Esse é só o começo do sofrimento de Ana

1798 Palavras
Eu não comecei esse lìvro com a intenção de fazer os personagens comerem o pão que o dito cujo amassou, mas eles vão comer. É um Iivro +16 com gatilhos, mas não detalho muito o sofrimento. Só que não recomendo para quem é muito sensível. Todavia, também terão muitos momentos felizes de aquecer o coração. Beijos! "Quem despreza o próximo comete pecado, mas como é feliz quem trata com bondade os necessitados!" Provérbios 14:21 A luz passou a me incomodar, porque eu sabia onde estava e conseguia ver o quão sufocante era o cômodo pequeno. Engatinhei até à tomada e a desliguei. A porta é aberta novamente, mas não é o menino. É um homem idoso e alto. Ele liga a luz e franze o rosto ao me ver nessa situação deplorável. — Quem te colocou aí? — pergunta, sério. — Solange. — Fez o que para irritar o demônio? — Empurrei a irmã dela. Ela se machucou. Ele profere um palavrão. Parece estar relutante entre me ajudar. — Não quero o causar problemas. Vá embora, por favor. O único que não sofreria as consequências de me tirar daqui é o Jedidias, mas ele não liga para mim. Então… — Sou o pai do Jedidias. — O pai? — Arqueio as sobrancelhas. — O senhor está diferente. Ele não diz mais nada. Apenas me pega no colo, anda comigo pelos corredores vazios e me leva para um banheiro diferente daquele que tomei banho. Esse tem uma banheira grande. — Tome um banho. Trarei roupas limpas para você. Minha esposa deve vestir o mesmo tamanho que você. Ele sai do banheiro e fecha a porta. — Obrigada, senhor e Senhor — sussurro. Não consigo não sorrir… Me olho no espelho do banheiro, já cheirosa e vestida com um lindo vestido de bolinhas rodado que parece ser dos anos 60. — Coube perfeitamente. — O senhor Rômulo toca nos meus ombros. — Vamos para o meu quarto antes que alguém te veja. Lá vou te dar algo para comer. Vi suas mãos tremendo. Isso é fraqueza. Sigo o senhor até quarto dele, no corredor do lado direito. Assim que abre a porta, vejo uma marmita em cima da sua cama, junto a uma colher de plástico. Olho fixamente para o senhor Rômulo e ele diz: — Senta lá e come. Sorrio e faço exatamente como ele diz. Me delicio com cada colherada de comida que coloco na minha boca. Parece até milagre a forma como a marmita é capaz de me reavivar em poucos segundos. Fecho os olhos saboreando a salada e digo: — Muito obrigada, senhor Rômulo! Ele suspira e se senta ao meu lado. Não parece contente. — Por que se casou com meu filho? Ele não vale nada, Ana. Você não era policial? Não tinha uma carreira promissora pela frente? Como acabou numa situação deplorável como essa? — Sei que me ajudou e estou muito agradecida, mas não consigo me abrir para o senhor. Ele apenas assente e beija o topo da minha cabeça. Por primeira impressão, seu Rômulo parece ser um homem bravo e ignorante, mas é um amor de pessoa… Olho-me no espelho do quarto do seu Rômulo. Faz muito tempo que ele saiu e me pediu para continuar no quarto. Olho em volta, vendo a decoração frufru que provavelmente foi feita por sua esposa. O quarto é completamente rosa e mistura decorações vintages com a modernidade. Eu gosto. Pego o controle em cima da cama e ligo a televisão. Coloco no jornal e me sento na cama. Bocejo, sentindo meu corpo implorar para deitar nessa cama macia, mas a vontade vai completamente embora quando vejo o capitão Campos na televisão. Sorrio, admirada com a forma como ele conta como conseguiram prender um assassino em série que havia fugido da prisão há 3 dias. — Jesus, como pode ter feito um homem tão…? — Dou um suspiro. — Além de ótimo capitão, é lindo! — Ele é só mais um bandido que se finge de mocinho. — Jedidias entra no quarto e um cheiro de álcool invade o cômodo. — Para você, todos os policiais são bandidos? O capitão Campos é um homem com defeitos, mas não é um bandido. Conheço sua índole. — Você não é cristã? Na bíblia não diz que t**o é o homem que confia no homem? — Ele vem até mim e se abaixa em minha frente. — Vim aqui dizer que você pode ficar no meu quarto até minhas esposas arrumarem a bagunça que fizeram na sua cama, mas estou pensando seriamente em te deixar dormir no meio daquela imundície. — Maldito é o homem que se apoia na força humana e se afasta do Senhor, é mais ou menos isso que diz o restante do versículo. Não estou deixando Deus de lado e depositando toda a minha confiança num ser humano, apenas digo que ele é bom segundo o que eu sei. Mas tudo bem se você pensa isso do capitão Campos sem ao menos conhecê-lo. Ele se levanta e evito olhá-lo, mas ele ergue meu queixo e me observa sem dizer nada. Seus olhos se tornam obscuros e ele diz: — Tão submissa, mas tão afrontosa. Isso faz sentido? — Posso ou não ficar no seu quarto? — pergunto, receosa. Ele dá uma resposta positiva, balançando de leve a cabeça. Jedidias