Lorena
O sol já começava a se esconder entre os becos do Vidigal quando Lorena finalizava o dia, fechando as portas da birosca. O cheiro de café ainda pairava no ar, misturado ao som distante do funk que ecoava pelas vielas, e o cansaço pesava no corpo, mas os pensamentos continuavam presos no último encontro com Arcanjo. Desde aquele momento, o nome dele parecia ecoar por todo o morro: comentavam nas esquinas, sussurravam sobre o jeito como ele olhava para a menina da birosca. Lorena fingia que não escutava, porém o coração acelerava toda vez que o assunto surgia.
— Tá mexendo com fogo, flor… — murmurou uma das vizinhas, num tom de aviso.
Lorena apenas sorriu, preferindo o silêncio. Sabia que não havia buscado nada, mas também conhecia o peso que o nome dele carregava.
Naquela noite, ela trancou o estabelecimento mais tarde do que o normal. Caminhava sozinha pelo beco estreito, ouvindo o som dos próprios passos no chão de pedra, quando um arrepio familiar percorreu sua nuca, anunciando que estava sendo observada. Virou devagar — e encontrou Rubi.
Encostada na parede, salto alto reluzindo sob a luz fraca do poste, o olhar carregado de raiva, ela disse com um sorriso torto:
— A gente precisa conversar, princesinha do café. Ou melhor, eu falo e tu escuta.
Lorena engoliu seco, mas manteve a postura firme.
— Não tenho nada para conversar com você.
— Ah, tem sim. — Rubi se aproximou, e o perfume forte tomou o ar. — Desde quando você acha que pode chegar assim, do nada, e roubar o olhar dele? Tu acha que eu não vi o jeito que ele te olhou?
— Eu não roubei nada. Eu só trabalho. Sirvo café.
— Trabalho? — Rubi riu, debochada. — Ele pode até estar te achando boazinha agora, mas quando cansar vai te jogar fora como fez com as outras. Então te liga: se afasta enquanto ainda dá tempo.
O coração de Lorena apertou, mas o olhar permaneceu firme.
— Não é você quem decide isso.
A risada de Rubi ecoou pelo beco.
— Tão ingênua… Tu não sabe o que é ficar perto de um homem como ele. Eu sei. E, se eu te disser que já teve mulher que sumiu por menos?
A ameaça veio gelada, envolta em falsa doçura. Lorena deu um passo para trás, assustada, mas antes de responder, uma voz cortou o ar:
— É assim que tu anda falando com as pessoas agora, Rubi?
A voz grave e imponente fez o beco inteiro silenciar. Rubi empalideceu. Anjo surgiu das sombras com o cigarro aceso entre os dedos e o olhar escuro, pesado, caminhando devagar, cada passo um aviso.
— Eu devia perguntar se tu enlouqueceu… mas acho que já sei a resposta. — O tom baixo, rouco, fez Rubi baixar a cabeça.
— Eu só estava conversando…
— Conversando? — Ele soltou uma risada sem humor. — Isso tem cara de ameaça.
O silêncio caiu como sentença. Lorena sentia o coração disparar. Arcanjo parou ao lado dela, a presença grande e quente dominando o espaço.
— Eu te avisei para ficar longe de confusão, flor — disse sem tirar os olhos de Rubi. — E tu… desaparece da minha frente. Agora.
Ela ainda tentou dizer algo, mas o olhar dele bastou. Virou-se e sumiu na viela, os saltos ecoando até desaparecerem. Anjo respirou fundo, passou a mão no rosto e, enfim, olhou para Lorena.
— Ela não vai mais te incomodar.
— Eu não queria causar problemas… — murmurou, ainda trêmula.
Ele deu um passo à frente, aproximando-se.
— Problema seria se eu deixasse alguém tocar em ti.
A frase ficou suspensa no ar, carregada de significado. Ele então completou, num tom baixo, quase sussurro:
— Vai pra casa. Tranca bem a porta.
