Capítulo 8

966 Palavras
Rubi O clima dentro da birosca ficou pesado no exato instante em que Rubi entrou. O salto fino batendo no chão de cimento soava como uma provocação, e o olhar dela, carregado de veneno, encontrou o de Lorena atrás do balcão. Havia desafio, despeito e um tom aberto de deboche naquela expressão. — Ué… não sabia que o dono do morro tomava café aqui agora — disse Rubi, cruzando os braços e sustentando o olhar. — E ainda com companhia nova… Lorena travou as mãos no balcão, sem coragem de responder. Caique, que até então estava sereno, ergueu o olhar devagar; aquele olhar frio, que fazia até homem armado engolir seco, agora estava totalmente voltado para Rubi. — Rubi, não começa. — A voz saiu baixa e firme, carregada de aviso. Ela insistiu, dando um passo à frente, como se quisesse provocar ainda mais. — Só tô falando o que todo mundo vê, Arcanjo. Desde quando você se mistura com gente que serve café? O silêncio que se seguiu foi imediato. O único som audível era o da chaleira fervendo atrás do balcão. Lorena sentiu o coração acelerar, o rosto esquentar e a respiração falhar, mas continuou quieta. Arcanjo recostou no balcão, respirou fundo e passou a língua pelos lábios, num gesto lento que denunciava a irritação crescente. — Tu tá passando dos limites, Rubi — disse ele, ainda calmo, mas com um trovão escondido na voz. — E tu sabe que eu não repito ordem. Ela riu com deboche, tentando disfarçar a vergonha que já subia. — Tá me trocando por essa qualquer, é isso? Foi o bastante. Arcanjo se levantou da cadeira num movimento seco, e o olhar dele queimava. — Sai daqui, Rubi. Agora. — Cada palavra saiu cortante, sem espaço para discussão. — Cê vai me mandar embora? — Ela arregalou os olhos, surpresa com a frieza dele. — Tô mandando, antes que eu perca a paciência. O tom baixo e firme bastou para que até os curiosos na calçada se afastassem. Rubi mordeu o lábio, tentando segurar a raiva, mas a vergonha falou mais alto; virou o rosto e saiu apressada, o salto ecoando pelo chão, como se fugisse de si mesma. Quando o silêncio voltou a dominar o ambiente, Arcanjo sentou-se novamente, respirou fundo e olhou para Lorena, agora com outra expressão. — Desculpa a cena, flor. — A voz já estava mais baixa, sincera. — Nem sempre o passado sabe ficar no passado. Lorena apenas assentiu, ainda sem saber o que dizer. — Tudo bem… isso acontece. Ele a observou por alguns segundos, um sorriso quase imperceptível surgindo nos lábios. — Acontece, sim. Mas contigo eu não quero que aconteça nada que te faça baixar a cabeça. O jeito como ele disse aquilo fez o coração dela disparar. Na tentativa de disfarçar, Lorena se ocupou com as xícaras e limpou o balcão que já estava limpo demais. As mãos tremiam e, por mais que tentasse, não conseguia ignorar o timbre firme e rouco da voz dele, que parecia dominar o espaço sem qualquer esforço. Arcanjo — como ele fazia questão de ser chamado — continuava observando-a em silêncio. O olhar era intenso, pesado, mas não ameaçador; havia ali algo que misturava curiosidade e um cuidado que nem ele parecia compreender. — Tá tremendo por quê, flor? — perguntou com um meio sorriso no canto da boca. — Achei que tu fosse forte demais pra se abalar com confusãozinha dessas. Ela engoliu em seco antes de responder. — Não é nada… é só que nunca tinha visto alguém te enfrentar daquele jeito. Ele riu baixo, um som rouco que fez o estômago dela revirar. — Rubi é fogo de palha. Aprende rápido quando é hora de apagar. — Depois se inclinou sobre o balcão e completou: — Já tu… parece ter um tipo de fogo que não se apaga fácil. O rosto dela queimou e, sem conseguir sustentar o olhar dele, desviou. — Eu só trabalho aqui, senhor Anjo. — Senhor não — corrigiu, sem hesitar. — Arcanjo. Ela repetiu em voz baixa: — Arcanjo. Ele pareceu satisfeito ao ouvi-la pronunciar o nome dele. — Isso. Gosto mais assim. O silêncio que se instalou não era desconfortável; era carregado de coisas não ditas. Do lado de fora, o barulho do morro seguia normal — risadas, motores, músicas estouradas em caixas de som —, mas ali dentro parecia que o tempo havia parado. Arcanjo pegou a xícara de café, bebeu devagar e voltou a olhar para ela. — Tua avó fazia o melhor café do morro. Agora eu entendi o motivo — comentou, após uma breve pausa. — Tu aprendeu com ela, né? Lorena assentiu com um sorriso triste. — Desde pequena. Ela dizia que o segredo era fazer com amor. — Então tu põe amor em tudo que faz? — perguntou ele, num tom calmo e perigoso, prendendo o olhar dela. — Tento… — respondeu, sentindo o ar faltar. Arcanjo colocou o dinheiro sobre o balcão, levantou-se, ajeitou a camisa e a encarou novamente. — Continua assim. O morro precisa de gente com coração limpo. — E, antes de sair, acrescentou em voz firme e carregada de mistério: — Mas cuidado, flor… coração limpo demais atrai olho sujo. Lorena o observou ir embora com o coração disparado e as pernas trêmulas. Pela janela ainda conseguiu ver o vulto dele subindo a viela, ladeado por dois homens armados. A presença dele deixava rastros: silêncio respeitoso, tensão no ar, e uma sensação difícil de explicar. Sem entender o motivo, sentiu uma pontada no peito — uma mistura de medo e atração. O pressentimento veio forte, quase como aviso: aquele homem, que acabara de defendê-la e deixá-la sem fôlego, seria tanto a causa de sua ruína quanto a possibilidade de sua salvação.
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