O dinheiro matou a Ana

1632 Palavras
"Pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos." 1 Timóteo 6:10 De dia, na rua e fardada com o uniforme bege da polícia militar, estanco o sangue de um homem que foi esfaqueado na perna por seu amigo. Enquanto isso, o sargento Bartolomeo algema o "amigo" da vítima e o coloca na viatura. — Eu quero meu dinheiro! — O homem algemado grita pela última vez, com a voz arrastada. — A ambulância logo chega, tudo bem? — digo ao ferido. Ele continua deitado, imóvel, mas seus olhos demonstram aflição. — Não atingiu nenhuma artéria, você irá ficar bem. — Fala para ele, por favor, que eu vou dar o dinheiro amanhã? Ele não quis me ouvir. — Qual seu nome? — Amarildo. — Cê atrasou um pouco e ele te esfaqueou, é isso? — Eu ia pagar os 50 reais ontem, mas surgiu um imprevisto, moça. Ele nem deixou eu explicar, chegou metendo a faca em mim. — Ele começa a chorar. — Por que isso aconteceu comigo? Ele nem precisava desse dinheiro, é fazendeiro. Eu não entendo. Ele sabe que eu não sou caloteiro. Minha filha tá com a vizinha, gostava demais do Arnaldo. Como que eu explico que o tio Naldo tentou me m***r? Inspiro fundo e ouço o som da ambulância chegando. Queria reconfortá-lo, como tento fazer geralmente, mas não sei o que dizer. Tanta coisa acontecendo na minha vida, não posso me ajudar, como vou ajudar aos outros? A ambulância chega, deixo a vítima com eles e me aproximo do sargento. — Senhor, já viu alguém tentar m***r o amigo por causa de 50 reais? — Pai matando filho, filho matando mãe… — Ele coloca as mãos na cintura. — Vi muita coisa em 25 anos de profissão, nada mais me surpreende, Ana. Dinheiro, dinheiro e dinheiro… Tudo gira em torno dele, mas ele vale mais que uma vida? Para mim, não. Para os outros, eu já não sei… Abro a porta da casa do Jedidias após um dia cansativo. O turno estava prestes a acabar quando tivemos que apartar uma briga de torcedores fanáticos. Levei um chute na costela, não foi nada grave, estou bem, mas preciso de um bom banho e um sono profundo. Jedidias está na sala e entrega um maço de notas para a Solange. — Isso vai dar para compra da semana. — Ele olha para mim, para minha roupa. — Que bom que tá sem a farda. Achei que andaria pelo morro de uniforme para todo mundo saber. — Não sou mais aquela garota lerda da escola. — Sento no sofá e dou um longo suspiro. Tiro a mochila preta do ombro e olho para o chão. É tão desconfortável estar aqui, tento a todo custo me acostumar com a presença deles, mas está sendo torturante. — Ainda acho que continua a mesma garota burra e s*******o. Vai para o quarto, Ana. Não quero que fique mostrando sua cara f**a por aí. Solange dá uma gargalhada. Finjo que estou triste e vou rápido para o quarto, onde posso me isolar de todos, ou quase todos (já que o Jedidias dorme ao meu lado). Abro a porta do quarto e me deparo com a dona Rosário sentada na cama. — Senhora, o que faz aqui? — Fecho a porta. — Tenho deixado suas refeições na porta do quarto. — Achei que fosse o Rafael. — Ele me disse que a Solange o proibiu de se aproximar de você. Então eu que venho tratando para que você fique bem alimentada, já que meu filho não liga para isso. Ela se levanta, vem até mim e passa a mão na minha bochecha. Seus olhos se enchem de lágrimas e ela me aperta em seus braços, como se não me visse há anos (o que não faz sentido, já que ela sempre foi presente em minha vida, toda semana estava na casa que eu morava com meus pais). — Deixei seu jantar em cima da mesa. Coma, tome um banho e depois desça, porque seu irmão me avisou que logo estará aqui. Forço um sorriso. Eu não quero ver meu irmão… Entro na sala e vejo a senhora Rosário conversando com o Beto animadamente. Entretanto, ao olhar para o lado, vejo um ser obscuro com uma carranca horrenda. Jedidias está nervoso porque meu irmão veio me visitar? — Ninha… — Meu irmão me olha com pesar e se levanta. Seu hábito de mostrar com toda a sinceridade do mundo suas emoções deixa claro a todos que meu matrimônio para ele é como estar de luto. Ainda bem que ele não veio de preto. Dou um sorriso singelo e o abraço. Ele acaricia minha cabeça e a beija. Discretamente, me entrega um papel que eu coloco por dentro da minha calça. — Eu não… — Ele começa a chorar e corre para fora da casa. Tento correr atrás dele, mas Jedidias segura meu braço. — Qual seu problema? — Puxo meu braço, mas ele não o solta. — Deixa ele ir embora. Não vê que olhar para você o deixa m*l? — Sabe muito bem que é esse casamento que o deixa assim, não eu. Não tente me manipular ou me fazer sentir culpa!