Estou cercada por serpentes e elas me atacam sem dó

1399 Palavras
"Ouve-me, ó Deus, quando faço a minha queixa; protege a minha vida do inimigo ameaçador. Defende-me da conspiração dos ímpios e da ruidosa multidão de malfeitores. Eles afiam a língua como espada e apontam como flechas, palavras envenenadas. De onde estão emboscados atiram no homem íntegro; atiram de surpresa, sem qualquer temor." Salmos 64: 1-4 Jedidias respira fundo e me solta. Seu pai se coloca em minha frente e, com um tremendo desgosto, pergunta: — Onde aprendeu a tratar uma mulher dessa forma? Comigo não foi! Nunca te vi agir assim com as outras. Por que trata a Ana tão m*l? Aceitou se casar com ela para torturá-la? — Não… — Jedidias tenta controlar sua raiva e evita olhar para o pai. — Não o quê? — Ele segura firme o cinto. — Não, senhor. Senhor Rômulo dá um passo a frente e o seu filho um passo para trás, como se tivesse medo. Seu pai aponta o dedo na cara dele e diz: — Você aja como homem, então! Do contrário, tenho certeza que outro agirá. — Ele olha para mim e exclama: — Você não é propriedade do Jedidias, Ana! Se ele for r**m, não tenha medo de pedir o divórcio e arrumar um homem melhor. Entendeu? Estamos todos resolvidos? — Sim, senhor. Não é, Ana? — Jedidias olha para mim e o seu Rômulo também. Se eu disser que sim, o pai dele irá embora e terei que ir à delegacia me demitir. Se eu contar o que Jedidias quer fazer, talvez ele convença o filho a não me obrigar a fazer isso. Mas eles podem brigar f**o. Devo arriscar? — Se a Ana está calada, algum problema ainda tem. — Seu Rômulo olha para o filho. — Quer me explicar o que estava acontecendo aqui? — A Ana… — Jedidias coloca as mãos nos bolsos das calças e suspira. — Ana é uma policial e eu sou um traficante. Ela precisa se demitir antes que isso cause problemas para mim e para ela. — Ninguém sabe que casei, senhor Rômulo. Só meus pais e meu irmão. Eu sou muito discreta na delegacia, ninguém sabe sobre minha vida pessoal e nunca vão saber. — Por isso estava gritando tanto? — Ele me olha com pesar. — Sempre foi obcecada pela polícia. Achei que tivesse fetiche por policiais, mas é amor pela profissão mesmo, não é? Arregalo os olhos com sua confissão e afirmo que sim, é puro amor pela profissão. Ele sorri e chama Jedidias para conversarem no banheiro. Continuo parada, pedindo a Deus que tudo dê certo. Seu Rômulo abre a porta do banheiro, sorri, se despede de mim e vai embora. — Ana! — Jedidias me chama de dentro do banheiro. Vou até lá e o vejo de costas para mim. Ele está com as mãos apoiadas na pia e olha para o seu reflexo no espelho. — Só até o fim do ano. Te dou 6 meses para continuar a trabalhar naquele lugar. Depois você vai ter que arranjar outro sonho, porque esse eu não deixo mais você ter. Gaguejo e não consigo dizer nada. Não sei se fico feliz ou triste. Jedidias tira sua blusa e vejo uma enorme cobra amarela em suas costas. Ele se vira e seus músculos me surpreendem. Quando adolescente, ele era um menino tão magro, tão desnutrido, uma tripa seca. — Por que esse sorriso? — Eu? — Pisco várias vezes, deixando meus devaneios. — Nada. É só que você virou um homem. — Pois é. Não somos mais crianças. Eu sou um homem e você uma mulher. — Ele fica parado, me observando, e eu também. A saudade bate em meu peito e tenho vontade de abraçá-lo, mas ele não é mais o Jedidias que conheci. Tenho saudade daquele garoto magricelo e nerd. — Eu te odeio — ele simplesmente solta essas palavras, não com ódio, mas como um triste desabafo. — Odeio você! — Ele dá vários passos para frente e eu para trás, quando estou fora do banheiro, ele fecha a porta com força e ouço o som da água do chuveiro em seguida. Vou para