Tudo o que vinha à mente de Nerone era o vídeo de Amália cuidando dos inúteis que ele havia surrado, e aquilo o enfurecia. Ainda assim, naquele dia ele pretendia deixar claro o que aconteceria caso eles voltassem a se aproximar de sua mulher.
Ninguém o deteve quando ele entrou na unidade médica. Todos sabiam que não poderiam enfrentar o homem que estava diante deles. Nerone havia se transformado nos últimos anos: de um menino frágil em um homem letal — e todos tinham plena consciência disso.
— Você não devia estar aqui — disse a médica, já prevendo o pior.
— Não vim causar problemas. Quero apenas conversar com eles — respondeu Nerone.
— Você já causou problemas, Nerone. E não preciso dizer o que vai acontecer com você se fizer algo com esses garotos — retrucou ela, arqueando uma sobrancelha.
Nerone apenas assentiu antes de puxar a porta e entrar no quarto onde estavam os dois homens que ele havia espancado.
Assim que ele entrou, os dois se assustaram. Os seus olhos se arregalaram ao ver o rosto frio de Nerone.
— Não fizemos nada. Temos cumprido o que você pediu — disse um deles rapidamente, enquanto o outro o encarava com desprezo.
— Eu sei disso, Daniel. Se não tivesse cumprido, eu saberia — respondeu Nerone. — E você sabe quais seriam as consequências.
O homem engoliu em seco ao ouvir aquelas palavras. Sim, ele sabia muito bem o que aconteceria caso se aproximassem de Amália novamente, e só de pensar nisso sentia um frio febril percorrer o corpo.
— Veio tripudiar sobre a nossa desgraça? — perguntou o outro, com o maxilar travado de raiva.
— Não preciso disso. Se quisesse, teria matado vocês dois naquele dia, Silas. Mas não fiz.
Silas odiava aquilo — a maneira como Nerone sempre o encarava, como se ele não fosse nada.
— Não vou me afastar dela. Se quiser, pode me matar — disse ele, enfrentando o olhar sombrio de Nerone.
— Que bom que sabe o que vai te acontecer — respondeu Nerone, aproximando-se mais dos dois.
— Olha, Nerone… — começou Daniel, mas foi interrompido.
— Me ouçam bem, vocês dois. Amália é minha. Ela será minha esposa. E espero que fiquem longe dela para o próprio bem de vocês.
Nerone tinha várias maneiras de fazer os dois desaparecerem sem deixar rastros, mas estava lhes dando a chance de se colocarem em seus devidos lugares.
— Eu não tenho nenhuma má intenção com ela, Nerone. Você sabe que Amália é como uma irmã para mim. Respeito o compromisso de vocês. Não precisa se preocupar — disse Daniel apressadamente.
— Isso te livra de muitos problemas, Daniel. Um deles sou eu batendo à sua porta.
— Você não me mete medo, e eu não vou me afastar dela — retrucou Silas, com os olhos brilhando de ódio.
Nerone sorriu. E nunca era bom quando ele sorria.
Ele caminhou até a cama onde Silas estava e, antes que o homem percebesse, apertou a sua garganta com uma das mãos.
— Eu quero que você faça isso, Silas — disse ele calmamente. — Porque vai ser um prazer me livrar de você. E sabe o que é melhor? Ninguém vai fazer nada a respeito. Porque você não vale nada. A sua vida miserável só tem valor para você mesmo. Se eu te pegar perto da minha mulher novamente, eu te mato.
As palavras de Nerone eram tranquilas enquanto ele apertava o pescoço do homem. Não havia pressa em seus movimentos, e naquele momento Silas o havia irritado profundamente.
— Solte ele — disse uma voz atrás dele.
— Sim, chefe — respondeu Nerone, soltando o pescoço de Silas, que passou a respirar desesperadamente.
— Já deu o seu recado? — perguntou Ricardo.
— Sim.
— Ótimo. Vocês dois estão avisados. Não podem chegar perto de Amália novamente. Conhecem as nossas regras e o preço por quebrá-las.
— Isso… não é justo — disse Silas, com dificuldade.
— Não venha com essa, Silas! — retrucou Ricardo. — Você foi avisado e, mesmo assim, fez o que não devia. Se ele te der um tiro na próxima vez, eu não poderei fazer nada.
— Mas, chefe…
— Chega! Se não me obedecerem, serei obrigado a transferir vocês de cidade. É isso que querem?
— Não — responderam os dois, contrariados.
— Então façam apenas o que estou mandando.
Ricardo então se virou para Nerone.
— E quanto a você, sabe o que vai acontecer se fizer algo no meu território sem a minha permissão.
Os olhos de Ricardo se fixaram firmemente em Nerone, deixando claro que anos de amizade não diminuiriam a punição caso ele quebrasse as regras.
— Eu sei, chefe — respondeu ele.
— Ótimo. Agora podemos ir. Temos um noivado para participar, e o seu sogro deseja falar com você.
Nerone encarou Ricardo.
— Como?
— O seu sogro deseja ter uma conversa com você. Ele está te esperando no meu escritório — disse Ricardo, já saindo do quarto.
— O senhor sabe o que ele quer? — perguntou Nerone, curioso.
Em todos aqueles anos, ele havia falado poucas vezes com o pai de Amália. Nerone sempre deixava que Ricardo resolvesse essas questões, já que passava a maior parte do tempo em missões. Por isso, não entendia o que o homem poderia querer com ele.
— Provavelmente te ameaçar — respondeu Ricardo, sorrindo.
— Me ameaçar? Mas por quê?
Ricardo observava o rosto apreensivo de Nerone com certo divertimento. O garoto podia ter crescido e se tornado letal, mas entendia pouco das nuances da convivência social.
— Ele é pai, Nerone. E vai estar entregando o maior tesouro da vida dele a você. É normal que ele te ameace antes da cerimônia. Coisa de pai.
As palavras de Ricardo começaram a fazer sentido para Nerone.
Ao longo dos anos, ele sempre fora cuidadoso em não interferir na vida de Amália, preservando a autoridade que os pais tinham sobre ela. Mas, depois daquela noite, isso mudaria. Ele passaria a ocupar o lugar de figura de autoridade em sua vida.
Nerone suspirou. Sabia que não havia como escapar daquela conversa.
Tudo o que podia esperar era que o seu futuro sogro não resolvesse atirar nele.