8. ELES SABIAM

1621 Palavras
Rebeca Quando saí da delegacia, o Rio parecia pertencer a outra pessoa. As ruas estavam quase vazias, as lojas fechadas, alguns ônibus passando com meia dúzia de passageiros e trabalhadores esperando condução de madrugada. A cidade seguia funcionando como se minha irmã não tivesse desaparecido entre um quarto de hospital e um atestado de óbito. Eu ainda não conseguia chamar aquilo de morte. Não depois da gravação. Entrei no carro, tranquei as portas e fiquei alguns segundos olhando o recibo que César Braga tinha me entregado. Tudo parecia correto. Número da ocorrência. Identificação do arquivo. Meu nome. Horário. Assinatura. Eu deveria ter me sentido protegida. Em vez disso, abri meu e-mail e conferi se a cópia do áudio continuava lá. Depois entrei na nuvem. Outra cópia. A conversa com Nádia. Mais uma. Só então liguei o motor. Minha mãe provavelmente já estaria em casa. Eu queria chegar antes que ela acordasse, tomar banho, trocar de roupa e descobrir como explicar que eu tinha passado a madrugada numa delegacia porque ouvira funcionários do hospital afirmarem que Isa saíra viva. Não tinha ideia de como fazer isso sem destruir o pouco de chão que ainda restava para ela. Peguei uma avenida mais larga porque não queria cortar caminho por ruas desertas. No primeiro sinal, percebi um carro preto duas faixas atrás. Não pensei nada. No segundo, ele estava atrás de mim. Ainda assim, podia ser coincidência. No terceiro, mudei de faixa. Ele mudou também. Meu corpo ficou alerta antes de eu aceitar racionalmente que alguma coisa podia estar errada. Olhei pelo retrovisor. Não conseguia ver o motorista. Faróis altos. Vidros escuros. Acelerei quando o sinal abriu. O carro acompanhou. — Não inventa coisa, Rebeca — murmurei para mim mesma. Eu tinha acabado de passar horas imaginando corrupção, fraude, desaparecimento e gente morta no lugar de gente viva. Qualquer carro atrás de mim pareceria suspeito. Entrei numa rua mais movimentada. Ele veio. Virei à direita. Ele virou. O coração começou a bater mais rápido. Peguei o celular no suporte e liguei para Nádia pelo viva-voz. Ela atendeu com voz de sono. — Rebeca, aconteceu alguma coisa? — Você está em casa? — Estou. Por quê? Olhei novamente pelo retrovisor. — Tem um carro me seguindo. O sono desapareceu da voz dela. — Você tem certeza? — Não. Mas ele fez três mudanças comigo e continua atrás. — Não vai pra sua casa. — Minha mãe está lá. — Justamente por isso. Vai pra um posto movimentado, hospital, qualquer lugar com câmera e gente. Eu já procurava no mapa. — Tem um posto vinte e quatro horas a uns dois quilômetros. — Vai pra lá e fica comigo no telefone. O carro aproximou. Demais. — Nádia… — O que foi? — Ele encostou. O impacto veio no segundo seguinte. Não forte o suficiente para destruir o carro. Forte o bastante para empurrar a traseira e fazer meu peito bater contra o cinto. Gritei. Segurei o volante. — Rebeca! — Ele bateu no meu carro. — Não para. Foi exatamente o que fiz. Pisei no acelerador. O carro veio atrás. Meu cérebro ainda tentava encontrar uma explicação normal. Motorista bêbado. Assalto. Algum maluco irritado. Então ele bateu outra vez. Dessa vez pela lateral. O carro puxou para a esquerda. Corrigi. Uma buzina explodiu quando quase invadi outra faixa. — Nádia, chama a polícia. — Já estou fazendo pelo outro celular. Continua andando. Vi a iluminação do posto adiante. Nunca achei uma conveniência de posto de gasolina tão bonita na vida. Entrei rápido, subi parte da calçada da entrada e parei perto das bombas. Havia dois frentistas, um motorista abastecendo e três pessoas dentro da loja. O carro preto passou pela entrada. Por um segundo, achei que seguiria. Então diminuiu. Meu estômago gelou. Ele ficou alguns metros adiante. Parado. — Eu estou no posto — falei. — Não sai do carro até ter gente perto de você. Um dos frentistas já vinha em minha direção. O carro preto arrancou. Consegui ver apenas a traseira. A placa estava parcialmente coberta por lama ou alguma coisa escura. Conveniente demais. — A senhora está bem? — perguntou o frentista, um rapaz novo que olhava assustado para a lateral amassada. — O carro bateu na senhora duas vezes. Eu vi quando entrou. Desliguei o motor. Minhas mãos tremiam. — Você viu a placa? — Não deu pra pegar. Ele passou rápido e estava suja atrás. Nádia ainda estava na ligação. — Rebeca, fala comigo. — Estou bem. Mentira. Mas estava viva. Abri a porta. As pernas quase falharam quando pisei no chão. Foi nesse momento que meu celular vibrou. Mensagem de número desconhecido. Olhei. “Você é inteligente. Então age como uma.” Meu sangue gelou. Outra mensagem apareceu. “Enterra sua irmã.” Fiquei olhando para a tela. O barulho do posto