Capítulo 34

1061 Palavras
As correntes foram retiradas sem cerimônia. O metal caiu no chão com um som seco, ecoando pelo ambiente enquanto Nerone flexionava os pulsos lentamente, testando os limites do próprio corpo. A dor ainda estava ali, mas nada que o impedisse. Nunca seria. — Não tente nada — disse um dos homens, apontando a arma. Nerone sequer olhou para ele. Ele conhecia as regras, e não era burro de tentar algo quando não tinha a menor chance de sair daquele lugar. O seu foco estava à frente, em Félix. O sorriso do rapaz permanecia o mesmo — vivo, ansioso, quase infantil, mas Nerone sabia tão bem quanto todos ali, que de criança inocente, o filho do cobra não tinha nada. — Vamos — disse ele, girando nos calcanhares. — Eu quero ver até onde você vai. Sem dizer uma palavra, Nerone os acompanhou. O caminho até a praia foi silencioso, e Nerone não viu a mulher que tentara resgatar por perto, o que significava que deviam te-la levado novamente para as celas. Homens armados cercavam os dois lados, atentos a qualquer movimento. Ao fundo, o som do mar crescia a cada passo, até que finalmente se abriu diante deles. Uma arena improvisada. Um círculo marcado na areia, cercado por tochas e homens que aguardavam o espetáculo. O vento carregava o cheiro salgado do oceano, misturado à expectativa brutal de violência. Félix caminhou até o centro, abrindo os braços como se estivesse recebendo aplausos invisíveis. — Bem-vindo — disse, sorrindo. — Esse é o lugar onde as coisas ficam… interessantes. Nerone permaneceu em silêncio, observando. Ele entendia o que Félix estava fazendo, ele estava tentando brincar com a mente de Nerone, o deixar sem esperanças, o desestabilizar, mas ele estava apenas perdendo seu tempo. Anos atrás Nerone avia feito um intensivão com um dos esquadrões de Ricardo, eles eram insanos e o ensinaram tudo o que precisava saber, inclusive não cair em provocações desnecessárias, mas manter o foco no que realmente importava. — As regras são simples — continuou Félix. — Não há regras. O sorriso dele se alargou. — Só um de nós sai vivo daqui. Um dos homens trouxe uma caixa metálica, abrindo-a diante deles. Havia diversas armas, facas, machados, correntes… e, entre elas, uma lança de cabo longo. Os olhos de Nerone pousaram nela. Ele era bom com lanças, ela seria sua melhor opção já que n]ao conhecia o estilo de luta de seu oponente. Félix, por sua vez, escolheu uma espada. Girou a lâmina no ar com naturalidade, como se fosse uma extensão do próprio corpo, e para ele era. Havai sido treinado pelos melhores espadachim que havia, e sabia do que era capaz. — Boa escolha — comentou, observando a lança. — Vamos ver se você sabe usar. Nerone apenas assumiu posição. Ele sabia do que era capaz, e não sentia a necessidade de ficar falando sobre aquilo. Quando ambos estavam em posição, cobra declarou a luta aberta. Félix avançou primeiro. A sua lâmina cortou o ar em um arco preciso, mirando o pescoço de Nerone. Ele desviou por pouco. A areia cedeu sob os seus pés enquanto recuava, girando a lança e contra-atacando com um golpe lateral. Félix bloqueou, o impacto ecoando metálico na noite. Faiscas saiam das suas armas, o som da suas respirações pesadas enchiam o ar. Cada movimento era tão preciso quanto uma dança. A luta explodia a volta de todos, tanto Nerone quanto Félix concentrados no que estavam fazendo. Golpes rápidos, precisos, violentos. A espada de Félix era agressiva, imprevisível — um reflexo perfeito de sua mente. Já Nerone era calculado, frio, cada movimento pensado para desgastar, testar, abrir brechas. Ele usava as técnicas que tinha aprendido, e conhecer seu inimigo era o princípio dela. A lança girava com fluidez. Mas Félix era bom. Muito bom, e Nerone sabia reconhecer um boom oponente quando o via. Em um avanço mais agressivo, ele conseguiu se aproximar demais. A espada rasgou o ar, cortando de raspão o braço de Nerone. Um fio de sangue escorreu, mas Nerone não recuou. Avançou com ainda mais força. Girou o corpo, usando o próprio movimento para reposicionar a lança e golpear o punho de Félix com força. O impacto foi rapido. A espada vacilou. Uma fração de segundo. Foi o suficiente. Com um movimento rápido, Nerone travou a arma do outro com a haste da lança e girou, arrancando-a de sua mão. A espada caiu na areia. Félix ainda tentou reagir, mas Nerone foi mais rápido. Pegou a espada e a encostou no pescoço dele. Os dois tinham a respiração ofegante. Olhos nos olhos. Eles sabiam que aquela luta tinha chegado ao fim. Os mercenários ao redor reagiram imediatamente, levantando as armas. — Parem — disse Félix, firme. Todos congelaram diante da ordem do filho do chefe. Ele ergueu levemente o queixo, sentindo o fio frio da lâmina contra a pele. E então sorriu. — Eu disse que só um sairia vivo. Diz ele com os olhos fixos nos homens a sua frente. — E eu sou homem para cumprir a minha palavra. O silêncio se aprofundou. Cobra olhava para o filho com o maxilar trincado, mas conhecia as regras da Toca, e quando um desafio era feito ele deveria ser respeitado, mesmo que a vida do seu filho estivesse em jogo. Nerone observou aquilo e afastou a espada com um gesto lento. Ele não tinha pressa, a sua vitória tinha sido clara e justa. Os homens ao redor hesitaram encarando Nerone com uma confusão evidente em seus rostos. Félix franziu levemente o cenho, surpreso. Nerone estendeu a mão. — Não há necessidade de sermos inimigos — disse, firme. — Podemos lucrar muito mais trabalhando juntos. O vento soprou entre eles, carregando o peso da proposta. Félix olhou para a mão, e depois para o rosto de Nerone, então começou a rir. — Eu realmente te subestimei — disse, ainda rindo. Sem hesitar, segurou a mão dele e se levantou. — Você tem coragem… — completou, limpando o sangue do canto da boca. — …e cérebro. O sorriso dele voltou, mas agora diferente. — Eu gosto disso. Ao redor, os homens abaixaram as armas lentamente, um suspiro aliviado deixando os seus lábios, inclusive o de cobra que havia observado tudo com atenção, e agora percebia que tinha uma dívida que jamais poderia pagar com o homem a sua frente.
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