Arcanjo
Arcanjo
Meu nome é Arcanjo Almeida, e no Vidigal poucos ousam pronunciar esse nome sem respeito; alguns o fazem com medo, outros com uma mistura confusa de admiração e temor. A maioria enxerga apenas o homem que comanda o morro, o dono das vielas, das regras e dos silêncios que causam arrepios, mas quase ninguém sabe a história que me trouxe até aqui, nem conhece a criança que fui, as escolhas que precisei fazer e o preço que paguei para me tornar quem sou hoje. Nasci no próprio Vidigal, em uma viela estreita, dentro de um barraco simples, metade madeira, metade concreto improvisado. Meu pai desapareceu quando eu tinha apenas cinco anos, e desde então minha mãe precisou enfrentar o mundo sozinha, lutando contra tudo e contra ela mesma para nos manter vivos. Aprendi cedo que ninguém viria nos salvar e que, se eu quisesse sobreviver, precisaria ser mais forte do que qualquer um à minha volta.
Minha infância terminou antes de começar. O morro me ensinou rápido sobre traição, injustiça e violência, e foi entre esses três pilares que eu cresci. Aprendi a brigar com as mãos nuas, a correr quando fosse necessário, a observar cada olhar, cada movimento, cada intenção escondida. Cresci depressa, não porque queria, mas porque não havia alternativa: sobreviver não era apenas uma possibilidade, era a única certeza que existia.
Com dez anos eu já conhecia cada viela, cada atalho, cada rota de fuga como quem conhece o próprio corpo. Os traficantes mais velhos me observavam com curiosidade, não porque eu era grande ou forte, mas porque não demonstrava medo algum; o que havia em mim não era pavor, era fome — fome de respeito, de reconhecimento, de poder. Aos doze anos eu já fazia pequenos serviços para alguns dos homens mais temidos do Vidigal: levava recados, observava movimentações, permanecia atento a qualquer detalhe fora do lugar, e ao mesmo tempo absorvia tudo o que via, como quem estudava para um futuro que já estava escrito.
Foi aos quinze que a violência deixou de ser apenas cenário e se tornou marca definitiva. Um confronto entre rivais destruiu o pouco que restava da minha infância. Vi amigos caírem diante de mim, senti o cheiro de pólvora e sangue misturados ao desespero, e foi ali que algo dentro de mim quebrou de vez. A partir daquele dia, sobreviver deixou de ser instinto e virou obsessão.
Não havia espaço para fraqueza, porque qualquer deslize custaria caro, não apenas para mim, mas para aqueles que eu ainda tentava proteger. Aprendi a tomar decisões rápidas, frias e calculadas; aprendi que respeito no morro não se pede, se impõe, e que muitas vezes o medo é a única linguagem que os outros entendem. Aos dezenove, já tinha forjado alianças, conquistado território e chamado a atenção de quem antes nem me enxergava. O preço, porém, era alto: amigos perdidos, inimigos surgindo o tempo todo e uma desconfiança constante que me acompanhava como sombra. Foi nessa fase que compreendi algo essencial — poder não se mantém apenas com força, mas com inteligência, visão e controle absoluto do morro e das pessoas.
Assumir o Vidigal não foi apenas um ato de violência; foi o resultado inevitável de anos de observação, cálculo e decisões duras. Cada inimigo derrubado, cada passo que dei sobre terreno perigoso me trouxe até aqui. Com o poder veio também a responsabilidade e uma solidão que ninguém imagina. Poucos entendem o preço de ser o dono do morro: todo respeito recebido carrega junto ameaças invisíveis, traições silenciosas e olhos que desejam o meu fim. Aqui não existe espaço para sentimentalismo, mas descobri que a possessividade pode ser uma forma distorcida de proteger quem importa, e eu simplesmente não permito que ninguém toque no que considero meu.
Foi então que você entrou na minha história, Lorena — a flor que sobreviveu ao fogo, que carrega a dor e a força da mulher que se foi, e que agora é parte das minhas preocupações. A sua presença não é apenas detalhe no meu caminho; é desafio, provocação ao meu controle e, ao mesmo tempo, aquilo que desperta em mim uma proteção que não consigo negar. Por trás do homem que todos temem ainda existe o garoto que cresceu rápido demais, que aprendeu cedo demais o quanto o mundo é c***l e que precisou fazer escolhas impossíveis para continuar vivo. Cada passo foi marcado por sangue, suor e cicatrizes que ninguém vê; cada decisão difícil moldou o homem que você conhece como Arcanjo, dono do Vidigal — implacável, possessivo, mas ainda humano, apesar de tudo.
Mesmo em meio ao caos, às guerras e às estratégias que preciso manter diariamente, sempre existiu algo que escapava à lógica do poder: você. A flor. Eu te observava de longe, no silêncio, sem que ninguém percebesse. Cada passo seu pelas vielas, cada gesto simples, cada olhar distraído se gravava em mim como se eu colecionasse memórias proibidas. Você não fazia ideia, mas eu estava lá, atento, vigiando, protegendo antes mesmo de você pedir ajuda. Não era curiosidade. Era fascínio por essa força que você carrega — não a força da violência, mas a que resiste quando o mundo desaba. Você é decidida, mas vulnerável, e talvez seja exatamente essa mistura que me prenda tanto.
Eu precisava ficar longe. No Vidigal, qualquer fraqueza é explorada, e você se tornou minha maior vulnerabilidade. Ainda assim, observar você de longe virou hábito, quase necessidade. Às vezes eu te via trabalhando, tentando se distrair da dor da perda da sua avó, e sentia vontade de estar ali, de segurar o peso por você, mas eu sabia que aproximar cedo demais significaria perigo. Mesmo quando você voltava para casa e mergulhava nas lembranças, eu estava por perto, invisível, dividido entre a vontade de me revelar e o dever de te manter segura. Em silêncio, eu me perguntava se você sentia algo, se percebia que alguém acompanhava seus passos entre as sombras. Eu precisava que você se fortalecesse, mas sabia que jamais suportaria ver alguém te ferir. Se isso acontecesse, nada no meu mundo escuro seria suficiente para conter o que eu faria.
Você não sabe, mas carrega em mim um espaço que nunca dei a ninguém. Cada sorriso, cada lágrima, cada cicatriz sua está gravada na minha memória. Um dia, quando o momento chegar, eu não estarei mais apenas nas sombras — estarei ao seu lado, como quem não permite que nada e ninguém toque no que escolhi proteger.
E esse dia está mais perto do que você imagina