Capítulo 7

1096 Palavras
Nerone deixa Zion na oficina e segue acompanhando o irmão. O garoto estava mais feliz do que nunca com a moto, e aquilo também deixava Nerone mais tranquilo. Zion não era bobo, e Nerone sabia que ele já tinha visto algumas coisas dentro da organização que talvez não devesse. Ainda assim, ninguém tentava esconder completamente as suas atividades do menino — apenas o mantinham afastado das partes mais pesadas. Zion já fazia aulas de tiro e treinava luta com alguns filhos de soldados. Nada muito intenso, afinal ainda era uma criança. Mesmo assim, todos sabiam que o destino do garoto acabaria sendo dentro da organização. Era possível ver isso em cada pequeno gesto dele no dia a dia. — Esse menino vai ser um dos melhores. — diz Bernardo depois de um tempo. — Eu queria que ele escolhesse outra coisa para fazer. — responde Aurélio com um suspiro. — Isso não vai acontecer. Dá para ver nos olhos dele. — comenta Nerone. Aurélio passa a mão pelo rosto, pensativo. — Eu sei. Então o que posso fazer é treiná-lo dentro da família. Não sei exatamente o que ele busca, mas não vou ficar no caminho dele quando decidir. Aurélio e Nerone eram a prova viva de que, quando alguém deseja vingança, a única forma de acalmar o espírito é alcançando-a. E ambos sabiam que, um dia, o menino pediria isso. Quando esse dia chegasse, eles estariam lá para ajudá-lo. — Já estão querendo desvirtuar o meu filho? — pergunta Oksana ao entrar no escritório e se sentar no colo de Aurélio. — Você sabe que não é assim, russa. Você enxerga melhor do que nós. — responde Bernardo. — Ele é tão fofo. Vocês precisam ver o poema de Dia das Mães que ele fez para mim. — diz Oksana, animada. Oksana também enxergava as sombras nos olhos do menino. Ainda assim, fazia questão de incentivá-lo a ser melhor do que o passado que carregava. Por isso, estava sempre presente em tudo. Ela visitava a escola, conversava com os professores e puxava as suas orelhas quando ele aprontava alguma coisa. Em cada comemoração, ela estava lá ao lado de Aurélio. Em cada aniversário, em cada data importante. O que Oksana queria era construir novas memórias para o garoto. Mostrar a ele que era mais do que pensava — e tão digno de amor quanto qualquer um de seus filhos. — Eu acredito, loira. Você domou o Nerone, pode fazer o impossível. — diz Bernardo, piscando para o amigo. — Fala sério. — resmunga Nerone, sentando-se na poltrona à frente. — Sabe que te amo, cunhado. — diz Oksana, jogando um beijo para ele. Nerone apenas balança a cabeça. Já estava acostumado com o comportamento da cunhada. — Não diga isso, querida. Você sabe que esse traseiro dele pertence a outra pessoa agora. — provoca Aurélio. — m*l posso esperar para a Amália entrar para a família. Vamos nos divertir muito. — responde Oksana, animada. Nerone geme em protesto ao ouvir aquilo. Conhecia bem a cunhada e sabia que aquela animação significava problemas. — Oksana... — Vou me comportar, cunhado. Mas Amália precisa se sentir acolhida na família. E é isso que eu vou fazer. — A casa já está pronta? — pergunta Aurélio. Nerone estava construindo uma casa um pouco mais afastada da de Aurélio. Ela ficava em um ponto alto, com uma vista linda dos vinhedos e dos picos ao redor. Ele tinha certeza de que Amália amaria aquela paisagem tanto quanto ele. — Sim. Estou cuidando dos últimos detalhes. Ela pode mudar alguma coisa depois, se quiser. — Não vai. Aquela casa está perfeita. — responde Oksana. — Espero que você esteja certa. — diz Nerone. — Vai ficar tudo bem, garoto. Dê tempo ao tempo. — comenta Bernardo antes de sair da sala. — Espero que sim. — responde Nerone, pensativo. Ele havia cumprido o acordo. Deu tempo a Amália. Deixou que ela estudasse, viajasse e aproveitasse a liberdade que antes não tinha. Sabia que ela odiava o controle que ele exercia sobre a sua vida, mas aquela tinha sido a única forma que encontrou de conseguir manter distância. Ainda assim, as suas visitas à Fênix estavam mais frequentes do que antes. Quanto mais perto o noivado chegava, mais ele sentia vontade de estar com ela — mesmo sabendo que a sua presença talvez não fosse bem recebida. — Vou até a Fênix para organizar tudo com ela para o noivado. — diz Oksana após um longo silêncio. — Sei que fará o seu melhor, Oksana. Espero que ela goste. — responde Nerone, com o olhar distante. Muitas coisas o atormentavam. Como Amália reagiria? Será que o recusaria? Ele temia o momento em que ela veria o seu rosto sem o tapa-olho que costumava usar. Temia o instante em que ela perceberia o vazio onde antes existia o seu olho esquerdo. Será que sentiria nojo? Ou medo? Esses pensamentos o deixavam inquieto. As cicatrizes espalhadas pelo corpo também não ajudavam muito. Mas ele teria que enfrentar aquilo quando chegasse a hora. Percebendo o estado de Nerone, Oksana apenas cutuca Aurélio de leve antes de sair do escritório. Talvez fosse melhor deixar os dois conversarem sozinhos. — Ela não vai se importar com isso. — diz Aurélio, arrancando Nerone do turbilhão de pensamentos. — Você não pode garantir isso. — Ela não é c***l, Nerone. Aquela menina, apesar de teimosa, sabe ser gentil. Tenho certeza de que não vai se importar com isso. Aurélio havia tido tempo para pesquisar sobre Amália. Ele respeitava a decisão do irmão sobre com quem queria passar o resto da vida, mas precisava ter certeza de que aquela pessoa realmente o merecia. — Você não a conhece, irmão. Ela tem o poder de me tirar completamente do sério. — diz Nerone, cerrando os dentes ao lembrar de algumas discussões entre os dois. — Ela gosta de você. Assim como você gosta dela. Mas os dois são teimosos demais para admitir isso, então preferem ficar nessas provocações infantis. Aurélio já havia presenciado mais brigas do que gostaria. E sabia que Ricardo também estava cansado daquilo. — Ela pode mudar de ideia quando vir... o que eu sou. — diz Nerone, desviando o olhar. Aurélio solta uma pequena risada. — É aí que você se engana, irmão. Se aquela menina realmente te ama, isso não vai importar. Ele se inclina na cadeira antes de completar: — Olha o Calebe. Mais feio do que ele, impossível. E mesmo assim a Dandara é completamente louca por aquele brutamontes. Aurélio começa a rir.
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