Ela obedeceu, mas ao se afastar virou o rosto uma última vez; ele ainda estava lá, parado no meio do beco, olhando até que ela sumisse da vista. Naquela noite, Lorena entendeu que o morro tinha olhos — mas os dele eram os únicos que a faziam se sentir segura, mesmo sabendo que era exatamente o oposto.
O sol nasceu tímido no Vidigal, dourando as lajes e os becos ainda molhados da chuva da madrugada. O morro despertava devagar, mas Lorena não pregou os olhos: as palavras de Anjo ecoavam em sua cabeça — “problema seria se eu deixasse alguém tocar em ti”. Aquilo girava dentro dela como batida de tambor. Arcanjo era um mistério, um homem que carregava o peso do mundo nos ombros e, ainda assim, a olhava como se a enxergasse de verdade.
Na birosca, o dia começou como qualquer outro. Lorena tentava se distrair servindo cafés, oferecendo sorrisos automáticos aos fregueses, mas a mente sempre voltava ao beco, ao olhar dele, à sensação estranha de perigo e proteção misturados.
Do outro lado do morro, porém, alguém queimava de forma diferente.
Rubi jogou a bolsa sobre a cama e acendeu um cigarro, andando de um lado para o outro no quarto apertado. O perfume forte misturado à raiva tornava o ar pesado.
— Aquela menina me paga — disse entre os dentes. — Me paga por ter me feito passar vergonha na frente dele.
Sentada no sofá, Tânia observava em silêncio. Conhecia Rubi e sabia quando era hora de deixá-la desabafar.
— Tu tá mexendo com fogo. Cê sabe que o Anjo não gosta de confusão.
— Eu não tenho medo dele — rebateu, os olhos faiscando. — Tu acha mesmo que vou deixar aquela qualquer tirar o que é meu?
Tânia suspirou.
— Ele nunca foi teu. Tu era só mais uma…
— Cala a boca! — gritou Rubi, arremessando o cigarro no chão. — Eu dormia na casa dele, andava no carro, todo mundo sabia. E agora ele joga isso fora por uma menina que vende café?
Tânia se aproximou devagar.
— Tu conhece ele. Não brinca, não dá segunda chance. Se mandou você se afastar, já te tirou do jogo. Se for atrás de vingança, quem perde é você.
A raiva de Rubi deu lugar a um medo discreto. Ela respirou fundo.
— Eu não vou fazer nada agora… mas ele vai me ver de novo. Vai lembrar do que perdeu.
— Só lembra que ele é o dono do morro. E quem mexe com o dono do morro não costuma durar muito.
O silêncio se fez pesado.
Na birosca, Lorena servia o último café da manhã quando percebeu dois rapazes observando de longe. Fingiu não notar, mas sentiu os olhares. Mais tarde, um deles entrou, comprou um pão e deixou um recado:
— O chefe perguntou se tá tudo bem.
— O… chefe? — ela murmurou.
— Tu sabe de quem tô falando. É pra não se preocupar.
Ele saiu, deixando um pequeno bilhete dobrado com uma caligrafia firme:
“Se alguém te olhar torto, me avisa. — A.”
Ela guardou o papel no avental com o coração acelerado, sentindo medo e segurança ao mesmo tempo. Nunca teve quem cuidasse dela e, agora, alguém fazia isso — do jeito torto, perigoso, mas real.
Do alto da laje, Anjo observava a birosca. Cigarro entre os dedos, olhar fixo.
— Fica de olho nela, Júlio. Se aquela Rubi aparecer, tu já sabe o que fazer.
— Pode deixar, chefe.
Ele soltou a fumaça, pensativo. Não entendia o que estava sentindo; só sabia que, desde o dia em que viu Lorena servir café com aquele sorriso tímido, algo tinha mudado dentro dele. Gostando ou não, ela agora fazia parte do território dele — do coração e da guerra.