Rebeca
Mantive o celular junto ao corpo, com a tela virada para dentro, e fiquei parada perto da parede como se estivesse apenas esperando Marcelo voltar.
O gravador continuava rodando.
Do outro lado da porta entreaberta, as vozes diminuíram ainda mais.
— A orientação era simples — disse o homem que eu ainda não conseguia ver. — A família recebia a comunicação, o restante seguia pelo fluxo e acabou. Ninguém precisava colocar etiqueta nenhuma nos pertences.
— E eu já falei que não fui eu — respondeu uma mulher. — Alguém colocou aquilo no saco errado.
Meu coração bateu tão forte que tive medo de o som chegar até eles.
Fluxo.
Etiqueta.
Família.
Não era mais uma conversa genérica de hospital.
Era sobre Isa.
Aproximei-me um pouco, fingindo olhar uma mensagem.
— O problema agora não é a etiqueta — o homem continuou. — É a irmã. Ela viu a garota consciente, está perguntando horário, pediu prontuário e já percebeu a divergência do sistema.
A mulher soltou o ar.
— Então o Marcelo que resolva. Foi ele que deixou a família entrar antes da hora.
Antes da hora.
Minha mão ficou fria em volta do celular.
Antes de quê?
Eu tinha entrado no quarto porque minha irmã estava estável.
Porque me disseram que eu podia vê-la.
Porque ela estava viva.
— Não interessa de quem foi a decisão — respondeu ele. — O que interessa é que agora ela sabe que a menina saiu daqui viva.
Meu corpo inteiro parou.
Não pensei.
Não respirei.
Só ouvi.
A mulher respondeu alguma coisa muito baixa. Dei mais um passo, tentando aproximar o microfone sem chamar atenção.
— Fala baixo — ela repreendeu. — Você ficou maluco?
— Eu estou falando baixo.
— E está falando demais. O combinado era não usar esse tipo de palavra aqui dentro.
— Então faz o quê? Finge que não aconteceu?
— Eu faço o meu trabalho e espero que você faça o seu.
Houve um ruído, como gaveta fechando.
Depois a voz masculina voltou, irritada.
— O carro já saiu. Não tem mais o que fazer com essa.
Meu estômago virou.
O carro já saiu.
Olhei para a porta.
Por um segundo, quase entrei.
Quase abri aquilo e perguntei para onde tinham levado minha irmã.
Foi a parte racional de mim, aquela que sobrevivia de documentos, provas e gente mentindo em reunião, que me impediu.
Se eles soubessem que eu estava ouvindo, a conversa terminaria.
E talvez desaparecesse junto com o resto.
— E a outra? — perguntou a mulher.
— Qual?
— A menina do morro.
Silêncio.
A expressão entrou na minha cabeça como uma coisa física.
A menina do morro.
— Continua sendo observada — ele respondeu. — Só não mexe nisso agora. Depois desse problema aqui, ninguém quer chamar atenção.
— Ela ainda está com o pai?
— Pelo que passaram, sim.
— Então esquece. Aquele homem não vai entregar a filha de bandeja.
O homem riu sem humor.
— Ninguém precisa entregar ninguém.
Senti um arrepio percorrer meus braços.
A mulher respondeu:
— Mesmo assim, se forem insistir naquela menina, avisa antes. Não vou ficar apagando incêndio toda vez que alguém resolve acelerar serviço.
Passos.
Vinham em direção à porta.
Recuei imediatamente.
Guardei o celular na bolsa sem interromper a gravação e atravessei o corredor até uma máquina de água. Peguei um copo e comecei a encher, embora minha mão tremesse tanto que metade caiu no chão.
A porta abriu.
Não olhei.
Ouvi duas pessoas saírem em direções diferentes.
Esperei alguns segundos antes de virar.
Vi apenas as costas de um homem de camisa escura entrando numa área restrita e uma mulher de uniforme hospitalar desaparecendo no corredor oposto.
Nenhum rosto.
Nenhum nome.
