Leo bateu duas vezes na porta de madeira e imediatamente se arrependeu da própria existência. Lá dentro, ouviu um barulho pesado, seguido por passos lentos e irritados.
— Quem morreu? — a voz rouca de Kenai atravessou a porta. Então Leo estava diante de seu rosto hostil.
— Ainda ninguém. Mas, dependendo do seu humor, talvez eu morra em alguns segundos. — respondeu Leo, enfiando as mãos nos bolsos, um sorriso sem graça no rosto.
O silêncio do outro lado foi breve. Então a porta se abriu de uma vez. Kenai surgiu usando apenas uma calça de moletom escura, os cabelos negros bagunçados e os olhos carregados de sono e irritação. Estava claro que ele não estava gostando nada da presença de Leo na sua porta aquela hora da manhã, ainda mais em um dia de folga.
— Você tem três segundos para me dar um motivo muito bom pra estar aqui. — disse ele. — Hoje é minha galga, e eu devia estar agarrado a minha mulher, mas não, estou aqui olhando para essa sua cara feia.
Leo abriu a boca para responder, mas parou no mesmo instante, os seus olhos faiscando de raiva com as palavras do amigo. Ele só passa a mão no rosto frustrado.
Fiorela apareceu atrás de Kenai enrolada em um lençol, os cabelos longos caindo sobre os ombros enquanto tentava esconder um sorriso divertido.
— Eu disse que era trabalho. — comentou ela.
— Trabalho às quatro da manhã devia ser crime. — resmungou Kenai.
Leo pigarreou, desviando o olhar do casal.
— Max quer você na mansão.
O semblante de Kenai mudou na mesma hora. Se era um pedido do chefe ele jamais recusaria, e todos ali sabiam disso. Kenai era leal a Max.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. Quer dizer… depende do seu conceito de tragédia. — diz com um sorriso sem graça.
Os olhos estreitos de Kenai se fixaram nele.
— Fala logo. — diz perdendo a paciência.
Leo soltou o ar lentamente.
— Bernardo quer pedir permissão pra cortejar Iara.
O silêncio que veio depois foi tão pesado que Leo sentiu vontade de correr.
Kenai permaneceu imóvel. Completamente imóvel. Em sua mente ele se imaginava esganando Bernardo, já tinha deixado claro que não desejava que ele se metesse com Iara, mas o homem insistia em lhe provocar com aquele assunto.
Fiorela fechou os olhos devagar, como quem já previa um desastre.
— Leo… — disse ela baixinho.
— Eu sei.
Kenai começou a rir. Não era uma risada normal.
Era aquela risada perigosa que fazia homens treinados repensarem todas as decisões da própria vida. Os pelos da nuca de Leo se arrepiam e ele sabia que aquilo não terminaria bem.
— Bernardo. — repetiu ele lentamente.
Leo assentiu.
— Bernardo. — Kenai repetiu outra vez, agora com um sorriso frio surgindo no rosto. — O italiano engraçadinho quer a nossa Iara
Fiorela cruzou os braços. Sabia do genii forte do marido, e o quanto ele era protector com seu povo.
— Você sabia que isso aconteceria em algum momento.
— Sabia. — respondeu ele. — Mas esperava que ele tivesse mais instinto de sobrevivência.
Leo deu um passo para trás. Por precaução.
Kenai percebeu o movimento e soltou uma risada nasal. O amigo tinha todo o direito de estar com medo, a sua vontade naquele momento era apenas matar alguém para aliviar a sua raiva, mas teria que ser o pescoço de outra pessoa.
— Relaxa, Leo. Ainda não vou arrancar a sua cabeça.
— O “ainda” me preocupa. — Diz Leo arrumando os óculos.
Fiorela caminhou até Kenai e colocou a mão em seu braço.
— Não faça nenhuma loucura. Deixe ele falar. — diz ela com ternura, esperando que a suas palavras pudessem o acalmar um pouco e evitar uma tragédia.
Ele abaixou os olhos para ela. Toda a agressividade em seu rosto diminuiu um pouco.
— Isso depende dele.
— Kenai…
— Não. — interrompeu ele calmamente. — Se Bernardo quer Iara, vai precisar merecer.
Leo já esperava aquela resposta.
Honra.
Sempre honra.
Para homens como Kenai, palavras tinham peso. Promessas eram sangue. E família… família era sagrada. E Bernardo estava mexendo justamente com o que ele mais cuidava, seu povo, sua família.
— Max sabe disso Kenai. — comentou Leo.
Kenai soltou um grunhido e passou a mão pelo rosto.
— Claro que ele sabe. — Um dos motivos pelo qual Kenai tinha profundo respeito e admiração por Max, era pela forma que ele cuidava dos seus e tratava a sua família, o homem sabia ser pior que ele, e aquilo era bom, não seguiria uma pessoa fraca, nenhum dos seus seguiria.
Fiorela suspirou.
— Pelo menos coloque uma camisa antes de sair ameaçando pessoas.
— Não estou ameaçando ninguém.
Leo arqueou a sobrancelha.
Kenai o encarou.
— Ainda.
Fiorela riu baixo.
Ela se aproximou e ficou na ponta dos pés, beijando rapidamente o rosto do marido.
— Tente não matar o pobre Bernardo.
— Não prometo nada.
— Kenai.
Ele finalmente cedeu.
— Vou tentar. — Não havia nada que ele negasse a sua mulher quando ela o encarava daquela forma, mas ele cobraria aquele favor mais tarde, isso ela poderia esperar.
— Isso já é progresso. — disse Leo.
Kenai entrou novamente na casa e voltou alguns minutos depois vestindo uma camiseta preta e uma jaqueta escura. Assim que passou por Leo, pegou as chaves da caminhonete sobre a mesa lateral.
— Vamos logo acabar com isso.
Leo caminhou atrás dele até o carro.
— Sabe, eu realmente admiro a sua calma.
Kenai abriu a porta da caminhonete.
— Eu não estou calmo.
Leo parou por um segundo.
— Ah.
— Estou escolhendo onde bater nele primeiro.
Leo fez uma careta.
— Vou fingir que não ouvi isso.
Kenai ligou o motor.
— Faz bem.
Enquanto a caminhonete avançava pela estrada ainda mergulhada na escuridão da madrugada, Kenai manteve os olhos fixos à frente.
Mas, pela primeira vez desde que ouvira o nome de Bernardo ligado ao de Iara, uma pergunta começou a incomodá-lo.
E se o italiano realmente a amasse?
Aquilo era perigoso.
Porque, se fosse verdade… talvez Kenai não pudesse impedi-lo.