da jurídica. Abri o software de a******a de empresas. Virando a tela secundária para que ele pudesse acompanhar juntamente comigo. — No momento, você recebe a maioria dos seus ganhos como pessoa física, o que significa que está pagando a alíquota máxima de imposto de renda, cerca de 27,5%. É um desperdício de dinheiro. Se abrirmos uma empresa de Prestação de Serviços de Conteúdo Digital, podemos enquadrar você em um regime de lucro presumido ou até no Simples Nacional, dependendo do faturamento, reduzindo essa carga para menos da metade. Além disso, podemos registrar os seus gastos com equipamentos, cenários e viagens como despesas operacionais da empresa, abatendo ainda mais o imposto. Arthur me observava com uma intensidade que me deixava desconfortável. Ele parecia surpreso com a minha fluidez. E eu agradecia aos céus por conseguir fingir muito bem. — Você realmente sabe do que está falando — ele disse, com um brilho de admiração nos olhos verdes. — Hugo me disse que eu precisava de um contador, não de um milagreiro, mas você parece ser os dois. — É apenas matemática — eu disse, sentindo meu rosto esquentar. — Agora, eu preciso preencher os dados iniciais para o registro na Junta Comercial. Nome civil, CPF... e aqui, o senhor pode escolher um Nome Fantasia para a sua marca principal. É o nome pelo qual o seu negócio será identificado legalmente nos registros de faturamento. Arthur ficou em silêncio por um momento. Ele olhou para a porta fechada, depois para Amanda — que estava fingindo organizar uma gaveta de arquivos — e finalmente para mim. O sorriso charmoso e simpático desapareceu, dando lugar a uma expressão séria, quase vulnerável, mas ainda assim carregada daquela autoconfiança que eu conhecia de algum lugar. Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na minha mesa. A distância entre nós diminuiu perigosamente. — Bom, Thiago... — ele começou, sua voz baixando um oitavo, tornando-se aquele trovão rouco que eu ouvia todas as madrugadas sob o codinome de Petitgattô. A semelhança me assustando um pouco — Eu acredito que não posso ter segredos com o homem que vai cuidar do meu dinheiro. A verdade é que a minha agência gerencia vários perfis, mas o maior faturamento vem de mim mesmo. Hugo também fatiura bastante, mas não estamos envolvidos com o ganho um do outro. O considero um assessor por estar mais tempo nisso. E por ter me apadrinhado. Eu engoli em seco, o coração martelando contra as costelas. Lidar com ricassos era normal, mas lidar com ricassos extremamente gostosos era totalmente diferente. — Eu sou criador de conteúdo adulto em plataformas privadas — ele continuou, olhando fixamente nos meus olhos. — O meu nome artístico, o nome que deve constar como marca principal... é Viking. O mundo parou. O ar sumiu dos meus pulmões. Meus olhos se arregalaram e eu senti a planilha de Excel no meu monitor se transformar em um borrão cinzento. Viking. Arthur era o Viking. O homem de terno italiano, olhos verdes e sorriso educado era o mesmo homem que, horas atrás, eu tinha visto se tocar em uma live enquanto me chamava de "apressadinho". O que me fez gozar acidentalmente na mesa do computador, me causando raiva pelo incidente, por ser descuidado... O meu sonho de adolescente estava na minha frente, sorrindo para mim. Minha boca se abriu, mas nenhum som saiu. E por um segundo terrível, achei que ia desmaiar ou vomitar. Ou os dois. E eu não podia agir assim! Não podia! Arthur não podia sonhar que eu sou o apressadinho que disputa a sua atenção com o LordHades. Jamais! Arthur notou o meu choque e deu um sorriso de canto — o exato mesmo sorriso de canto da live. O que me deixa duro... Me deixando duro nesse exato momento. — O que foi, Thiago? — ele perguntou, com uma ponta de diversão na voz. — Algum problema com o nome? Ou com a minha profissão?
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR