A Lei da Atração e os Impostos de Renda

1641 Palavras
Thiago O silêncio que se seguiu à palavra "Viking" não foi apenas um intervalo na conversa; foi um vácuo que sugou todo o oxigênio da minha sala. Meus ouvidos começaram a zunir, um som agudo e constante que parecia compassado com as batidas frenéticas do meu coração. Viking. O nome ecoava na minha mente como um martelo batendo em uma bigorna. Eu olhava para Arthur — não, para o Viking — e meu cérebro trabalhava em uma velocidade sobre-humana para sobrepor as imagens. O homem à minha frente, com o punho da camisa social impecável e o relógio que custava mais do que o meu carro, era o mesmo que eu assistia através de pixels e desejos inconfessáveis. Os ombros eram os mesmos. A linha da mandíbula era a mesma. A voz... meu Deus, a voz era a peça do quebra-cabeça que faltava para destruir meu resto de dignidade. E olha que eu não tinha tanta assim. Ao meu lado, ouvi um estrondo metálico. Amanda, em seu estado de choque particular, havia deixado cair o grampeador pesado sobre a mesa de metal, e o objeto quicou até atingir o chão com um baque surdo. — Ai! Meu Deus, desculpe. Eu... eu sou desastrada as segundas-feiras — ela gaguejou, abaixando-se rapidamente para pegar o objeto. O movimento dela serviu como um desfibrilador para o meu sistema nervoso. Eu precisava reagir. Eu era o Dr. Thiago. Eu era o auditor sênior. Eu não era o Petitgattô. O Petitgattô estava trancado em um porão escuro da minha mente, gritando de euforia, mas o Thiago precisava assumir o volante. Se não eu faria a maior cena já vista. Senti um suor frio descer pela minha nuca, mas forcei meus pulmões a funcionarem. Pigarreei, um som seco que pareceu alto demais no silêncio da sala. Ajustei meus óculos com um dedo trêmulo, mas firme, e forcei um meio sorriso que, eu esperava, parecesse apenas "visualmente interessado". — Isso é... interessante — eu disse, finalmente. Minha voz saiu um pouco mais aguda do que o normal, mas eu a recuperei rapidamente. — É um trabalho exótico, sem dúvida. Mas, no fim das contas, trabalho é trabalho, Sr. Arthur. Desde que seja algo dentro das leis vigentes e que todos os tributos sejam recolhidos, a natureza do conteúdo não interfere na minha competência técnica. Arthur inclinou a cabeça para o lado, um movimento quase predatório. Ele me analisava. Seus olhos verdes pareciam querer perfurar a camada de formalidade que eu acabara de erguer. Ele parecia esperar uma reação diferente — talvez nojo, talvez um julgamento moral, ou quem sabe um interesse vulgar. Mas eu entreguei a ele o que eu tinha de melhor: o meu profissionalismo de gelo. — Fico feliz em ouvir isso, Thiago — ele respondeu, e o modo como ele disse meu nome fez meu estômago dar um solavanco. — Algumas pessoas ficam... desconfortáveis. — Números não ficam desconfortáveis, Sr. Arthur — rebati, voltando meus olhos para a tela do computador, embora a imagem estivesse tremendo levemente diante de mim. — E eu também não. Na verdade, ter um nicho tão específico facilita a estruturação do planejamento tributário. O mercado de conteúdo adulto digital tem particularidades muito vantajosas para a elisão fiscal, se soubermos onde olhar. Eu comecei a digitar. Meus dedos, milagrosamente, encontraram as teclas certas enquanto eu sentia o olhar dele queimando o lado do meu rosto. Eu podia sentir a presença dele, era como se ele estivesse ocupando todo o espaço físico da sala. — Para a a******a da empresa — comecei, adotando meu tom de palestra para tentar me acalmar —, vamos registrá-lo como uma EIRELI ou uma Sociedade Limitada Unipessoal. Isso protege o seu patrimônio pessoal. Se alguém decidir processar o "Viking", os seus bens como "Arthur" estarão blindados. Além disso, vamos precisar emitir notas fiscais para a plataforma que você trabalha e quaisquer outras que o senhor utilize. Como elas geralmente são sediadas no exterior, entraremos no regime de exportação de serviços. — Exportação? — Arthur perguntou, parecendo genuinamente curioso. Ele se inclinou mais um pouco, e eu pude sentir o calor que emanava dele. E isso estava me deixando com uma ereção dolorida, eu precisava me acalmar. — Sim. E aqui está a parte boa, serviços exportados têm isenção de PIS e COFINS. Isso vai economizar cerca de 9% do seu faturamento bruto logo de cara. Vi o brilho de interesse nos olhos dele. Ele não estava apenas me avaliando fisicamente agora; ele estava vendo que eu era útil. E, por algum motivo doentio, isso me dava um prazer quase tão grande quanto o de ontem à noite. Eu queria ser o melhor contador para ele. Eu queria ser indispensável. Servir a ele de todas as formas possíveis. — Você é muito bom, Thiago — Arthur disse, e dessa vez não havia sarcasmo. Havia uma intensidade na voz dele que me causou um arrepio na minha espinha. — Eu não esperava que um contador de uma firma tão conservadora fosse tão... mente aberta sobre o meu ramo. — Como eu disse, o que importa é a legalidade — respondi, mantendo o contato visual. Meus olhos encontraram os dele, e por um segundo, o tempo parou de novo. Eu me vi pensando na live, na máscara, no suor... e rapidamente desviei o olhar para a ficha cadastral. — Agora, preciso de alguns detalhes técnicos. O senhor possui algum gasto fixo com locação de estúdios, contratação de editores ou, digamos, aquisição de... insumos cênicos? Arthur deu uma risada baixa, um som que vibrou no meu peito. — Insumos cênicos? Você quer dizer brinquedos, fantasias e lubrificantes? Amanda, que estava tentando se manter invisível no canto da sala, soltou um ruído abafado que parecia um engasgo. Eu, porém, não quebrei o personagem. Apesar de sentir o espírito saindo do corpo. Como ele conseguia falar abertamente sobre essas coisas? — Equipamentos de produção e itens de cena — corrigi, imperturbável. — Tudo isso pode ser lançado como abatimento. Se você compra uma máscara de alto custo, por exemplo, ela entra como ferramenta de trabalho. — Entendo — ele disse, e eu podia sentir o sorriso dele sem precisar olhar. — Sim, eu tenho muitos "itens de cena". Hugo tem todas as planilhas de gastos, mas daqui para frente, quero que você tenha acesso a tudo. Quero que a minha vida financeira esteja inteiramente nas suas mãos. Nas minhas mãos. A frase ecoou com um duplo sentido perigoso. — Estarei à total disposição, Sr. Arthur — respondi, finalizando o preenchimento inicial. — Vou gerar o contrato social e os documentos para a sua assinatura. Amanda vai organizar as pastas digitais para que o senhor possa fazer o upload dos extratos das plataformas. A partir de agora, qualquer movimentação financeira, por menor que seja, deve passar pelo meu crivo. Eu me levantei, agradecendo a calça larga, pois seria impossível esconder a ereção se minha calça fosse apertada igual a que Arthur usa, indicando que a reunião inicial estava chegando ao fim. Eu precisava que ele saísse daquela sala antes que eu tivesse um colapso. Arthur levantou-se logo em seguida, esticando o corpo com uma elegância que fez o tecido do terno marcar seus músculos de forma obscena. E droga... Era um pu.ta material para uma punhe.ta mais tarde. Ele estendeu a mão novamente. — Parece que estou em boas mãos, Thiago. Dessa vez, ao apertar a mão dele, eu não vacilei. Eu apertei com força, sustentando o olhar verde dele com toda a coragem que eu não sabia que tinha. — As melhores, eu garanto. Arthur sorriu, uma expressão que dessa vez tinha um toque de desafio, e saiu da sala acompanhado por Hugo, que nos deu um aceno simpático. No momento em que a porta se fechou, eu desabei na minha cadeira. O ar parecia ter voltado a circular, mas minha cabeça ainda girava. Amanda correu para a porta, trancou-a e se virou para mim com os olhos quase saindo das órbitas. — THIAGO! — ela gritou, embora em um volume contido. — VOCÊ VIU ISSO? VOCÊ VIU QUEM É ELE? O VIKING! O SEU VIKING! — Ele não é o meu Viking, Amanda — eu disse, cobrindo o rosto com as mãos, sentindo minhas palmas suadas. — Ele é um cliente. Um cliente muito rico e muito problemático. — Um cliente que você assiste pelado toda madrugada! — ela exclamou, sentando-se na minha frente. — Thiago, as chances de isso acontecer eram de uma em um bilhão! O que você vai fazer? Você vai contar para ele? — Ficou louca? — eu disparei, olhando para ela por entre os dedos. — Se ele descobrir que o contador dele é o mesmo cara que fica cobrando "qualidade técnica" e mandando ele tirar a roupa nas lives, eu sou demitido por conduta antiética em cinco minutos! E ele nunca mais vai querer olhar na minha cara. — Ou... — Amanda deu um sorriso malicioso — ...ele pode achar interessante. Você viu como ele olhou para você? Ele ficou impressionado, Thiago. Você foi um "badass" das finanças. Eu olhei para o monitor, onde o nome "Viking" ainda brilhava no campo de Nome Fantasia. O frio na barriga não passava. Pelo contrário, ele estava se transformando em algo mais profundo, algo que eu conhecia bem. E se eu não aliviasse a minha tensão, as coisas ficariam difíceis. A obsessão tinha acabado de ganhar um rosto, um perfume e um CPF. E agora, eu tinha a chave de toda a vida dele. — Isso vai ser um desastre — sussurrei para mim mesmo, enquanto meu coração, traidor como sempre, palpitava de ansiedade para a próxima live... e para a próxima reunião...
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