Nerone caminhava ao lado de Ricardo com os pensamentos distantes. A curiosidade o dominava: seria a primeira vez que conversaria de verdade com o pai de Amália. Depois daquela noite, ele também faria parte da família e pretendia honrar o seu compromisso com ele e com todos os seus.
Nerone manteria a ajuda que dava a família de Amália, e pretendia os deixar ainda mais confortáveis do que estavam, uma forma de retribuir todo o carinho e cuidado que tinham com a mulher que ele amava.
— Alguém tá lascado — disse Nico ao ver Nerone e Ricardo se aproximando.
— Se ele não levar o garoto pro tatame, não é homem de verdade — provocou Vito, com um sorriso de canto, girando o canivete entre os dedos.
Nerone apenas revirou os olhos. Conhecia os amigos bem o suficiente para saber que tudo aquilo não passava de provocação, e não cairia naquele jogo.
— Deixem ele. Pretendo manter o garoto bem vivo para a noiva — comentou Ricardo, arrancando risadas dos outros.
Ricardo abriu a porta do escritório e esperou Nerone entrar, fechando-a atrás de si.
— Jorge, este é Nerone Donati, o noivo de Amália e seu futuro genro.
Nerone percebeu os olhos castanhos do homem à sua frente analisando-o com atenção. A expressão não revelava nada. Jorge era baixo e tinha as mesmas sardas que Amália tinha pelo corpo.
Era curioso — e um tanto desconfortável — ser examinado daquela forma, mas Nerone não deixou que isso transparecesse. Apenas aguardou que o homem terminasse.
— Você está bem diferente da última vez que o vi, meu jovem — disse Jorge, estendendo a mão.
Um tanto relutante, Nerone a apertou, sustentando o seu olhar.
— Todos mudamos com o tempo, senhor — respondeu com tranquilidade.
— Vou deixar vocês conversarem — avisou Ricardo. — Não passem dos limites.
— Jamais — respondeu Jorge.
Ricardo assentiu e saiu, deixando-os a sós.
— Confesso que estou curioso, rapaz. E um tanto chateado também… mas acho que vou ter que superar isso — disse Jorge, sentando-se em uma poltrona.
Nerone o acompanhou, acomodando-se à sua frente e esperando pacientemente que ele continuasse.
— Por que está chateado, senhor? — perguntou após um longo silêncio.
— Porque você está levando a melhor coisa que já fiz na vida. Aquela menina é todo o meu mundo — respondeu, os olhos brilhando de emoção.
— Não pretendo afastá-los. Quero que Amália sempre tenha por perto as pessoas que ama — disse Nerone com sinceridade.
— Quando o chefe me contou a sua decisão anos atrás, confesso que fiquei furioso. Tentei fazê-lo desistir, mas não consegui. Você não cedeu, e fui obrigado a aceitar esse compromisso.
— Jamais abriria mão dela. Amália é minha — respondeu Nerone, com um novo brilho no olhar, algo que deixava claro o quanto aquele jovem calmo podia ser letal.
— Você honrou as suas palavras ao longo desses anos. Até deu a Amália um ano a mais de liberdade. Só por esse gesto eu já sei que cuidará bem dela.
Jorge temia pela filha. Queria que a sua pequena fosse feliz, vivesse bem e em paz, sem ninguém para machucá-la. O seu coração de pai só se acalmou quando ouviu de Ricardo que jamais permitiria que Amália estivesse em um relacionamento abusivo.
E, olhando para Nerone naquele momento, ele não via perigo algum para a filha — embora sentisse os pelos da nuca se arrepiarem ao encarar o seu único olho bom.
Jorge não era ingênuo. Sabia que, apesar de jovem, Nerone carregava mais mortes nas costas do que ele anos de vida. Conhecia a fama dos Donati, sabia o quanto os irmãos eram temidos. Mas também sabia que honravam as suas palavras e eram ferozmente protetores com a família — e isso o tranquilizava.
— Eu queria que ela tivesse mais liberdade — disse Nerone, suspirando. — Depois que nos casarmos, ela não poderá sair tanto, pela própria segurança. Achei justo dar mais tempo agora, já que depois terá menos.
— Isso prova que você cuidará bem dela. E é tudo o que quero te pedir hoje, rapaz — disse Jorge, levantando-se e caminhando até ele.
Então, para surpresa de Nerone, ajoelhou-se e o encarou fixamente.
— Por favor… se algum dia não quiser mais a minha filha, apenas a devolva para mim. Amália é meu tesouro. Eu não suportaria saber que ela está sofrendo. Não tenho poder, não tenho posses. Tudo o que posso oferecer é minha vida pela dela.
Nerone ficou tão chocado que, por um instante, não reagiu. Quando voltou a si, levantou-se rapidamente e ajudou Jorge a se erguer.
— Não faça isso, senhor — pediu, acomodando-o novamente na poltrona. — Um Donati tem honra. Prometi que cuidaria dela e a protegeria. Jamais ergueria a mão contra Amália. Eu a amo.
E, se isso não for suficiente, saiba que a minha cunhada me mataria se eu fizesse algo assim. Seria a primeira a me entregar para ser punido segundo as regras da família.
Agressões na máfia eram proibidas, e a punição podia ser a morte. Nerone já tinha vivido violência demais para desejar aquilo novamente. Ele só queria um lar, alguém para quem voltar todos os dias — e sabia que Amália era esse lugar.
— Mas me prometa. Não vou descansar até ouvir isso da sua boca — insistiu Jorge.
Nerone levou a mão ao peito e sustentou o seu olhar.
— Eu, Nerone Donati, prometo ao senhor que jamais erguerei a minha mão contra Amália. Se isso acontecer, o senhor tem a minha permissão para me punir como quiser, sem interferência da minha família ou amigos.
Jorge sentiu o corpo estremecer com aquelas palavras. O rapaz podia ser jovem, mas tinha honra.
— Agora sim — disse, levantando-se e abrindo os braços. — Bem-vindo à família.
Ele puxou Nerone para um abraço de pai — daqueles que a gente nunca esquece.
O primeiro passo estava dado. Agora, só lhe restava conquistar Amália.