… Não vou ir, tá bom? Ele me solta e vou praticamente marchando para o seu quarto. Entro no banheiro e pego o papel do Beto. "Ninha, eu vou dar muito dinheiro para o Cobra. Assim ele vai te devolver para nós. Não se preocupa, eu sei o que tô fazendo." Meu queixo cai ao chão e saio correndo, desesperada para impedir meu irmão de cometer uma burrada. Chego na sala e me ajoelho na frente do Jedidias. Junto minhas mãos, suplicando que ele deixe eu ir atrás do meu irmão. — Só sai de casa para trabalhar. Fim de papo. — Ele tenta ir embora, mas agarro seu pé. Ele acaba por me arrastar pela sala enquanto resmunga e me pede para soltá-lo. — Jedidias, ele vai tentar arrumar dinheiro para te dar em troca de mim. Eu preciso impedir, preciso falar com ele. — Liga para ele. — Ele tá sem celular, vendeu para comprar drogas. Por favor, me ajuda! Dona Rosário entra na sala e arregala os olhos ao ver minha situação. Ela se prontifica a arrancar minhas mãos do filho dela e diz: — Ana, o que é isso? — Bebeto quer tentar me comprar do Jedidias. Faz alguma coisa, por favor! Ela fixa seu olhar de gatinho abandonado em seu filho e, aos poucos, o coração dele vai amolecendo. — Tá, tá bom! — Bufa. — Sabe onde ele pode ter ido? — Com certeza!… Dei o endereço para o Jedidias e agora estamos no seu carro. Ele dirige tranquilamente enquanto estou roendo as unhas. — Pode ir mais rápido? — Não. Fica quieta, não quero ouvir sua voz. Mordo o lábio, pego meu celular na calça e mando a seguinte mensagem para ele: "Por favor, deixa eu colocar um louvor para me acalmar." Ele olha para o celular, que está no suporte, vê a mensagem e olha para mim com cara de poucos amigos. — Chegamos — diz e estaciona. Saio do carro apressada e corro para a porta do agiota. Bato várias vezes. Volto a roer minhas unhas enquanto espero e o Jedidias diz: — Para uma policial, você é muito ansiosa e descuidada. — Me dá um desconto. Eu não tô em serviço e estou lidando com uma situação familiar. Quem abre a porta é um gigante de terno que não esconde a arma em sua cintura. Sinto meu corpo fraquejar só de imaginar meu irmão sendo morto por um homem desse e cambaleio, mas Jedidias me segura e diz: — Conhece o Roberto? — Quem quer saber? — Conhece ou não? Deu dinheiro a ele? O homem olha para mim e sorri de lado. Jedidias se coloca em minha frente e aponta sua arma para ele. — Para que isso? — Ele dá um risinho. — Sim, eu dei dinheiro para o Roberto agora a pouco. Muito dinheiro, por sinal. E só porque ele é amigo de um conhecido meu. Ótimo, agora o Roberto não terá como pagar a dívida e esse homem irá… Me abano, quase desmaiando e pergunto: — Sabe para onde ele foi? — Disse que ia resolver o problema. Jedidias dispara a arma várias vezes contra o peito do homem e dou vários passos para trás. Ele me olha e diz: — Considere um favor. Agora seu irmão está a salvo. Favor? Ele acha mesmo que fez um favor? Eu virei cúmplice de assassinato. Como pode ter me feito um favor? Agora acabou minha chance de pegar o dinheiro de volta e devolver ao dono… No carro dele, indo para casa, enxugo meu rosto após chorar muito. Jedidias para o carro e diz: — Olha ali… — Ele aponta para um puteiro e começa a rir. — Parece que a vontade de comer… — Não! — o interrompo e balanço a cabeça para os lados. — Ele não fez isso. — Sim, Ana. Ele fez. Seu irmão pegou o dinheiro para te salvar, mas pensou melhor e agora vai gastar tudo com p********a cara. Não… Se pelo menos fosse para d***a, eu não ficaria surpresa. Mas para ficar com mulheres? Ele não precisa disso, é um homem tão bonito, muitas gostam dele. — De qualquer jeito, eu não ia vender você. — Ele toca no meu queixo. — Estamos presos um ao outro, não é? Somos uma só carne. Uma só carne? Presos? Não, ele está enganado! Abro a porta do carro e corro, corro o mais rápido que posso.
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