Capítulo 37

1039 Palavras
Os dedos de Amália passeavam preguiçosos pelos cabelos de Nerone. Ele havia caído em um sono profundo assim que tinha deitado em seu colo. Tudo o que ela podia ouvir era o ressonar tranquilo da respiração dele preenchendo o silêncio do quarto. Olhando para ele enquanto dormia, Amália se perguntava onde estava a pessoa de língua afiada que sempre a respondia à altura. Naquele momento, ele mais parecia um menino que precisava ser protegido, e aquele pensamento chegava a ser cômico, dada a natureza do que Nerone fazia. Amália se pega rindo com aquele pensamento; para ela, era como ter um leão selvagem dormindo em seu colo — ele poderia ser bonito e fofo, mas ainda era letal. As horas se passam, e Amália se pega dormindo novamente. O seu leão adormecido lhe transmitia uma paz que ela não esperava. Quando desperta, encontra o olhar dele sobre si, a cabeça ainda repousada em seu colo de forma tranquila, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. — Oi — diz ele, com a voz um pouco rouca do sono. Amália apenas o encara, sem saber o que dizer. A forma como os olhos dele a encaravam era tão linda; ela podia ver que ele não usava máscaras, estava apenas sendo ele mesmo, e, de certa forma, aquilo a desconcertava. — O que está fazendo aqui, Nerone? — pergunta, finalmente encontrando a sua voz. — Queria te ver, senti saudades — diz ele. Quando aquelas palavras deixaram os lábios dele causaram um rebuliço no peito de Amália. Ela não queria ver o lado fofo e gentil dele; queria o velho Nerone, aquele com quem podia brigar e xingar, não alguém que estava deixando claros os seus sentimentos por ela. Estava ficando difícil cumprir a promessa de tornar a vida dele um inferno com ele sendo tão fofo. — Não pode ficar dizendo essas coisas — responde, desviando o olhar, com as bochechas vermelhas. Um sorriso curva os lábios de Nerone, e o som do riso dele atrai Amália. Ela se pega encantada com o que vê: ele ria ainda deitado em seu colo, os cabelos negros bagunçados lhe dando um ar inocente. — Apenas confesse que gosta de mim, Amália — diz ele, fitando-a com atenção. Amália bufa diante das palavras dele e, sem pensar duas vezes, ergue a mão e dá um tapa estalado na testa de Nerone. — Amália! — reclama ele, passando a mão pela testa. — Que droga te deram para você dizer isso, garoto? — pergunta ela, com a sobrancelha arqueada. Ele ri novamente, e Amália se prende naquele riso. Ela nunca o tinha visto tão relaxado em sua presença; era como se ele fosse outra pessoa. — O que houve com você? — pergunta ela, a surpresa estampada em seus olhos. — Não entendi — diz ele, parando de rir e a fitando. — Você está diferente, não sei dizer. Nerone suspira com as palavras dela. — Eu sou assim quando estou com você, Amália, porque me sinto confortável ao seu lado e não tenho a necessidade de esconder quem eu realmente sou. A questão é que você nunca quis me conhecer realmente. Ele tinha um olhar indagador sobre ela, esperando talvez que dissesse o contrário, mas ela nada diz. Apenas o fita, tentando entender as suas palavras, e, quando a compreensão vem, os seus olhos se arregalam. Nerone sempre esteve lá, sempre tentara se aproximar dela de alguma forma, mas ela nunca permitiu. Sempre fazia questão de zombar dele até nos momentos mais sérios, destruindo qualquer possibilidade de realmente conhecê-lo. — Posso ver nos seus olhos que estou certo, mas não vou esfregar isso na sua cara, Amália. Quero que nós dois demos certo, assim como todos os outros — diz ele, erguendo o braço e tocando o rosto dela com carinho. — Amo essas pintinhas. E, naquele raro momento de paz, Amália finalmente viu em Nerone algo que jamais tinha imaginado: alguém amável, cuja presença era confortável — talvez um amigo que pudesse ouvir as suas queixas. Mas a diferença era que um amigo não fazia o seu pulso acelerar com um toque da maneira como ele fazia. O som da porta do quarto se abrindo os deixa paralisados. Luz, que entrava com um cesto de roupas limpas, se assusta, deixando-o cair no chão. — Meu Deus, garoto, quase me mata do coração — diz ela, respirando fundo, com a mão no peito. — Me desculpe, Dona Luz, não foi minha intenção te assustar — diz ele, de forma tranquila, sem fazer nenhum movimento. — Sentiu saudades da Amália? — pergunta ela, com um sorrisinho no rosto. — Mãe! — Sim, estava com saudades — responde ele, voltando a tocar o rosto dela. — Fala sério! Sai do meu colo! — briga ela, tentando tirá-lo de sua cama. — Mas eu gosto do seu colo — diz ele, com tamanha inocência que as bochechas de Amália coram violentamente. Luz olha para aquela cena e cai na risada. Se tinha alguma dúvida de que aqueles dois dariam certo, ela acabara de desaparecer. Podia ver no olhar de Nerone que o garoto era apaixonado por sua filha, e, pela forma como Amália corava, ela também devia gostar dele. — Você é insuportável! — Não brigue com ele, Amália. Nerone é da família — responde Luz, arrancando um sorriso dele. Nerone não era de sorrir, mas estava ficando cada dia mais difícil manter a máscara que usava com todos. — Sério? — pergunta ele. — Sim, agora desçam os dois para almoçar, já está tarde — diz Luz, colocando as roupas em uma poltrona e se retirando do quarto. — Você ouviu, eu sou da família agora — diz ele a Amália. — Só por cima do meu cadáver — diz ela, com o maxilar trincado de raiva. Nerone suspira, se levanta e agarra Amália pelos pés, puxando-a para a beirada da cama. Então a prende com seu corpo. — Sim, vai ser por cima de você, mas você estará bem viva, tampinha — diz ele, roubando um beijo rápido dela e a soltando. — Nerone! — grita ela, arremessando um travesseiro contra ele, mas ele já tinha passado pela porta em segurança.
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