Arcanjo
O cheiro de café fresco e pão recém-assado preenchia a birosca, mas, mesmo assim, nada conseguia afastar o peso que eu carregava no peito. Já fazia um mês desde que minha avó partiu e, a cada manhã, tudo recomeçava igual: eu me enfiava nas tarefas, buscava qualquer distração, tentava preencher o vazio que ninguém seria capaz de preencher. Os clientes iam e vinham, as conversas se misturavam ao barulho das panelas e ao som da campainha da porta, mas, no fundo, eu me sentia completamente sozinha — como se o mundo inteiro continuasse girando e eu tivesse ficado parada no mesmo lugar.
Foi então que a porta se abriu… e tudo mudou em um único instante. Ele entrou.
Anjo — o homem que todos conheciam como o dono do Vidigal, o mais temido do morro, aquele que fazia qualquer um endireitar a postura só com a presença — estava ali, parado na entrada, ocupando tudo o que meus olhos conseguiam enxergar. Meu coração disparou antes mesmo de minha mente compreender a cena. Senti a mistura de pavor e fascínio que um homem feito de rua e poder provoca: ele era imponente, seguro, firme, uma força silenciosa que dominava o ambiente sem esforço algum.
O mundo pareceu desacelerar. O tilintar da campainha, as vozes ao redor, o cheiro de café e pão quente… tudo ficou em segundo plano. Só existíamos ele e eu. E, por um breve momento, senti como se toda a brutalidade do Vidigal tivesse ficado do lado de fora; o que restava ali era apenas a presença dele e a minha fragilidade latejando por dentro.
Meus dedos tremiam enquanto eu tentava continuar atendendo os clientes, mas sentia o olhar dele sobre mim — constante, firme, estudando meus movimentos — sem pressa, sem aproximação direta, apenas observando.
Era como se analisasse cada gesto meu, cada expressão, como se quisesse decifrar minha dor, minha força e minha vulnerabilidade ao mesmo tempo. Tentei me concentrar nas tarefas, mas cada passo que ele dava parecia reverberar dentro de mim. A imagem do velório voltou, a lembrança dele ali — silencioso, intenso, ameaçador, mas, de alguma forma, protetor. O mesmo homem que eu temia agora estava diante de mim, novamente.
— Bom dia — disse ele, com a voz baixa, firme e carregada de autoridade. Não havia agressividade, apenas intensidade.
Meu coração quase saiu pela boca. Tentei responder com naturalidade, mas o som saiu fraco, trêmulo:
— Bom dia…
Ele se aproximou do balcão e aquele espaço entre nós pareceu ganhar vida, carregado de algo que eu não sabia nomear: medo, curiosidade, atração… talvez tudo junto. Pediu um café com um gesto mínimo, direto, e se sentou. Enquanto eu preparava a xícara, senti sua atenção pousada em mim, imóvel, mas presente, como se nada ao redor importasse.
Quando coloquei o café à sua frente, nossas mãos quase se tocaram. Foi um instante rápido, mas suficiente para que meu coração acelerasse ainda mais. Ele não disse nada; apenas me fitou com um olhar intenso, pesado, cheio de algo que me atravessava. Havia curiosidade, mas também possessividade e um tipo estranho de cuidado que me desarmava.
— Você está bem? — perguntou, com a voz firme, mas diferente, como se realmente se importasse com a resposta.
Não era uma pergunta casual. Ele enxergava além do sorriso que eu tentava manter, além do cansaço, além do luto que eu escondia. Tentei responder:
— Estou, sim…
Mas minha voz denunciou tudo que eu tentava ocultar. Ele percebeu, claro. Ele sempre percebe.
Inclinado levemente na minha direção, continuou me observando, e eu tive a nítida sensação de que ele estava ali por mim — exclusivamente por mim — e isso foi assustador e viciante ao mesmo tempo. Enquanto ele bebia o café, eu me movia pela birosca tentando manter a rotina, mas sentia o olhar dele acompanhando cada passo meu. Sabia que, por trás daquela calma aparente, havia um homem capaz de coisas que eu nem queria imaginar; e, ainda assim, uma estranha sensação de segurança crescia dentro de mim quando ele estava perto.
Ele fez um leve gesto, chamando minha atenção para que eu me aproximasse do balcão.
— Você continua trabalhando aqui sozinha? — perguntou, com um tom que misturava controle e cuidado.
— Continuo. Tento manter a rotina — respondi, tentando parecer firme, mesmo sabendo que ele era capaz de enxergar através de mim.
Ele me encarou por alguns segundos e disse, com uma certeza que me desmontou:
— Você está mais forte do que imaginei.
As palavras me atingiram como um impacto silencioso. Ele não conhecia metade do que eu sentia desde a perda da minha avó — os dias longos, o vazio, o esforço para não desmoronar — e, mesmo assim, dizia que eu era forte. O silêncio que se seguiu não foi vazio; estava carregado de tensão, de coisas não ditas, de promessas que eu não ousava decifrar. Eu sabia que ele não estava ali apenas pelo café. Existia intenção na presença dele.
Quando ele se levantou para ir embora, o ar pareceu vibrar ao redor do seu corpo. Cada passo era firme, decidido, como se o mundo tivesse que ceder espaço ao caminho que ele trilha. Fiquei parada, com o coração disparado, sabendo que depois daquele momento nada voltaria a ser igual. Ele havia retornado à minha vida — não mais como presença distante — e aquilo era apenas o começo de algo intenso, perigoso e inevitável.
Mesmo após sair, a presença dele permaneceu na birosca. Eu a sentia em cada canto, em cada aroma, em cada lembrança recente. Tentei respirar fundo e continuar trabalhando, mas sua imagem não saía da minha mente. Cada olhar, cada palavra, cada gesto de atenção ecoava em mim como uma marca impossível de apagar. Ele era o homem que todos temiam e, ainda assim, tinha escolhido olhar para mim.
E eu sabia — com absoluta certeza — que o que começou naquele dia não teria mais volta.