Capítulo 11

929 Palavras
Lorena A manhã caiu pesada no Vidigal. Não era uma daquelas manhãs quentes e barulhentas, cheias de música e risadas, mas sim estranha, abafada, como se o morro inteiro prendesse a respiração sem saber por quê. Lorena desceu a viela com o corpo cansado e a cabeça cheia; a noite tinha sido longa, repleta de café, pão, conversa alheia e olhares curiosos demais. Desde a festa, ela sentia algo diferente no ar, uma sensação incômoda de estar sendo observada, como se cada passo estivesse sendo contado. Quando chegou em frente à birosca, parou por um instante. A porta estava fechada como sempre, mas alguma coisa ali não parecia certa. Tentou afastar o pressentimento. — Deve ser coisa da minha cabeça… — murmurou, tentando se convencer. Girou a chave, entrou e o cheiro veio primeiro: forte, estranho, metálico. Ela franziu a testa e deu alguns passos para dentro. — Que cheiro é esse…? A mão alcançou o interruptor e, no instante seguinte, o mundo acabou. O estalo foi seco, a luz acendeu e o ar se transformou em fogo. A explosão sacudiu o chão, quebrou vidros e lançou pedaços de concreto, madeira e ferro para todos os lados. O barulho ecoou pelo morro como um trovão rasgando o céu, e a birosca virou ruína em questão de segundos. Lorena não teve tempo de gritar; o impacto a jogou contra a parede, o teto cedeu e tudo se apagou. Do outro lado do Vidigal, Arcanjo — o Anjo, como os homens dele o chamavam quando ele não estava por perto — estava na boca, encostado na moto e conversando baixo com dois vapores. O copo de café ainda estava quente em sua mão quando o chão tremeu, o ar vibrou e o morro inteiro sentiu. Ele ergueu a cabeça no mesmo instante. — Que p***a foi essa? — a voz mudou de tom, o corpo inteiro entrou em alerta. Antes que alguém respondesse, um dos meninos surgiu correndo pela viela de baixo, ofegante e pálido. — Chefe! Explosão… lá embaixo… na birosca! O copo caiu da mão de Arcanjo e se espatifou no chão. — Onde? — ele perguntou, embora já soubesse. O nome dela atravessou sua mente como um tiro. Lorena. Num movimento brusco, montou na moto. — Abre caminho. Agora. A moto desceu o morro rasgando o silêncio, o barulho do motor se misturando aos gritos e ao caos que começava a se espalhar. Fumaça subia alto no céu; gente corria, gente gritava. Quando Anjo chegou em frente à birosca, o que viu fez o peito se fechar: destruição, fogo lambendo o que restava das paredes, fumaça preta e grossa, moradores tentando apagar as chamas com baldes, panelas, o que tivessem nas mãos, enquanto outros arrancavam pedaços de concreto com a força do desespero. — Meu Deus… — alguém chorava. — Tinha gente lá dentro… Arcanjo desceu da moto antes mesmo de ela parar por completo. O olhar correu por toda a cena como se procurasse algo que ele se recusava a acreditar que talvez não estivesse ali. — LORENA! — gritou. Nada. O nome saiu de novo, mais alto, rasgando o ar. — LORENA! O fogo estalava, a fumaça ardia nos olhos e o coração batia tão forte que doía. Ele empurrou um pedaço de parede caída com as próprias mãos. — Abre isso! Tira isso daqui! — Chefe, é perigoso! — alguém tentou segurá-lo. Ele se virou com o olhar mais mortal que já tinham visto. — Solta. Agora. Entrou nos escombros como se o fogo não existisse, tossiu, respirou fumaça e ignorou o calor queimando a pele. O mundo tinha se resumido a uma única coisa: encontrá-la. — Lorena… — a voz saiu rouca, quase quebrada. — Fala comigo, flor… por favor… E então, bem fraco, quase um sussurro: — Aa… Arcanjo… O som atravessou o peito dele como um soco. — Eu tô aqui! — gritou. — Fala de novo! — Aqui… — a voz dela vinha debaixo de concreto e madeira. — Tá escuro… eu tô presa… Ele caiu de joelhos e começou a arrancar os destroços com as próprias mãos, sem sentir dor, sem sentir nada além do pânico de perdê-la. — Aguenta, Lorena, aguenta pra mim. — a voz dele tremia, algo que ninguém jamais tinha ouvido. — Eu não vou te deixar aqui, ouviu? Não vou. Ela chorava, com a voz fraca: — Tá doendo… — Eu sei… eu sei… — ele engoliu o choro. — Mas tu é forte, sempre foi. Aguenta só mais um pouco. Os homens se juntaram a ele, tirando os pedaços maiores. O fogo começava a ceder, a fumaça diminuía e, enfim, ele a viu. Lorena estava presa da cintura para baixo, coberta de poeira, com sangue escorrendo da testa e os olhos arregalados de medo — mas vivos. Arcanjo soltou o ar como se voltasse à vida. — Olha pra mim — disse, segurando o rosto dela com cuidado. — Não fecha esses olhos. Fica comigo. — Eu achei que ia morrer… — sussurrou. O olhar dele escureceu, carregado de promessa. — Ninguém encosta em tu. Ninguém. Eu juro. Quando finalmente conseguiram tirá-la dos escombros, o morro inteiro assistiu em silêncio. Não era apenas a menina da birosca sendo resgatada; era a flor do morro nos braços do homem mais temido do Vidigal. E, naquele instante, enquanto o eco da explosão ainda parecia vibrar no ar, uma coisa ficou clara para todos: quem tinha feito aquilo acabara de assinar a própria sentença. E Rubi ainda não fazia ideia do inferno que tinha acabado de despertar.
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