Ninguém chegava à Toca por acaso. A ilha não constava em mapas oficiais. Não era mencionada em rotas comerciais. Não existia para o mundo… e, ainda assim, sustentava um dos centros mais perigosos do submundo.
Um buraco no oceano. Um erro ignorado pelo governo. Ou, talvez, conveniente demais para ser apagado, muitos políticos renomados faziam negócios na Toca. Ali, leis não existiam e consciência, menos ainda.
A Toca era um ponto de encontro para tudo aquilo que o mundo rejeitava — tráfico, tortura, leilões ilegais, contratos de morte. Um lugar onde dinheiro comprava silêncio… e dor. E, no centro de tudo aquilo, havia dois homens, as pessoas mais temida naquelas águas, mais letais que qualquer pirata moderno.
O dono e o herdeiro. O primeiro era conhecido apenas como “Cobra". Um homem que construiu aquele império com sangue e medo. Frio, calculista, implacável. Não levantava a voz — não precisava. O seu nome já era suficiente para silenciar qualquer sala.
Mas, se ele era temido… O filho era algo pior. Não havia controle nele. Não havia lógica. Era o caos em forma humana.
Sádico, instável. Perigoso até para os próprios homens.
Diziam que ele não matava por necessidade… mas por diversão. E que, quando sorria, alguém sempre morria. Félix era o caos enquanto o pai era calmaria, e para ele era destinado todo tipo de serviço que faria o estômago de qualquer um embrulhar.
Foi para esse inferno que levaram Nerone. A consciência voltou aos poucos. Primeiro, a dor que latejava em suas têmporas, como se a sua cabeça fosse explodir, depois o gosto metálico de sangue que invade a sua boca.
Nerone abriu os olhos lentamente, a visão turva se ajustando ao ambiente ao seu redor. Estava escuro e frio, e suas mãos estavam amarradas, ele tenta se mover, mas não consegue.
Ele estava preso.
Sentado em uma cadeira de metal, mãos presas para trás, pés imobilizados. O corpo ainda respondia bem — nenhum dano grave. Apenas o suficiente para mantê-lo contido.
Erro deles.
Passos ecoaram pelo ambiente vindos em sua direção. Nerone ergueu o olhar encarando seus captores.
O Cobra entrou primeiro, a sua postura impecável como se Nerone não fosse nada além de mais um incomodo que ele precisaria lidar. Olhar vazio. Como se nada naquele mundo fosse capaz de afetá-lo.
Félix entra com um largo sorriso no rosto, ter Nerone em sua cela significava mais diversão para ele.
— Então… — disse o jovem, inclinando levemente a cabeça enquanto observava Nerone. — Esse é o famoso Donati.
Nerone não respondeu. Não era nenhuma surpresa eles saberem sua identidade. Qualquer pessoa que trabalhava no submundo fazia o seu dever de casa, ou seja, investigava todos que faziam parte daquele mundo, e por mais que eles tentassem conter as informações, algo sempre vazava.
Nerone não responde, apenas sustenta o olhar doe Félix com a mesma intensidade que ele o encarava.
— Eu gostei dele — continuou, caminhando lentamente ao redor da cadeira. — Tem coragem… ou é burro. Ainda não decidi.
O Cobra permaneceu em silêncio, observando, avaliando se Nerone valia o tempo que ele estava perdendo nas celas.
— Você entrou na minha casa… — disse ele, finalmente, com a voz baixa e controlada. — E tentou levar algo que me pertence.
Nerone inclinou levemente a cabeça.
— Ela não pertence a você. — Responde Nerone o encarando com firmeza.
Por um segundo… silêncio absoluto, e então Félix explodiu em uma gargalhada que reverberou pelas paredes das celas em ondas.
Alto e extridente.
— Eu avisei! — disse, batendo palmas lentamente. — Eu disse que ele era interessante!
Ele parou à frente de Nerone, se abaixando até ficar cara a cara com ele.
— Você tem ideia de onde está?
— Tenho.
— E mesmo assim fala assim?
Nerone sustentou o olhar.
— Um homem é responsável por suas escolhas, e pelas consequências que vem com elas. — Diz ele de forma simples, apenas constatando a suas realidade.
O sorriso do rapaz se transformou. Não sumiu, mas de certa forma mudou. Ficou… mais perigoso.
— Perfeito. — Responde com satisfação, um novo brilho em seus olhos.
Ele se levantou, girando nos calcanhares como se tivesse acabado de ter a melhor ideia do mundo.
— Pai — disse, animado. — Quero brincar com ele.
O Cobra não respondeu de imediato.
— Não temos tempo para jogos — disse, por fim. Ele queria apenas acabar logo com aquilo e enviar o corpo do rapaz a Dom Aurélio como uma forma de a diverti-lo para não passar dos limites.
— Temos sim — retrucou o filho, quase infantil. — Esse aqui é diferente. Você viu. Ele não implora.
Uma pausa.
O olhar do Cobra voltou para Nerone. Ele precisava admitir que o garoto a sua frente era interessante. Ele podia ver que ele não estava com medo do que o esperava, apenas observava tudo com atenção, e por mais que as pessoas que estavam com ele não notassem aquilo, ele notava. Nerone Donati era um soldado treinado para tudo, inclusive a morte.
— O que você sugere?
O sorriso do jovem voltou com força total.
— Um desafio.
O silêncio caiu novamente enquanto todos aguardavam que Félix terminasse.
— Se ele vencer… — continuou o rapaz, andando de um lado para o outro — ele sai daqui vivo.
Os olhos de Nerone se estreitaram levemente.
— E leva a garota com ele.
— E se perder? — perguntou o Cobra.
O sorriso do filho se alargou.
— Eu fico com ele.
O Cobra encarou o filho por alguns segundos… antes de voltar os olhos para Nerone.
— E você? — perguntou. — Aceita?
Nerone não hesitou, a sua vida e da mulher que precisa resgatar dependiam daquilo, e se Félix pensava que ele seria uma presa fácil, estava muito enganado.
— Aceito.
O sorriso do rapaz se abriu como o de um predador que finalmente encontrou algo à altura.
— Ótimo — disse, satisfeito. — Porque eu estava mesmo entediado.
Ele se aproximou novamente de Nerone, os olhos brilhando com expectativa.
— Vamos ver… Donati…
— …quanto tempo você sobrevive.