se vira e começa a andar. Ando atrás dele, subindo um monte de escadas até o penúltimo andar, onde há uma única porta. Ele a abre e vejo um quarto preto, iluminado por luzes de LED na cor verde postas nos cantos das paredes e embaixo da cama. — Seu quarto é enorme. — Olho para uma cartela de camisinhas em cima da mesinha de cabeceira e engulo em seco. — Se quiser ficar longe de confusão, não saia do quarto. Ali do lado é o banheiro. Vou mandar alguém trazer sua mala. — Obrigada. Ele fica parado, me observa e isso me agonia. Camisinhas na mesa, iluminação parecida com de boate, homem bêbado… Não aguento o silêncio e pergunto: — Quer t*****r comigo? — De forma alguma. Nunca mais toco em você. Controlo minha vontade de sorrir e enceno uma expressão de decepção. — Tudo bem, então. Já que eu não tenho nada para fazer, posso me deitar e dormir? — Faça o que quiser… Jedidias foi embora e eu me deitei na cama, mas não consegui dormir de forma alguma. Como em seu quarto não há televisão e meu celular não está comigo, resolvi brincar com "balão". Fui em seu banheiro, enchi uma c*******a com água e a outra com ar. Apertei os dois como se fossem bolinhas contra estresse e depois fiz malabarismo. Quando o Jedidias entrou no quarto, eu estava com a c*******a na minha boca. Como eu poderia me explicar? Apenas fingi que não estava fazendo nada demais e ele também fingiu. Deitou-se na cama e dormiu. — Jedidias — sussurro seu nome, enquanto encaro seu rosto deitado tão próximo do meu. — Jedidias! — Vai dormir — diz entredentes. Sei que eu não deveria irritá-lo, mas acho que não conseguirei dormir antes de fazer uma ou duas perguntas. — Você tem filhos com todas as suas outras esposas? — Ainda não. "Ainda"… — Pretende ter filhos comigo? — Talvez eu te dê filhos. Não sei. Vai dormir. Levanto-me devagar da cama, ajoelho-me no chão com as mãos juntas para orar e digo em um tom extremamente baixo: — Meu Pai, por favor, perdoe os meus pecados e incline Seu ouvido para ouvir a oração da Tua serva. Perdão pela forma como irei falar, mas prefiro dar um beijo no bumbum murcho do Silvio Santos a ter um filho do Jedidias. Socorre-me, Senhor, por favor. Eu oro e o agradeço em nome de Jesus, amém! Volto para a cama e fecho os olhos, mas não consigo dormir. Recito o Salmo 4 e depois o 91, só então o sono vem… Acordo ao ouvir um barulho, mas não abro os olhos. Sinto a mão do Jedidias em minha cintura e o ouço suspirar. Ele me sacode e me chama, mas finjo que ainda estou dormindo. Pois se ele estiver me chamando para sair daqui, não quero, não quero lidar com suas esposas. Porque uma hora posso acabar as matando sem querer. — Eu sei que você tá fingindo. Precisa levantar. Hoje você vai se demitir. — Você não seria capaz — sussurro e sinto meu coração palpitar. Cada batida rápida e forte me causa mais vontade de chorar. Sento-me na cama e digo: — Sabe o quanto… — Minha voz falha e abaixo a cabeça. Jedidias levanta o meu rosto, me olhando com a frieza de sempre, e pergunta: — Prefere que inventar uma história? Quer que eu peça sua mãe para ir à delegacia informar seu desaparecimento? Por mim, tudo bem. Ninguém vai te encontrar aqui. — Jedidias… — Começo a chorar. — Eu amo o meu trabalho, você sabe. — Me ajoelho na cama. — Por favor… Você me conhece, precisa me entender. Ele anda até à porta, a abre e aponta para fora. Com um olhar mortal e uma voz autoritária, ele diz: — Agora, Ana! Não vou falar de novo. Engulo o choro, levanto-me da cama e vou devagar até ele. Seu olhar nem treme, sabendo que está prestes a acabar com um dos meus maiores desejos. — Não tem um pingo de compaixão por mim? Ele fala como se fosse óbvio: — Tenho. — Então se tem… — digo com a voz trêmula, fazendo um grande esforço para não chorar mais. Me ajoelho aos seus pés e junto minhas mãos. — Por favor, por favor, não faça eu me demitir. — Levanta! — Não! Só vou me levantar quando você disser que não preciso mais ir. Ele segura meu braço e tenta me levantar, mas não dou brecha para que ele consiga e, enquanto lutamos, berro tudo que estava intalado na minha garganta: — Onde você enfiou todo o amor que sentia por mim? Como pode pedir para eu desistir de proteger as pessoas? Como pode um dia ter dito que me amava? O que eu te fiz para me odiar tanto, Jedidias? Pelo o que você me pune? Me deito no chão, chorando e cansada de lutar. Ele me levanta apenas com uma mão e me coloca contra a parede. Com a voz baixa, mas cheia de autoridade, e com o rosto quase encostado ao meu; ele diz: — Pode chorar, pode espernear, berrar, mas minha decisão não muda: você vai se demitir, Ana. — Solta a sua esposa, Jedidias! — Senhor Rômulo aparece no quarto, segurando um cinto. — Já que está agindo como um moleque, vou ter que voltar a te tratar como um.
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