Mas eu tinha as vozes.
E tinha uma frase que destruía tudo que haviam me contado naquela noite.
Ela saiu daqui viva.
⸻
Marcelo apareceu poucos minutos depois.
Eu ainda segurava o copo vazio.
Ele vinha acompanhado de um funcionário que eu não conhecia, um homem magro, de meia-idade, usando uniforme administrativo e carregando uma prancheta.
— Rebeca, conseguimos organizar um reconhecimento breve — Marcelo disse. — Mas preciso conversar com você e sua mãe antes.
Olhei para ele e tive vontade de perguntar se minha irmã estava mesmo atrás de alguma porta ou se ele pretendia me mostrar qualquer coisa que encerrasse minhas perguntas.
Não perguntei.
Ainda não.
— Minha mãe vai entrar comigo.
— Sim. Porém, a recomendação continua sendo de visualização limitada. O corpo já foi preparado e existem alterações decorrentes dos procedimentos de emergência.
— Eu quero ver o rosto.
Marcelo respirou devagar.
— Será possível uma identificação parcial, mas não recomendamos manipulação nem contato prolongado.
— Identificação parcial não existe. Ou eu reconheço minha irmã ou não reconheço.
O homem da prancheta mexeu o peso de um pé para o outro.
Marcelo abaixou o tom.
— Rebeca, eu sei que você está procurando coerência em tudo que aconteceu. Isso é natural quando uma morte é súbita.
— Não tenta transformar minhas perguntas em fase do luto.
Ele me encarou.
— Não foi minha intenção.
— Então responde sem analisar meu psicológico. Eu quero ver o rosto inteiro da minha irmã.
— Vou permitir o máximo que as condições técnicas possibilitarem.
A escolha das palavras me irritou.
Mas naquele momento eu precisava mais de informação do que de confronto.
— Certo. Vou buscar minha mãe.
Quando virei, desliguei o gravador dentro da bolsa.
A gravação tinha pouco mais de quatro minutos.
Quatro minutos que podiam mudar tudo.
⸻
Minha mãe levantou assim que me viu.
— Vão deixar?
— Vão.
Segurei o braço dela.
— Mãe, antes de entrar, eu preciso que você tente observar tudo. Não só… não só se parece com a Isa.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
Eu queria contar.
Queria dizer que tinha acabado de ouvir alguém afirmar que Isa saíra viva dali.
Mas estávamos no corredor daquele hospital.
Não sabia quem podia ouvir.
Não sabia em quem confiar.
— Depois eu te explico. Só olha com atenção.
Minha mãe ficou me encarando.
— Rebeca, você está me assustando mais do que já estou.
Apertei a mão dela.
— Eu também estou assustada.
Bia se aproximou.
— Eu vou com vocês?
Marcelo respondeu antes de mim.
— O reconhecimento será restrito aos familiares.
Bia assentiu e abraçou minha mãe.
— Eu fico esperando aqui. Dona Márcia, vai devagar. Se ficar demais, sai. Ninguém precisa provar força pra ninguém.
Minha mãe passou a mão no rosto dela.
— Obrigada por ter ficado com minha menina.
A frase quase me quebrou.
Seguimos pelo corredor.
O homem da prancheta destrancou uma porta.
Depois outra.
O ambiente ficou mais frio.
Mais silencioso.
Eu sentia cada batida do meu coração enquanto avançávamos.
Até que Marcelo parou diante de uma sala.
— Quero reforçar que houve edema facial e alterações de coloração.
Minha mãe apertou minha mão.
— Abre.
Entramos.
Havia uma maca no centro.
Um lençol branco cobria o corpo até quase o pescoço.
O rosto também estava parcialmente coberto por uma faixa de tecido, deixando visíveis apenas parte da testa, olhos fechados, nariz e região superior das bochechas.
Minha mãe fez um som que eu nunca tinha ouvido antes.
Deu um passo.
Eu segurei.
Meu cérebro tentou reconhecer minha irmã.
O cabelo estava parcialmente escondido.
