Nerone voltava para casa quando encontrou o pequeno soldado no pátio. Pelo menos era assim que ele sempre pensava quando via o menino.
Entre todas as crianças que seu irmão havia resgatado ao longo dos anos, Zion fora o único cuja família jamais tinha sido encontrada. E, ao contrário dos outros, ele nunca quis ir embora. Nunca quis estar em outro lugar.
Aurélio ainda tentou mandá-lo para alguns internatos, acreditando que talvez aquela fosse a melhor forma de lhe dar uma vida normal. Mas Zion fizera questão de ser expulso de todos. Depois de algumas tentativas frustradas, Aurélio simplesmente desistiu.
Aceitou que o garoto permanecesse ali.
Assim, Zion passou a fazer parte da máfia, encarregado de algo que levava muito a sério: a segurança dos filhos de Aurélio. Uma função da qual ele se orgulhava profundamente.
O menino era seis anos mais velho que as crianças, mas fez questão de começar a estudar quando os pequenos passaram a ir para a escola. Desde então, tornara-se uma presença constante. Sempre por perto. Sempre atento.
Uma sombra silenciosa.
— Zion! — chamou Nerone, usando o nome que sua cunhada havia dado ao garoto.
O menino tinha orgulho daquele nome, mesmo que tentasse esconder.
Afinal, ele era um Donati.
E isso jamais mudaria.
— Senhor. — disse Zion, aproximando-se com a cabeça baixa.
Nerone suspirou.
Ele odiava aquela formalidade.
Zion tinha um quarto no mesmo andar que os filhos de Aurélio. Sentava-se à mesa com eles todos os dias e seguia a mesma rotina da casa. Ainda assim, jamais se comportava como alguém da família.
Por mais que Oksana tentasse.
Ela fazia questão de lhe dar um beijo na testa todas as manhãs antes de ir à escola, exatamente como fazia com os filhos. Mas Zion apenas aceitava em silêncio, como quem recebe algo que acredita não merecer.
Nerone arqueou a sobrancelha.
— Tio. — disse o garoto, corrigindo-se imediatamente.
— O que está fazendo aqui fora sozinho?
— As meninas estão no pátio. Eu estava cuidando delas.
Ele ainda evitava encarar Nerone.
— Não precisa fazer isso. Até onde sei, hoje é sua folga.
Ali todos tratavam Zion como um pequeno soldado. Ele tinha salário, horários e dias de descanso bem definidos.
Somente dentro da casa era tratado como um filho querido.
Mesmo contra sua vontade.
— Elas estavam sozinhas... fiquei preocupado. — tentou se justificar.
Nesse momento, uma massa de cabelos loiros surgiu correndo pelo jardim.
— Mano!
A pequena se jogou nas pernas de Zion.
O garoto ficou completamente imóvel, assustado com o gesto. Ele conhecia bem as regras da máfia. Mesmo sendo considerado parte da família, fazia o possível para manter distância das meninas — as verdadeiras joias do seu chefe.
— Mili, solta o mano. Vamos. — disse Nerone, abaixando-se na altura da criança.
Milena era completamente grudada em Zion. E o garoto nunca parecia saber o que fazer com aquela adoração. Por isso, Nerone sempre o salvava nessas situações.
— Ah, tio... — reclamou ela, fazendo um biquinho.
— Não faça essa cara. Você sabe que precisa se comportar, pequena.
Ele beijou a testa da menina antes de pegá-la no colo.
Nerone seguiu na direção de onde ela havia vindo e encontrou uma das babás quase em pânico, correndo pelo jardim.
— Graças aos céus! — disse ela, levando a mão ao peito. — Já estava me descabelando de preocupação.
— Não se preocupe, Graça. Zion estava de olho nelas. Mas precisa ficar mais atenta.
Ele sabia que Aurélio não lidava bem com pequenos descuidos.
Nem ele.
Embora, desde que haviam instalado rastreadores nas crianças, Nerone estivesse um pouco mais tranquilo.
— Obrigada, senhor. Obrigada, Zion. Vou tomar mais cuidado.
Ela pegou Milena nos braços e se afastou rapidamente.
Nerone voltou-se para o garoto.
— Venha, garoto. Já que não tem nada para fazer, me ajude com uma coisa.
Os olhos de Zion brilharam instantaneamente.
Ele correu atrás de Nerone até a pequena garagem nos fundos da mansão.
Ali dentro, Nerone abriu a porta metálica e caminhou até uma de suas motos.
Ele gostava de cuidar dos próprios veículos. Saber que ele mesmo estava fazendo a manutenção lhe trazia uma estranha sensação de controle.
— Chegou uma carga de lixo para você, garoto. — anunciou Bernardo, descendo de um pequeno caminhão.
— Você sabe que não é lixo.
— Eu sei. Ou acha que não vi por quanto você vendeu as últimas?
Bernardo sorriu de canto.
Nerone tinha um hobby peculiar: restaurar motos antigas, daquelas que ninguém mais acreditava ter salvação. Aprendera o ofício com Nico, nos tempos em que estivera na Fênix.
Com o tempo, aquilo deixou de ser apenas passatempo.
Agora também rendia um bom dinheiro.
Mas ele fazia tudo sem pressa — e quem contratava seus serviços sabia disso.
— Essa não é para mim, Bernardo. — disse Nerone, apontando para Zion.
— Fala sério... vai ensinar o garoto?
— Vai ser nosso passatempo.
Na verdade, Nerone queria aproximar Zion da família. Sabia que o garoto carregava sombras demais para alguém tão jovem.
E não queria vê-lo desaparecer dentro delas.
— É sério? — perguntou Zion, com um sorriso que iluminava o rosto.
— Sim. Vá dar uma olhada.
O garoto correu até o caminhão e, com esforço, abriu a porta traseira.
Seus olhos brilharam imediatamente.
Ali, presa por cintas, estava uma Harley-Davidson Fat Boy.
— Ela está bem acabada. — comentou Bernardo, observando Zion entrar no caminhão e encarar a moto como se fosse um tesouro.
— Ele vai ter trabalho por muito tempo. — disse Nerone, aproximando-se.
Zion desceu do caminhão e, impulsivamente, abraçou Nerone.
— Obrigado, tio.
Os seus olhos brilhavam de emoção.
Antes que Nerone pudesse responder, o garoto já havia voltado correndo para a moto.
— Não me agradeça ainda. — disse Nerone. — Os seus dias de folga agora serão comigo nessa oficina.
— Está roubando meu filho, irmão?
Aurélio se aproximava com um sorriso divertido.
— Não mesmo. Só estou tentando fazer esse menino descansar um pouco.
Aurélio arqueou a sobrancelha.
— Ele estava fazendo turno extra de novo?
Zion desceu do caminhão e parou diante dele, cabeça baixa.
— Eu estava preocupado, Dom.
Aurélio suspirou.
— Quando vai me chamar de pai, garoto? Você também é meu filho.
Zion desviou o olhar.
O silêncio respondeu por ele.
Aurélio apenas assentiu.
— Está bem. O dia em que quiser me chamar assim, eu ainda estarei aqui.
No fundo, tudo o que Aurélio queria era poder apagar o passado do menino diante dele.
Mas sabia que isso era impossível.
Então faria a única coisa que estava ao seu alcance.
Estar ali.
Sempre que Zion precisasse.