Lorena
A manhã caiu pesada no Vidigal. Não era uma daquelas manhãs quentes e barulhentas, cheias de música e risadas, mas sim estranha, abafada, como se o morro inteiro prendesse a respiração sem saber por quê. Lorena desceu a viela com o corpo cansado e a cabeça cheia; a noite tinha sido longa, repleta de café, pão, conversa alheia e olhares curiosos demais. Desde a festa, ela sentia algo diferente no ar, uma sensação incômoda de estar sendo observada, como se cada passo estivesse sendo contado.
Quando chegou em frente à birosca, parou por um instante. A porta estava fechada como sempre, mas alguma coisa ali não parecia certa. Tentou afastar o pressentimento.
— Deve ser coisa da minha cabeça… — murmurou, tentando se convencer.
Girou a chave, entrou e o cheiro veio primeiro: forte, estranho, metálico. Ela franziu a testa e deu alguns passos para dentro.
— Que cheiro é esse…?
A mão alcançou o interruptor e, no instante seguinte, o mundo acabou. O estalo foi seco, a luz acendeu e o ar se transformou em fogo. A explosão sacudiu o chão, quebrou vidros e lançou pedaços de concreto, madeira e ferro para todos os lados. O barulho ecoou pelo morro como um trovão rasgando o céu, e a birosca virou ruína em questão de segundos. Lorena não teve tempo de gritar; o impacto a jogou contra a parede, o teto cedeu e tudo se apagou.
Do outro lado do Vidigal, Arcanjo — o Anjo, como os homens dele o chamavam quando ele não estava por perto — estava na boca, encostado na moto e conversando baixo com dois vapores. O copo de café ainda estava quente em sua mão quando o chão tremeu, o ar vibrou e o morro inteiro sentiu. Ele ergueu a cabeça no mesmo instante.
— Que p***a foi essa? — a voz mudou de tom, o corpo inteiro entrou em alerta.
Antes que alguém respondesse, um dos meninos surgiu correndo pela viela de baixo, ofegante e pálido.
— Chefe! Explosão… lá embaixo… na birosca!
O copo caiu da mão de Arcanjo e se espatifou no chão.
— Onde? — ele perguntou, embora já soubesse. O nome dela atravessou sua mente como um tiro.
Lorena.
Num movimento brusco, montou na moto.
— Abre caminho. Agora.
A moto desceu o morro rasgando o silêncio, o barulho do motor se misturando aos gritos e ao caos que começava a se espalhar. Fumaça subia alto no céu; gente corria, gente gritava. Quando Anjo chegou em frente à birosca, o que viu fez o peito se fechar: destruição, fogo lambendo o que restava das paredes, fumaça preta e grossa, moradores tentando apagar as chamas com baldes, panelas, o que tivessem nas mãos, enquanto outros arrancavam pedaços de concreto com a força do desespero.
— Meu Deus… — alguém chorava. — Tinha gente lá dentro…
Arcanjo desceu da moto antes mesmo de ela parar por completo. O olhar correu por toda a cena como se procurasse algo que ele se recusava a acreditar que talvez não estivesse ali.
— LORENA! — gritou.
Nada.
O nome saiu de novo, mais alto, rasgando o ar.
— LORENA!
O fogo estalava, a fumaça ardia nos olhos e o coração batia tão forte que doía. Ele empurrou um pedaço de parede caída com as próprias mãos.
— Abre isso! Tira isso daqui!
— Chefe, é perigoso! — alguém tentou segurá-lo.
Ele se virou com o olhar mais mortal que já tinham visto.
— Solta. Agora.
Entrou nos escombros como se o fogo não existisse, tossiu, respirou fumaça e ignorou o calor queimando a pele. O mundo tinha se resumido a uma única coisa: encontrá-la.
— Lorena… — a voz saiu rouca, quase quebrada. — Fala comigo, flor… por favor…
E então, bem fraco, quase um sussurro:
— Aa… Arcanjo…
O som atravessou o peito dele como um soco.
— Eu tô aqui! — gritou. — Fala de novo!
— Aqui… — a voz dela vinha debaixo de concreto e madeira. — Tá escuro… eu tô presa…
Ele caiu de joelhos e começou a arrancar os destroços com as próprias mãos, sem sentir dor, sem sentir nada além do pânico de perdê-la.
— Aguenta, Lorena, aguenta pra mim. — a voz dele tremia, algo que ninguém jamais tinha ouvido. — Eu não vou te deixar aqui, ouviu? Não vou.
Ela chorava, com a voz fraca:
— Tá doendo…
— Eu sei… eu sei… — ele engoliu o choro. — Mas tu é forte, sempre foi. Aguenta só mais um pouco.
Os homens se juntaram a ele, tirando os pedaços maiores. O fogo começava a ceder, a fumaça diminuía e, enfim, ele a viu. Lorena estava presa da cintura para baixo, coberta de poeira, com sangue escorrendo da testa e os olhos arregalados de medo — mas vivos.
Arcanjo soltou o ar como se voltasse à vida.
— Olha pra mim — disse, segurando o rosto dela com cuidado. — Não fecha esses olhos. Fica comigo.
— Eu achei que ia morrer… — sussurrou.
O olhar dele escureceu, carregado de promessa.
— Ninguém encosta em tu. Ninguém. Eu juro.
Quando finalmente conseguiram tirá-la dos escombros, o morro inteiro assistiu em silêncio. Não era apenas a menina da birosca sendo resgatada; era a flor do morro nos braços do homem mais temido do Vidigal. E, naquele instante, enquanto o eco da explosão ainda parecia vibrar no ar, uma coisa ficou clara para todos: quem tinha feito aquilo acabara de assinar a própria sentença.
E Rubi ainda não fazia ideia do inferno que tinha acabado de despertar.