Capítulo 38

1021 Palavras
Silas observava de longe. Escondido nas sombras, com o corpo imóvel e os olhos fixos na casa de Amália. Ele sabia que Nerone estava ali, sentia isso, mas apenas um olhar para onde Bernardo estava acampado como um cão de guarda o fazia recuar. E então ele o viu. Horas depois Nerone saia pela porta como se aquele lugar fosse sua casa. O maxilar de Silas trincou com força. O ódio subiu quente, sufocante, corroendo qualquer resquício de razão. Ele não a merecia, Amália era doce de mais para estar com alguém tão sujo quanto Nerone Donati — Vai ficar aí até quando? — A voz de Daniel veio atrás dele, baixa, mas carregada de impaciência. Ele já tinha ouvido aquilo do amigo muitas vezes, mas não conseguia controlar as emoções que o tomavam sempre que ele pensava em Amália. Silas não se virou. — Até ele sumir — respondeu, seco. Ele desejava ter aquele poder, de fazer o Donati desaparecer em um estalar de dedos, mas infelizmente não tinha, era apenas mais um soldado nas linhas de frente de Ricardo. Daniel suspirou, cruzando os braços. — Você foi avisado, Silas. — Daniel se preocupava com o amigo e não desejava que o amigo terminasse morto por que descumpriu uma das regras da família. Silas finalmente olhou para ele, irritado. — E daí? — E daí que você está cavando a própria cova — rebateu Daniel. — Já te disseram para se afastar dela. Silas riu, sem humor. Ele não podia fazer aquilo, só se afastaria de Amália morto. — Se eu me afastar, ele fica. — Ele já está — respondeu Daniel, direto. — Ou se esqueceu que Nerone está noivo dela? Não a nada que possa fazer sobre isso Silas, apenas se afaste e deixe que eles sigam as suas vidas. O silêncio que caiu entre os dois foi pesado. Silas não queria aceitar aquelas palavras, ele se recusava a acreditar que a sua pequena seria feliz com um monstro que pingava sangue a cada passo que dava. Na mente dele Amália podia não ver a verdadeira face de Nerone, mas ele via, e era mais feia do que Amália algum dia poderia imaginar. Silas desviou o olhar de volta para a casa. Ele queria poder ver Amália novamente, talvez apenas um pequeno vislumbre de sua beleza, mas não havia qualquer sinal dela. — Cuida da sua vida, Daniel — murmurou. — É exatamente isso que eu estou tentando fazer… diferente de você. Silas não respondeu. Ele e Daniel não costumavam brigar, mas depois do noivado de Amália com o Donati eles não se entendiam mais. E isso acontecia por que ele se recusava a deixar Amália em paz. E Daniel, percebendo que não adiantava insistir, apenas balançou a cabeça antes de se afastar. — Quando isso der errado… não diz que ninguém te avisou. Silas ficou por mais um tempo apenas observando a casa de Amália de longe, não podia se aproximar, era ordem do chefe e ele corria o risco de ser punido apenas por estar ali. Cada movimento de Amália dentro daquela casa era acompanhado à distância. Cada vez que ela aparecia, mesmo que por segundos, os seus olhos a seguiam como se fosse a única coisa que importasse no mundo. Silas não sabia quando aquele sentimento tinha começado, mas sabia que não podia fugir do que sentia, ele amava Amália, e não conseguia se ver sem ela. Horas depois, quando o sol já começava a se esconder, ele finalmente se afastou. A sua casa estava silenciosa quando chegou, tão fria e vazia que ele tinha vontade de sair daquele lugar novamente e voltar para onde estava, nem que fosse apenas para observar Amália de longe, ainda era melhor que nada. Silas jogou as muletas de lado, passando a mão pelo rosto com força. A cabeça latejava, o corpo pesava — mas nada se comparava ao cansaço mental. Ele abriu uma gaveta, pegou o frasco de remédio e sem pensar muito, colocou um comprimido na boca e engoliu com um gole de água. Aquilo ajudaria a dormir melhor. Silas se jogou na cama, e o sono veio rápido, o arrastando para aquele mar profundo de nada que ele tanto ansiava. Quando abriu os olhos novamente… O mundo havia mudado. Ele sentia um calor sufocante o envolver, o seu coração disparava no peito enquanto ele lutava para se levantar. Era quente e sufocante. Silas franziu a testa, confuso, forçando a visão. Areia. Por todos os lados. O céu era um azul c***l, sem nuvens, sem piedade. Ele se levantou de repente, o coração disparando. Desespero invadindo capa poro do seu corpo. — O quê…? A respiração ficou irregular, e ao olhar ao redor, o desespero o toma. Não havia nada, nem casas, ou estradas, nem mesmo uma viva alma, era apenas... o deserto, quente e sufocante. Os seus olhos caíram para o que estava ao seu lado. Uma garrafa de água, e uma bússola. O pânico veio de uma vez. Silas sabia do que se tratava, Nerone tinha o visto observando Amália, o filho da p**a estava se vingando dele. — NÃO! — O grito rasgou o silêncio absoluto. Uma risada histérica irrompe do peito de Silas ao perceber a situação difícil em que estava. — Desgraçado?! — gritou novamente, a voz falhando. O coração batia tão forte que doía. A cabeça girava enquanto ele entendia que estava perdido, que Nerone tinha escolhido um método c***l para se vingar dele. — VOCÊ ME PAGA POR ISSO! TÁ OUVINDO?! — Gritou para o nada, como se de alguma forma a sua queixa pudesse chegar até Nerone. Mas não havia resposta, apenas o vento quente e o silêncio. Silas ficou parado por alguns segundos, a respiração pesada, o desespero crescendo dentro do peito como um incêndio fora de controle. Então olhou novamente para a garrafa de água e para a bússola, o medo tomando conta do seu corpo. Aquilo não passava de um jogo para Nerone, e ele estava sendo sua presa. Sem escolha Silas observa a bússola e pegando a suas muletas começa a caminhar pelo deserto escaldante.
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