Capítulo 4

1576 Palavras
Lorena A procissão começou lentamente. O caixão de Dona Maria do Carmo estava coberto por flores simples, mas carregadas de significado, e cada passo dado pela multidão parecia arrastar o coração de todos que a amavam. Eu segurava com força o braço de uma vizinha próxima, tentando me manter de pé, mas minha mão tremia sem controle e todo o meu corpo parecia incapaz de acompanhar a dor que crescia dentro de mim, como se cada movimento fosse um esforço sobre-humano para não desabar ali mesmo. Anjo, o dono do Vidigal, caminhava à frente, conduzindo o cortejo com postura firme, porém sempre que podia voltava os olhos discretamente para mim, observando-me com atenção, como se estivesse medindo o quanto eu aguentaria atravessar aquele momento sem me perder completamente. Sua presença era silenciosa, mas carregada de poder; cada passo dele ecoava no meu peito e me fazia sentir, ao mesmo tempo, protegida e completamente exposta, como se ele enxergasse além da minha dor. Os vizinhos, as irmãs da igreja e até os jovens do morro se moviam em silêncio respeitoso, abrindo caminho pelas vielas estreitas que levavam ao cemitério. Todos sabiam que a segurança era dele; ninguém ousava fazer tumulto ou desrespeitar aquele momento. O homem mais temido do Vidigal caminhava entre nós como uma muralha viva, e a consciência de sua presença, por mais contraditório que parecesse, trazia-me um conforto amargo no meio da devastação que me consumia. Enquanto avançávamos pelas ruas do morro, eu observava rostos conhecidos, cada um carregando seu próprio luto, cada um segurando um pedaço do que Dona Maria do Carmo representou em vida. Alguns sorriam discretamente ao recordar lembranças antigas; outros apenas abaixavam a cabeça em silêncio profundo. Eu me sentia esmagada pelo peso de cada história que passava diante dos meus olhos, mas ainda assim era como se carregar o caixão das minhas memórias fosse a única força que me mantinha em pé. Em determinado momento, a procissão se apertou e Anjo se aproximou de mim. Sua mão tocou de leve o meu braço, um gesto simples e silencioso, mas que carregava mais significado do que qualquer palavra dita naquela hora. Ele não precisou falar para que eu entendesse o recado: — Eu estou aqui, você não está sozinha. Eu não consegui encará-lo; meus olhos estavam inchados de tanto chorar, e as lágrimas continuavam a cair, mas uma onda de alívio inexplicável percorreu meu corpo. Era confuso perceber como alguém tão imponente conseguia me trazer segurança justamente quando o mundo inteiro parecia ter desabado com a partida da minha avó. — Respira, Lorena — murmurou ele com a voz baixa, firme e autoritária. — Não deixe que a dor te consuma. Eu tô aqui. Engoli em seco, tentando aceitar aquelas palavras que pareciam um comando e um cuidado ao mesmo tempo. Eu estava devastada, mas a presença dele se tornava um fio de luz em meio à escuridão do luto. Concentrei-me em seguir seus passos, como se caminhar ao ritmo dele fosse a única forma de não cair, mesmo que cada músculo do meu corpo implorasse para desistir. Quando chegamos ao cemitério, o impacto foi ainda mais forte. As lápides alinhadas, o cheiro da terra recém-mexida e o silêncio pesado pareciam aprofundar minha ferida. Cada passo sobre a grama me afundava ainda mais na tristeza, como se eu estivesse sendo engolida por ela. Arcanjo– Anjo – permaneceu firme ao meu lado, atento a tudo, guiando-me sem alarde, protegendo-me tanto dos olhares curiosos quanto do peso invisível do morro que parecia nos acompanhar até ali. O padre iniciou uma missa simples, porém profundamente emocionante. As irmãs da igreja cantavam com as vozes embargadas; algumas pessoas soluçava sem conseguir se conter, e eu me senti pequena diante de tanto amor reunido para se despedir da mulher que foi minha base. Arcanjo manteve sua postura, observando cada detalhe ao redor, mas sem me pressionar ou invadir meu espaço. Ele apenas estava ali, oferecendo sua força silenciosa, como se dissesse que eu podia desmoronar porque ele sustentaria o que eu não conseguisse. Meu coração apertava a cada palavra dita, e as lembranças da minha avó invadiam minha mente: seus gestos, sua voz firme e doce ao mesmo tempo, os conselhos que sempre me deram rumo quando eu me sentia perdida. A dor de saber que nunca mais ouviria seu chamado foi quase insuportável. Eu queria gritar, chorar alto, cair de joelhos, mas algo me mantinha em pé, e eu sabia que era a presença de Arcanjo, que me impedia de me quebrar por completo. Ele parecia dizer, sem precisar falar, que alguém ainda estava ali para me proteger e me guiar, mesmo que tudo ao meu redor estivesse ruindo. Quando