7. A PRIMEIRA PESSOA ERRADA

1579 Palavras
Rebeca Saí do banheiro com o celular preso na mão e a sensação de que qualquer rosto naquele corredor podia esconder alguma coisa. Minha mãe continuava sentada ao lado de Bia, abraçada à própria bolsa como se precisasse segurar alguma coisa para não desabar. Quando me viu, levantou os olhos. — Você demorou. — Eu precisava lavar o rosto. Mentira. A primeira que contei para ela naquela noite. Sentei ao lado das duas e guardei o telefone dentro da bolsa. — Mãe, eu quero que você vá pra casa com a Bia. Ela me encarou como se eu tivesse enlouquecido. — Minha filha morreu e você está mandando eu ir embora? — Eu não estou mandando você abandonar nada. Só quero que descanse um pouco. Eu fico aqui e resolvo essa parte da documentação. — Rebeca, eu não vou deixar você sozinha. — Eu não vou ficar sozinha. Tem gente em todo canto. Aquilo soou irônico até para mim. Bia percebeu. — Eu posso levar ela e voltar depois. Minha mãe apertou minha mão. — Você também precisa descansar. — Eu descanso quando isso acabar. Ela respirou fundo. — Isso não vai acabar hoje. Talvez fosse a primeira frase realmente lúcida que alguém tinha dito naquela noite. Marcelo reapareceu antes que conseguíssemos decidir qualquer coisa. Trazia uma folha impressa e uma expressão que parecia ainda mais fechada. — Rebeca, consegui a orientação formal sobre a urna. Peguei o papel. No topo, havia o nome de Isa. Mais abaixo, uma recomendação médica para não realização de velório com urna aberta, sob justificativa de alterações corporais decorrentes das intervenções e do quadro clínico pós-trauma. Li duas vezes. — Isso é uma recomendação ou uma determinação? — Na prática, considerando o estado do corpo, é o mais indicado. — Não foi o que eu perguntei. Ele sustentou meu olhar. — É uma recomendação médica. Dobrei o papel. — Então não é proibido. Marcelo demorou um pouco antes de responder. — Tecnicamente, não da forma como você está colocando. — Ótimo. Minha mãe me puxou pelo braço. — Rebeca, não faz isso comigo agora. Virei para ela. — Eu não estou querendo obrigar ninguém a ver nada. Só não quero que decidam por nós. Ela fechou os olhos. O choro voltou. Bia passou o braço pelos ombros dela. Foi ali que percebi que eu precisava parar. Não de investigar. De discutir na frente da minha mãe. — Eu vou resolver o restante — falei mais baixo. — Depois a gente conversa em casa. Marcelo começou a dizer alguma coisa, mas eu já estava andando em direção ao balcão. Precisava de protocolos. Papel. Nome. Horário. Qualquer coisa que não dependesse da memória de alguém. ⸻ O hospital me entregou um protocolo para solicitação de prontuário, outro para retirada posterior de documentos e uma orientação vaga sobre liberação funerária. Nada simples. Nada imediato. Nada que explicasse por que eu tinha ouvido dois funcionários dizerem que Isa saíra viva dali. Por volta de uma da manhã, minha mãe finalmente aceitou ir embora com Bia. Antes de sair, ela me abraçou. — Não fica criando coisa na sua cabeça porque você está desesperada. Doeu. Não porque ela estivesse errada em se preocupar. Porque eu sabia que, se contasse naquele momento o que tinha gravado, arrancaria dela qualquer possibilidade de dormir. — Eu só vou terminar a papelada. — Promete? Beijei a testa dela. — Prometo que não vou fazer nada irresponsável. Essa promessa eu pretendia cumprir. O problema é que, naquele momento, eu ainda não sabia quem estava sendo irresponsável. ⸻ Fiquei mais quarenta minutos no hospital. Depois saí. A chuva tinha parado, mas o asfalto ainda brilhava sob os postes. Entrei no carro e não liguei o motor. Coloquei os fones. Ouvi o áudio mais uma vez. Dessa vez, prestando atenção em ruído de fundo, entonação, pausas. Nada que identificasse claramente quem falava. Mas o conteúdo era suficiente para me fazer tomar uma decisão. Eu precisava entregar aquilo à polícia. Não ao hospital. Não a alguém da administração. À polícia. Abri o mapa. A delegacia mais próxima ficava a poucos minutos dali. Fiquei olhando o endereço. Uma parte de mim queria voltar para casa, deitar ao lado da minha mãe e fingir por algumas horas que eu ainda era apenas uma irmã em luto. Outra parte já tinha atravessado esse ponto. Liguei o carro. ⸻ A delegacia tinha luz fluorescente, cadeiras de plástico e aquela mistura de cansaço com urgência que existe em lugar onde ninguém aparece por um motivo bom. Havia um homem discutindo sobre celular roubado, uma mulher chorando perto da parede e dois policiais conversando atrás de uma divisória. Esperei quase meia hora. Quando