Episódio 3

1844 Palavras
Estacionei o carro, respirei fundo por um momento para ter coragem de sair e encarar a realidade. A enfermeira na porta sorriu para mim com uma profissionalidade distante. — Já está estável. Disse ela, como se lesse o medo que me subia pela garganta. Assenti, incapaz de falar. Minhas mãos, traidoras, tremiam. Apertei-as contra a lateral do meu vestido, deixando uma mancha de suor frio no tecido. Respire, Valéria. É só uma visita. É o correto. Repeti a mentira como um mantra e empurrei a porta. E lá estava eu. Sofia jazia na cama, mais pálida do que nas fotografias, mas com os olhos abertos. Aqueles olhos que sempre me pareceram penetrantes demais agora me observavam de um rosto demacrado. Cabos e tubos serpenteavam do seu corpo para as máquinas que piscavam num ritmo pacífico, quase obsceno. — Valéria. A sua voz era um fio de ar, mas tinha a mesma cadência que eu me lembrava, aquela mistura de doçura e exigência. — Por que você não veio ontem? Eu fiquei te esperando. O coração encolheu, transformando-se numa pedra pesada no meu peito. As mãos tremeram com mais força. Avancei em direção à cama, forçando um sorriso que senti falso e frágil. — O trabalho não me deixou vir te ver. Menti, a palavra sabendo a cinza na minha boca. — Mas agora já estou aqui. Ela não pareceu chateada. Um sorriso fraco, quase triunfante, desenhou-se nos seus lábios secos. — Não importa. Venha aqui. O importante é que você já está aqui. Da outra vez você esteve um pouco... evasiva. O meu estômago deu um nó. Da outra vez? Ela estava dormindo da outra vez que eu vim. Como ela sabe? — Mas a enfermeira já me disse que estou melhorando. Continuou Sofia, o seu olhar perdido por um momento no teto branco antes de se fixar novamente em mim. — Agora me diga, quando ele virá? Contive a respiração. — Já falta pouco. Sussurrei, evitando os seus olhos. — Uns dias, talvez. — Quero estar bonita para quando ele vier. Disse ela, com um brilho da sua antiga vaidade. — Compre o básico para mim, sim? Um creme, um batom... algo para não parecer um fantasma. Concordei mecanicamente. — Eu te trago quando puder. Então, sua mão, surpreendentemente forte, saiu de entre os lençóis e pegou a minha. A sua pele estava fria. — Você... você tem estado preocupado comigo. Ela afirmou. Não perguntou. — Durante toda a minha recuperação. Verdade? E não ne*gue. Não seja... Como dizia meu pai?... Ah, sim, "acometida". A enfermeira me contou tudo: que você sempre pergunta por mim. Fiquei paralisada. A enfermeira tinha dito isso a ela? Eu estava tão imersa nesse papel que até a equipe médica me via como a cuidadora devota? A ironia era tão amarga que me senti enjoada. Sofía sorriu, um sorriso mais amplo desta vez, que iluminou o seu rosto demacrado com um eco da sua beleza, mesmo estando demacrada. — Agradeço muito, Valéria. De verdade. E assim continuou a conversa. Ela falava de sonhos fragmentados, da comida do hospital, do quão chato era estar ali. Eu concordava, sorria nos momentos certos, soltava monossílabos. Era uma conversa natural, trivial, sobre a superfície. Mas sob os meus pés, o chão se abria. Cada palavra de agradecimento dela era uma faca. Saí daquele quarto sentindo-me mais suja e mais presa do que nunca. …… A casa estava em silêncio. Um silêncio que eu mesma havia construído, vela por vela, pétala por pétala, com a ilusão to*la de que esta noite seria diferente. Sobre a mesa de jantar, o jantar simples que preparei — seu filé ao molho pimenta — jazia frio sob o brilho tênue das velas vermelhas. Eu tinha colocado as suas sobremesas favoritas, pequenos bolinhos de chocolate que me levaram horas para decorar. — Pode ir, Marta. Esta noite e amanhã eu cuido do meu marido. Você está de folga. Disse à minha governanta, com um sorriso que esperava soar confiante. Ela, sempre discreta, assentiu agradecida e se foi. Fiquei sozinha. Ajeitei o decote do vestido curto de seda preta, borrifei o