cama e me deito abraçada às minhas pernas. Suas últimas palavras se repetem várias vezes em minha mente. A tortura que eu mesmo me causo me faz chorar. — Mas o que eu fiz? — Me pergunto antes de adormecer… Eu estava deitada e o Jedidias acariciava meu rosto. Ele sussurrava palavras doces como: "Eu te amo", ”sinto paz ao seu lado" e "senti sua falta". Então acordei e percebi que tudo não passava de um sonho muito distante da realidade, mas que eu adoraria que se tornasse real. Saio do banheiro enrolada na toalha e ouço batidas na porta. Por receio de ser uma das mulheres do Jedidias, não abro, mas pergunto: — Quem é? — Rafael. — Rafael? — Estreito os olhos. É a voz de uma criança. Talvez seja aquele garoto que me deu comida. Sorrio e atendo ao garoto. É ele mesmo. É o garotinho que me ajudou. Me abaixo em sua frente e digo: — Você que contou para o senhor Rômulo que eu estava naquele lugar, não é? — Foi. — Ele me entrega uma sacola com bolo e pão com mortadela. — Todo mundo da casa ouviu seus gritos. O pai te machucou? — Obrigada pela comida. Faz tempo que eu não me alimento. E não, o seu pai não me bateu. Ele não fez nada comigo. Só estávamos discutindo e eu acabei ficando nervosa. Seu pai não fez nada de errado, tá bom? Ele sorri, confirmando, entra no quarto e olha ao redor. Acho que nunca veio aqui, pois mexe em tudo. Enquanto o observo para que não quebre nada, dou uma mordida no pão que me causa ainda mais fome e num segundo termino de comer tudo o que ele trouxe para mim. — Sua mãe não irá ficar brava por ter vindo me ver? — pergunto ao colocar a sacola na lixeira ao lado da porta. — Não. — Ele pega uma c*******a em cima da mesinha da cabeceira. — Eu gosto de encher para brincar, posso? — Na verdade, não sou eu que tenho que permitir e sim o seu pai. Precisa perguntar quando ele estiver aqui. Ele balança a cabeça, concordando, e corre para me dar um abraço. — A vovó pediu para te abraçar e disse que é para você não sair do quarto. Você não precisa se preocupar, porque eu vou sempre trazer comida. — A dona Rosário pediu isso? Ela te disse por que não posso sair? Ele n**a. Mesmo assim, sorrio e digo que farei isso. Até me sinto mais aliviada, não precisarei lidar com aquelas mulheres. Ficar perto delas é perigoso, mas não para mim. Me causam tanta raiva que posso acabar machucando alguma delas de novo. — Posso ficar aqui um pouco? — Ele tira os chinelos e se deita na cama. — Pode. — Deito ao seu lado. — O que quer fazer? — Conta uma história. — Certo. — Me aconchego melhor ao seu lado e ele deita sua cabeça em meu colo. Seu jeitinho me faz sorrir mais. Acho que se acostuma muito fácil com as pessoas. Contei a ele uma história inventada por mim, não sei se estava tão boa ou tão r**m que ele adormeceu no meio dela. A vontade de dormir também me pegou em cheio, bocejei e bocejei até que também adormeci. Abro os olhos ao sentir uma tremenda dor nas costas e me vejo no chão. Solange agarra meus cabelos e me arrasta para o banheiro, onde afunda minha cabeça na água do vaso e, enquanto luto por ar, diz: — Tenho um recado do Cobra para você, não chega perto do Rafael, entendeu? Esse moleque, minha filha, ele trata como se fosse ouro. Então é melhor pensar duas vezes antes de agir como se fosse mãe do garoto. — Ela tira minha cabeça do vaso e respiro fundo, com desespero. — Conta o que aconteceu aqui e eu arrebento aquele garoto na chinelada, ouviu? — Ouvi. — Olho para o chão, ainda em choque pelo que houve. Meu corpo fraqueja pelo susto e sinto como se meus ossos formigassem. Solange vai embora e, pelo nojo de ter a cabeça enfiada na privada, vomito tudo o que há no meu estômago.
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