Capítulo 6

844 Palavras
Arcanjo Eu sempre observei a flor de longe. Não era apenas curiosidade; era necessidade. Desde o primeiro instante em que a vi, carregando a própria dor, a força contida e aquela vulnerabilidade que ninguém deveria tocar, senti que precisava estar por perto — mesmo que em silêncio, invisível, como uma sombra que a protege do mundo. O Vidigal me ensinou cedo que confiança é artigo raro: traição, abandono e perdas moldaram meu crescimento, e, ainda assim, ela destoava de tudo isso. Não carregava o medo que corrói o coração dos que sobrevivem nas ruas; havia resistência em cada gesto, e isso mexia comigo de um jeito que nunca experimentei antes. Lembro-me do primeiro dia em que a vi depois do velório. Ela caminhava pelas vielas com a cabeça baixa, o corpo curvado pelo peso da saudade, quase se arrastando entre o que restava da vida que tinha antes. Eu poderia ter me aproximado, dito algo, oferecido a mão, mas não podia me permitir esse impulso. O mundo do Vidigal não perdoa deslizes, e ela era frágil demais para o que eu poderia oferecer. Permaneci, então, à distância, observando cada gesto, cada olhar, gravando tudo como se fossem cicatrizes em mim. Desde criança aprendi a controlar absolutamente tudo: emoções, reações, movimentos. Aqui, um segundo de fraqueza custa vidas. Cresci sem pai, com uma mãe perdida em si mesma, e entendi cedo que, se eu não lutasse, ninguém lutaria por mim. Assistir amigos morrerem e presenciar traições abriu feridas que me endureceram e me ensinaram a agir com precisão, antecipar intenções e usar a mente antes das mãos. Foi assim que aprendi a ser implacável, calculista e temido, mas, mesmo com o poder em minhas mãos, carreguei sempre uma necessidade silenciosa de proteger. Então ela apareceu. Lorena. Minha flor. Ela nem imaginava que eu existia além das sombras. Cada passo seu se imprimia em mim; cada sorriso contido, cada lágrima engolida, cada gesto revelando força e vulnerabilidade ao mesmo tempo me prendia e me consumia. Eu aprendi cedo que possessividade não é mero capricho: é instinto de sobrevivência. Se alguém ousasse machucar a flor, se alguém ameaçasse o que escolhi para mim, o preço seria alto — e não falo em metáforas. Falo de consequências reais. Por isso eu a observava de longe: para protegê-la sem que percebesse. A cada dia minha curiosidade se misturava à minha necessidade de cuidar dela. Eu conhecia cada rua, cada olhar, cada ameaça escondida no Vidigal; ela, porém, era um enigma. Um raio de luz atravessando a escuridão que eu aprendi a dominar, desafiando meu autocontrole e despertando emoções que eu passei anos enterrando. As lembranças do meu passado sempre voltavam: perdas, abandonos, traições, noites de frio e medo, a certeza de que ninguém salvaria ninguém. Tudo isso me fez ser frio e desconfiado, mas ela rompia essa barreira. Por ela, eu sentia desejo, proteção, cuidado — sentimentos que jamais consegui ignorar. Quando ela estava na birosca, tentando se distrair para fugir do luto, eu observava. Sabia diferenciar quando o sorriso era verdadeiro e quando era apenas sobrevivência. À noite, quando voltava para casa e se entregava às lembranças da avó, cada lágrima que ela escondia era como uma facada em mim, mas também um lembrete do motivo pelo qual eu não podia deixá-la sozinha. Eu sentia cada emoção como se fosse minha. O Vidigal me ensinou que possessividade é sobrevivência. Ela não pode sofrer — e eu não permitirei que sofra. Cada passo que dou para protegê-la alimenta o desejo, a obsessão silenciosa e a certeza de que ela é parte da minha história, goste o mundo disso ou não. Lembro das primeiras vezes que a vi caminhando sozinha pelas vielas, o cabelo se movendo ao vento, o olhar tentando esconder a mistura de tristeza com resistência. Eu estava ali, sempre pronto para agir, mesmo que permanecesse na sombra. A intensidade que ela provocava em mim era nova: desejo, cuidado, proteção e determinação absoluta. Ela não é apenas bonita; ela é resiliente. Uma flor que sobrevive ao fogo do Vidigal. E eu serei, ao mesmo tempo, o fogo que queima qualquer ameaça e a muralha que impede o mundo de tocá-la. Cada decisão que tomei até aqui — cada sacrifício, cada batalha, cada inimigo derrubado, cada território conquistado — me trouxe exatamente para este ponto: cuidar dela, mesmo sem que ela saiba. Não posso falhar. Sei que preciso esperar o momento certo para me revelar, mas a paciência é difícil quando cada gesto dela me consome. Ela se tornou minha missão silenciosa, meu desafio impossível e minha necessidade incontrolável. Cada passo dela eu sinto, cada respiração eu registro, cada emoção dela desperta algo que o morro nunca me ensinou: o desejo de proteger e amar ao mesmo tempo, com intensidade absoluta. Entre sombras e vielas, passado e presente, nossas histórias já estão entrelaçadas. Eu, Arcanjo, dono do Vidigal, homem temido, frio e calculista, encontrei algo que nenhum poder, respeito ou guerra poderia me dar: a flor que mudou o meu mundo — e que, um dia, será só minha.
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