finalmente me chamaram, um agente ouviu o começo da história com uma expressão que foi mudando de rotina para atenção. — A senhora está dizendo que ouviu funcionários do hospital afirmando que sua irmã saiu viva? — Estou dizendo que eu gravei. Ele parou. — A senhora gravou a conversa? — Gravei porque eles estavam falando de mim e da minha irmã. — Tem o áudio no celular? — Tenho cópia em mais de um lugar. Ele olhou para mim. Talvez esperasse encontrar uma mulher descontrolada. Encontrou uma assistente social cansada demais para chorar. — Aguarda um pouco. Levantou e desapareceu por uma porta. Demorou menos de cinco minutos. Quando voltou, veio acompanhado de um homem alto, perto dos cinquenta, camisa social azul-escura e paletó jogado sobre um dos braços. O cabelo grisalho nas laterais dava a ele um ar mais velho do que provavelmente era, mas o rosto não tinha nada de cansado. Pelo contrário. Era atento. Muito atento. — Rebeca Duarte? Levantei. — Sou eu. Ele estendeu a mão. — César Braga. Sou delegado aqui. O agente me passou uma parte do que você contou. Acho melhor conversarmos numa sala reservada. Apertei a mão dele. — Desde que reservada não signifique sem registro. César me olhou por um segundo e abriu um sorriso discreto. — Você trabalha com isso? — Assistência social. — Imaginei. Entramos numa sala pequena. Ele fechou a porta, sentou do outro lado da mesa e abriu um bloco. — Começa do início. Sem pular nada porque parece irrelevante. Gostei da forma como falou. Sem “calma”. Sem “você está em choque”. Sem olhar de pena. Comecei pelo acidente. Contei que Bia viu Isa consciente. Que eu mesma entrei no quarto e falei com ela. Contei sobre Marcelo. Sobre a piora repentina. Sobre os horários diferentes. Sobre a etiqueta de transferência. Sobre a restrição para ver o corpo. Sobre a recomendação de urna fechada. César anotava sem me interromper. Quando terminei, coloquei o celular sobre a mesa. — E depois eu ouvi isso. Entreguei um fone. Ele ouviu uma vez. Depois pediu para ouvir de novo. Na segunda, parou exatamente no trecho que eu conhecia de cor. — “Agora ela sabe que a menina saiu daqui viva.” Tirou o fone. — Você reconhece alguma das vozes? — Não. — Viu alguém saindo da sala? — Só as costas de um homem e uma mulher de uniforme hospitalar. — Consegue descrever? Fiz o melhor que pude. Ele anotou. — E essa “menina do morro”? — Não faço ideia de quem seja. — Nenhum nome? — Nada. Só falaram que ela continua sendo observada e que está com o pai. César encostou na cadeira. — Certo. Fiquei esperando. Ele apoiou os braços na mesa. — Rebeca, o que você trouxe é sério. Muito sério. Mas precisamos separar aquilo que é suspeita do que é evidência verificável. — Eu sei. — O áudio ajuda. Os documentos também podem ajudar. Agora o ideal é preservar isso formalmente. Meu corpo relaxou um pouco. A primeira sensação de que alguém estava finalmente me ouvindo. — O que eu faço? — Vou registrar tudo e encaminhar a análise. Também precisamos preservar o arquivo original para perícia. Olhei para o celular. — Eu tenho cópias. — Ótimo. Melhor ainda. Ele apontou para o aparelho. — Posso recolher temporariamente o arquivo original e formalizar como elemento de prova. O setor técnico faz a extração adequada. A palavra recolher me deixou desconfortável. — Meu celular inteiro? — Não necessariamente. Podemos copiar o arquivo aqui e preservar a cadeia de custódia a partir do material entregue. — Eu quero recibo. César sorriu novamente. — Eu ficaria preocupado se você não pedisse. Aquilo me tranquilizou. Talvez mais do que deveria. Ele chamou um agente, explicou o procedimento e começou a organizar o registro. Quando me entregaram o recibo, conferi cada linha. César observava. — Você sempre lê tudo assim? — Depois de hoje, vou ler até bula de água mineral. Ele riu baixo. — Faz bem. Guardei o papel. Antes de levantar, ele ficou sério de novo. — Mais uma coisa. Até entendermos exatamente o que está acontecendo, não confronta o hospital sozinha. — Eu já confrontei metade dele. — Então para por aí. — Minha irmã pode estar viva. — Justamente por isso. A frase me atravessou. César continuou: — Se houver alguma irregularidade real, quem estiver envolvido já sabe que você percebeu inconsistências. Não facilita. Assenti. — E a menina do morro? Ele fechou o bloco. — Deixa essa parte comigo por enquanto. Saí da delegacia às três e pouco da manhã acreditando que, pela primeira vez desde o acidente, tinha colocado aquela história nas mãos certas. Só descobriria depois o tamanho do erro.
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