A pele tinha uma coloração diferente.
Havia edema.
Mas alguma coisa me incomodava.
Cheguei mais perto.
— Abaixa mais o tecido.
Marcelo ficou atrás de mim.
— Rebeca…
— Eu pedi pra ver o rosto.
O funcionário olhou para ele.
Marcelo fez um pequeno gesto.
O homem desceu alguns centímetros.
Vi a boca.
O queixo.
Minha mãe começou a chorar.
— Minha filha…
Eu não consegui acompanhar.
Olhei para o lado esquerdo do rosto.
Depois para o direito.
Procurei a pequena pinta que Isa tinha perto da mandíbula, quase abaixo da orelha. Não vi.
Podia estar coberta.
Podia estar escondida pelo inchaço.
Procurei também a cicatriz mínima na sobrancelha, lembrança de quando caiu de bicicleta aos nove anos.
Eu sabia onde ficava.
Não consegui identificar.
— Quero ver a orelha esquerda.
Marcelo respondeu:
— Rebeca, isso já está ultrapassando o que foi autorizado.
Virei para ele.
— Minha irmã tem uma cicatriz atrás da orelha desde criança. Se vocês querem que eu reconheça um corpo alterado, então me deixam reconhecer pelas coisas que eu conheço.
Minha mãe parou de chorar por um instante.
— Ela tem mesmo.
O silêncio na sala mudou.
Marcelo olhou para o funcionário.
— Afasta o cabelo.
O homem hesitou antes de obedecer.
Eu me aproximei.
A região atrás da orelha estava parcialmente coberta por gaze.
— Tira.
— Não podemos remover curativos — Marcelo respondeu.
— Por quê?
— Porque fazem parte da preparação e preservação do corpo.
Eu ri.
Baixo.
Sem alegria nenhuma.
— Claro.
Minha mãe me olhou.
— Rebeca…
Eu segurei a mão dela.
— Vamos sair.
— Mas…
— Vamos.
Ela chorava demais para discutir.
Saímos da sala.
Só quando a porta se fechou atrás de nós percebi que estava prendendo a respiração.
Marcelo veio logo depois.
— Eu sei que foi difícil.
Virei para ele.
— Quando o corpo será liberado?
— Assim que concluirmos os procedimentos necessários.
— E a urna?
— A funerária orientará vocês.
— Vai poder ser aberta?
A expressão dele ficou cautelosa.
— Pelas condições do corpo, a recomendação é de urna fechada.
Ali estava.
Mais uma peça.
Minha mãe voltou a chorar.
Eu não.
Eu já tinha ultrapassado o ponto do choro.
Peguei o celular.
— Quero por escrito.
— O quê?
— A recomendação de urna fechada. Com justificativa médica e identificação de quem está determinando isso.
Marcelo me encarou por alguns segundos.
— Podemos providenciar.
Assenti.
— Providencia.
Saí com minha mãe pelo corredor.
Quando chegamos perto de Bia, abracei as duas e disse apenas que precisava ir ao banheiro.
Entrei no primeiro boxe, tranquei a porta e coloquei os fones.
Abri a gravação.
Escutei desde o início.
Depois outra vez.
Na segunda, parei exatamente no trecho que me fazia sentir o chão desaparecer.
“Agora ela sabe que a menina saiu daqui viva.”
Voltei alguns segundos.
Ouvi de novo.
Não havia dúvida.
Minha irmã não tinha morrido naquele hospital.
Ou, pelo menos, alguém ali acreditava que não.
E havia outra garota envolvida.
Uma garota que eu não conhecia.
Uma garota ligada a um homem que, segundo aquela voz, não entregaria a filha.
Salvei o áudio.
Enviei para meu e-mail.
Depois para uma pasta na nuvem.
E, antes de sair daquele banheiro, criei uma cópia com outro nome.
MENINA_DO_MORRO_01.
Porque se alguém naquele hospital estava apagando rastros, eu não pretendia deixar que apagassem o meu.