Lorena
Eu estava deitada, olhando para o teto do quarto, quando a voz da minha amiga ecoou do lado de fora da porta, firme e impaciente, como sempre acontecia quando ela decidia que eu não tinha escolha.
— Abre essa porta, mulher! Tu não vai ficar trancada aí de novo!
Era Camila, minha melhor amiga, filha da minha madrinha e companheira de risadas desde a infância, uma daquelas mulheres que não aceitavam um “não” como resposta e que sempre entravam na minha vida como um furacão. Lorena levantou, abriu a porta devagar e soltou um suspiro cansado, já sabendo que a discussão não seria curta.
— Que foi, Mila? Já tô pronta pra te ouvir.
Camila entrou no quarto como se fosse dona do espaço, jogou-se sobre a cama e cruzou os braços antes de anunciar, com brilho nos olhos, que naquela noite teria festa lá em cima, no ponto do Leo do 12, comentando que o morro inteiro iria, e que até o dono do pedaço apareceria. Eu revirei os olhos, incomodada, porque justamente por isso eu não queria ir; não desejava confusão, nem olhares, nem comentários. Ela riu ao ouvir minha justificativa e rebateu dizendo que eu precisava viver um pouco, que desde que minha avó tinha partido eu só trabalhava e dormia, e que aquilo não era vida de verdade. Tentei argumentar que estava bem assim, mas Camila me interrompeu sem piedade, afirmando que via meu cansaço, minha tristeza e a falta de cor nos meus dias, insistindo para irmos só um pouco, apenas uma hora, prometendo que depois desceríamos.
Eu hesitei, dividida entre o impulso de recusar e a vontade silenciosa de respirar, de sentir o morro vivo novamente, nem que fosse por uma única noite. Acabei cedendo, murmurando um “tá bom, mas só um pouquinho”, e ela comemorou alto, abrindo o guarda-roupa e separando um short jeans e uma blusa preta para mim, dizendo que cuidaria do resto. Tentei esconder o sorriso, mas, por dentro, um frio estranho tomou conta do meu peito, uma sensação que eu ainda não sabia nomear.
Lá em cima, o ponto do Leo estava lotado, o som do funk fazia o chão vibrar e o cheiro de churrasco se misturava com perfume e fumaça. O morro brilhava sob luzes improvisadas, e, por alguns instantes, parecia que ninguém ali tinha problemas. Eu me sentia fora do lugar, mas Camila me puxava pela mão, tentando me fazer dançar, rir e esquecer o peso que eu carregava. Ela gritou no meu ouvido que era só uma festa, mas eu m*l tive tempo de responder, porque o barulho de motos subindo o beco fez o som baixar por um segundo e todo mundo virou na mesma direção. Foi então que eu o vi: Arcanjo, o homem que vinha perturbando meus pensamentos.
Usando jaqueta preta, olhar firme, o cigarro aceso iluminando o rosto sério, ele avançava com a segurança de quem comanda, enquanto os homens ao redor abriam espaço. A presença dele falava sem palavras; o respeito vinha no silêncio. Meu coração parou por um instante, e Camila sussurrou, surpresa, dizendo que ele estava olhando para mim. Tentei fingir que não ouvi, baixei o olhar e quis desaparecer entre as pessoas, mas já era tarde: Arcanjo me tinha visto. Ele caminhou devagar, com o olhar fixo em mim, e a cada passo eu sentia meu coração acelerar ainda mais, até que parou perto o suficiente para que sua voz rouca atravessasse o som alto e dissesse que não esperava me ver ali, chamando-me de “flor”. Engoli seco e respondi que só tinha ido acompanhar minha amiga. Ele arqueou a sobrancelha, sorrindo de canto, comentando que então deveria agradecer a ela.