desapareceu. Uma terceira chegou alguns segundos depois. “A próxima conversa pode custar mais do que um retrovisor.” Levantei os olhos para o carro. Meu retrovisor esquerdo estava pendurado por fios. — Filhos da p**a. — O que aconteceu? — Nádia perguntou. — Mandaram mensagem. — Não apaga nada. Faz print agora. Eu já estava fazendo. Tela inteira. Número. Horário. Mensagem. Depois encaminhei tudo para ela. — Foi por eu ter ido à polícia. Nádia ficou em silêncio por alguns segundos. — Não dá pra saber. — Ninguém sabia. — O hospital sabia que você estava desconfiando. — O hospital não sabia que eu entreguei o áudio. — A gente não sabe quem te viu saindo de lá, quem te seguiu, quem está falando com quem. Ela estava certa. Mas uma pergunta já tinha entrado na minha cabeça. Eu havia saído do hospital de madrugada. Passei direto na delegacia. Pouco depois, alguém estava atrás de mim. — César disse que eu não devia confrontar ninguém — murmurei. — O delegado? — Disse que, se tivesse gente envolvida, eles já sabiam que eu tinha percebido coisa demais. — Isso é uma orientação razoável. — É. Eu queria acreditar nisso. Precisava. Dois policiais chegaram cerca de quinze minutos depois. Expliquei a perseguição. Mostrei as mensagens. O frentista confirmou o que tinha visto. Havia câmeras. Solicitaram que o posto preservasse as imagens. Quando perguntaram se eu tinha alguma ideia do motivo, contei apenas que estava acompanhando uma situação relacionada à morte recente da minha irmã e que já havia registrado uma ocorrência anterior. Não falei do conteúdo do áudio. Muito menos das cópias. Pela primeira vez naquela madrugada, guardar informação pareceu mais seguro do que entregá-la. ⸻ Nádia chegou antes das cinco. Saiu do carro usando uma calça de moletom, camiseta larga e o cabelo ainda amassado de quem tinha levantado da cama e vindo sem pensar duas vezes. Assim que me viu, me abraçou. Não aquele abraço educado de condolência. Um abraço apertado. De verdade. Eu aguentei três segundos. Depois comecei a chorar. — Eu não sei onde minha irmã está. A frase saiu sufocada contra o ombro dela. — Eu sei. — E alguém está me mandando enterrar uma mulher que eu nem consegui reconhecer direito. Nádia me segurou pelos ombros. — Então você não vai resolver isso dirigindo sozinha de madrugada, sendo seguida e bancando a protagonista de série policial. Soltei uma risada no meio do choro. — Péssimo momento pra piada. — Excelente momento. Você está há não sei quantas horas sem dormir e claramente perdeu parte do instinto de sobrevivência. Limpei o rosto. — Minha mãe não pode saber disso agora. — Ela precisa saber que você sofreu um acidente. — Não foi acidente. — Justamente. Olhei para o meu carro. A lateral amassada. O retrovisor quebrado. Ninguém conseguiria esconder aquilo. — Eu digo que bateram em mim e fugiram. Nádia cruzou os braços. — Você sabe que eu odeio mentira m*l elaborada. — Hoje você vai ter que superar. Ela não discutiu. Entramos na loja. Comprei um café que não consegui beber. Nádia colocou o celular sobre a mesa. — Agora me explica uma coisa. Essa expressão que você ouviu… “menina do morro”. Assenti. — Disseram que ela continua sendo observada. Que ainda está com o pai. E que ele não entregaria a filha facilmente. — Idade? — Não falaram. — Nome? — Nada. Ela ficou pensativa. — Pode ser qualquer comunidade do Rio. — Eu sei. — E pode ser código. — Também pensei nisso. Nádia pegou o copo. — Mas você falou que eles disseram “aquela menina” como se fosse alguém específico. — Foi a impressão que eu tive. Ela mexeu o café sem beber. — Ontem, no trabalho, eu te falei dos desaparecimentos. Meu estômago apertou. — Quatro ou cinco casos. — Isso. — Você chegou a olhar? — Só por alto. Mas tem uma coisa que eu não te contei porque você recebeu a ligação da Bia e saiu correndo. Inclinei o corpo para frente. — O quê? Nádia hesitou. — Dois daqueles casos tinham algum tipo de contato prévio com a mesma fundação. Curso profissionalizante, encaminhamento de emprego, essas coisas. — Qual fundação? — Vasconcelos. O nome não significou nada para mim naquele instante. Ainda. — E o morro? — Um dos atendimentos mencionava uma ação social dentro de uma comunidade. Eu preciso voltar aos registros para lembrar qual. Olhei para ela. — A gente vai trabalhar hoje. — Rebeca, sua irmã acabou de ser declarada morta. — Justamente. Ela ficou calada. Peguei o celular e abri novamente a foto das mensagens. Enterra sua irmã. Depois abri a gravação. A menina do morro. Pela primeira vez, percebi que talvez eu estivesse olhando para duas pontas da mesma história. E se ninguém queria que eu procurasse a segunda, era exatamente por ela que eu começaria.
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