o caixão começou a descer à terra, senti meu mundo inteiro desabar de uma vez. Segurei a mão de Arcanjo por instinto, buscando apoio, e percebi que ele não apenas correspondeu ao gesto, como apertou meus dedos com firmeza, como se quisesse colar meus pedaços. Seus olhos se fixaram nos meus com intensidade quase dolorosa, carregando uma mistura de possessividade, cuidado e um comando silencioso que deixava claro que ninguém ousaria me tocar ou me machucar. — Ela foi uma mulher incrível — disse ele em voz baixa, como se o comentário fosse feito apenas para mim. — Você precisa se lembrar disso, Lorena. Seus dedos apertaram a minha mão, e um arrepio percorreu meu corpo inteiro. Eu assenti com dificuldade, tentando conter o choro, mas as lágrimas transbordaram mesmo assim. — Eu… eu sinto tanto… — consegui murmurar, mesmo que a frase viesse quebrada pela dor. Ele se aproximou ainda mais, e a aura de poder que o cercava se tornou quase sufocante, mas de forma inexplicavelmente reconfortante. — Eu sei — respondeu, com uma raiva contida no tom, como se estivesse irritado com o mundo por me fazer sofrer — e ninguém vai deixar você passar por isso sozinha. Eu garanto. O vento entre as árvores parecia amplificar cada batida acelerada do meu coração. Eu sentia todas as emoções multiplicadas: dor, medo, vulnerabilidade, mas também algo novo, intenso, perigoso e impossível de ignorar — a certeza de que, apesar de tudo, alguém estava disposto a lutar por mim. Quando a missa terminou e as pessoas começaram a se dispersar, Arcanjo permaneceu ao meu lado sem hesitar. Eu queria falar, perguntar, entender sua presença, mas a dor ainda me prendia, e as palavras não saíam. Ele apenas me observava com um olhar firme e silencioso, como se fosse sustentáculo do morro e, ao mesmo tempo, o único chão que eu ainda tinha. Naquele instante, uma promessa silenciosa se formou dentro de mim: eu sobreviveria, enfrentaria o Vidigal e a saudade, mas não sozinha. Eu já sentia, sem admitir em voz alta, que ele faria parte da minha caminhada, e de alguma forma ele também sabia disso. Segurando minha mão com firmeza, ele me guiou de volta pelas vielas, abrindo caminho com o simples peso da sua presença. Ninguém ousou se aproximar, ninguém atravessou nosso percurso. Eu caminhava devastada, mas com a impressão de que, mesmo entre a perda e o fogo, ainda restava uma âncora — e essa âncora era Arcanjo. Um mês se passou desde aquele dia que mudou tudo. Sem minha vovó, o mundo se tornou mais pesado, mais frio, e cada amanhecer era um lembrete cortante de que ela não estava mais ali para me amparar. Acordava, olhava o quarto vazio e sentia uma dor tão profunda que parecia rasgar meu peito de dentro para fora. O Vidigal continuava vivo, pulsando ao meu redor com seus sons, seus cheiros, sua agitação constante, mas eu estava diferente. A dor me transformou, deixando meu sorriso mais raro, meus passos mais lentos e meus pensamentos carregados de saudade. No trabalho, na birosca, eu tentava me manter ocupada. Organizava prateleiras, atendia clientes com um sorriso automático, respondia perguntas sem realmente ouvir as respostas. A rotina era uma fuga, uma forma de não olhar para dentro de mim e encarar o vazio deixado por ela. Mesmo cercada de gente, sentia-me sozinha, como se houvesse sempre um espaço vazio ao meu lado, reservado para minha avó. Quando voltava para casa, o peso era ainda maior. A birosca, com seu barulho constante, permitia-me distrair; mas dentro do apartamento, o silêncio gritava. Cada canto carregava a marca dela: a cozinha com cheiro de café, a sala onde conversávamos, o quarto onde as roupas ainda guardavam seu perfume. Eu me sentava na cama, abraçava o travesseiro e deixava o choro acontecer. Às vezes, conversava com ela em sussurros, dizendo que estava com medo, que sentia saudade, que não sabia como seguir. E, em meio a tudo isso, havia ele. As conversas no morro sempre traziam o nome de Arcanjo: respeito, medo e poder. Eu não o via desde o velório, e isso me incomodava mais do que eu estava disposta a admitir. Pensava nele contra a minha vontade, lembrava de seu olhar firme, da forma como segurou minha mão, da proteção silenciosa que me envolveu naquele dia. Não era apenas atração ou curiosidade; era algo mais profundo, instintivo, como se minha vida tivesse sido puxada para a órbita dele. À noite, deitada na cama, eu me perguntava como seria se ele estivesse ali comigo, ao meu lado, segurando minha mão mais uma vez e dizendo que nada me aconteceria. Mas ele não estava. E eu precisava aprender a sobreviver com a ausência dela… e com a ausência dele.
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