Camila, constrangida, inventou que iria buscar uma bebida e me deixou sozinha diante dele. Eu quis protestar, mas a voz não saiu. Arcanjo se aproximou ainda mais, e o perfume dele se misturou ao meu, elogiando minha aparência e dizendo que eu estava diferente. Tentei dizer que não tinha ido ali para vê-lo, mas ele me interrompeu, perguntando se não era para isso, e quando respondi que não, ele afirmou que então era coisa do destino, completando que às vezes o destino sabia mais do que a gente. O som voltou a ficar alto, mas o mundo pareceu entrar em silêncio entre nós; eu desviava o olhar tentando respirar, e ele nem precisava tocar em mim para me dominar.
Do outro lado da festa, Rubi observava a cena com os punhos cerrados e os olhos cheios de veneno. Murmurou para Tânia que eu estava me achando e que cairia do salto logo, mas Tânia respondeu que ela não deveria começar, lembrando que ele já a tinha deixado no passado. Rubi deu um sorriso frio, dizendo que era no passado que se guardavam armas, deixando claro que aquela história não tinha acabado.
Enquanto isso, Arcanjo estendia a mão para mim e me chamava para dançar. Eu disse que não sabia dançar, e ele respondeu que também não, sugerindo que aprenderíamos juntos. Mesmo contra a razão, coloquei minha mão na dele. O toque foi suficiente para fazer meu coração perder o compasso, e o dele, pela primeira vez em muito tempo, abandonar a frieza da lógica. A música seguia alta, o morro vibrava, mas entre nós existia apenas o som do destino começando a ser escrito.
Quando voltei para casa, meu coração ainda estava acelerado, o corpo cansado e a cabeça cheia de pensamentos que eu não conseguia organizar. A festa tinha sido divertida, mas havia algo mais pesado em cada lembrança: o olhar de Arcanjo, o toque da sua mão, a sensação de proximidade que tirava meu fôlego. Sentei na cama, fechei os olhos e respirei fundo, perguntando a mim mesma por que ele me deixava daquele jeito e por que, sempre que eu pensava nele, parecia que tudo o que eu sabia sobre o mundo mudava.
O celular vibrou com uma mensagem de Camila perguntando se eu tinha visto como ele me olhou. Sorri, mas ainda sentia a ansiedade latejando, respondendo que não sabia o que pensar. Do outro lado do morro, Rubi também estava acordada, olhando o beco pela janela e lembrando da cena na festa; o ciúme queimava por dentro, e ela disse para si mesma que eu pagaria por aquilo e que não deixaria alguém roubar o que um dia tinha sido dela. Tânia tentou alertá-la, lembrando que ele não era homem de brincadeira e que qualquer coisa poderia sair caro, mas Rubi respondeu com um sorriso frio, afirmando que eu não merecia ficar com o que era dela.
Naquela noite eu m*l consegui dormir. A sensação de perigo estava presente, ainda que eu não soubesse identificar claramente de onde vinha. Algo dentro de mim dizia que a paz tinha acabado e que o morro, com toda sua beleza e risco, estava prestes a mostrar o lado mais c***l. No dia seguinte, a rotina na birosca voltou, mas a tensão estava no ar. Dois homens conhecidos do morro permaneceram por perto, observando. Eu senti o peso dos olhares e, antes que pudesse reagir, recebi um bilhete, entregue discretamente por um deles, dizendo para eu ficar tranquila, que ele tinha pedido para ficarem de olho em mim e que qualquer problema era para avisar.
Meu coração acelerou novamente, e, pela primeira vez, senti segurança misturada ao perigo. Eu sabia que Arcanjo não se afastaria mais, mas também tinha consciência de que sua presença atraía problemas, e que Rubi não ficaria parada. No alto do morro, ele observava tudo, registrando cada passo meu, decidido que ninguém tocaria na flor do morro. Ao mesmo tempo, Rubi começava a planejar, alimentando sua raiva a cada aproximação entre nós, e sabendo que, para conseguir o que queria, precisaria mexer no que ele mais prezava: eu.
O morro, silencioso, parecia antecipar o caos que estava por vir.