perfume que ele gosta – intenso, um aroma que sempre me faz sentir que estou usando uma máscara da mulher que ele desejaria – e desci. Eu escrevi para ele: Estou te esperando para o jantar. O duplo tique azul apareceu instantaneamente. Ele viu. E nada. O vazio da sua resposta foi o primeiro golpe. Ele estará numa reunião importante, forcei-me a pensar, afogando a pontada de decepção. Não devo incomodá-lo. Então eu me sentei. E esperei. A ausência dele no jantar da noite anterior eu podia tolerar. Sei que ele não se dá bem com o dom Ernesto. Mas isso... me deixar plantada aqui, na nossa casa... eu não entendia. O que eu fiz de errado desta vez? A pergunta, minha sombra fiel, sentou-se à mesa comigo. Três noites sem chegar. Três desfeitas. Cada um chicote na minha já m*altratada segurança. Eu tinha parado de sair com os meus amigos porque da última vez que saí, ele ficou chateado e ignorou-me por dois dias inteiros. Que nova falta invisível eu tinha cometido agora? Em que norma não escrita eu havia tropeçado novamente? Voltei a ligar para o celular dele. Nada. Só o silêncio zombeteiro da sala. Olhei para as velas. A cera vermelha derretia, escorrendo pelas castiçais. Já eram duas da manhã. O nó na minha garganta apertava tanto que me custava respirar. Com uma calma que me assustou, levantei-me e recolhi tudo. Não com raiva, mas com uma tristeza profunda e silenciosa. Joguei a comida no lixo sem um pingo de pena. Nem estava com fome. Recolhi as pétalas de rosa que eu havia espalhado desde a porta — que estúp*ida eu fui — e também as joguei fora. Apaguei toda evidência da minha esperança. Subi para o quarto, tirei o vestido e a lingerie se*xy — uma fantasia rid*ícula para uma apresentação à qual ele não compareceu — e coloquei o pijama de algodão mais coberto que tinha. Entrei na cama, virando as costas para o lado vazio dele. Não vou chorar, ordenei a mim mesma. Sou mais forte que isso. Mas uma lágrima, traidora e quente, escapou e secou no travesseiro antes que eu dormisse. De manhã, o peso no colchão e o som da cômoda me acordaram. Abri os olhos e o vi ali, de costas para mim, vestindo-se com aquela elegância inata que tanto o caracteriza. O lado da cama dela estava impecável, quase intocado. O que eu supunha, tinha chegado há pouco tempo. Virou-se e olhou para mim. — Bom dia, Valéria. A lembrança da noite passada me atingiu com toda a sua força. A raiva, fresca e amarga, nublou a minha visão. Ignorei-o e virei-me, cobrindo-me até a cabeça. Não queria dirigir a palavra a ele. Ainda não. — Vou viajar por uns dias. Ele disse, abotoando o relógio. — Um investimento importante com a corporação Atherton, na costa. Isso foi a gota d'água. Não só não tinha vindo, como agora estava indo embora. Virei-me de repente, dando as costas novamente, num silêncio carregado de reprovações. Permanecemos assim por um momento, numa tensão que se podia cortar. Até que senti que ele estava arrancando os lençóis de uma vez. — Você está brava? Perguntou, como se realmente não soubesse. — Deixe-me dormir. Disse, com um tom que não reconheci como meu, carregado de um cansaço que não era só por falta de sono. — Não pude vir. Sinto muito. Esqueci o meu telefone no escritório. Você sabe como meu pai é... eu não estava com vontade de lidar com ele. Você me entende, certo? Olhei para ele fixamente. Não, eu não entendia. Ah, sim, mas não era isso que me doía. Não estava chateada com o que aconteceu com o pai dele. Bem, sim, um pouco. Mas me machucava muito mais que ele não tivesse dito nem uma palavra sobre o jantar, sobre mim esperando, sobre a sua promessa quebrada. Eu tinha ligado para ele, eu tinha escrito para ele. E ele agia como se isso não importasse. Ele se afastou da cama e voltou com uma caixa pequena, embrulhada num laço sedoso. — Gatinha, perdoe-me. Ele disse, e a voz quebrou-se ligeiramente, com uma ternura falsa que eu, apesar de tudo, queria acreditar que era real. — Da próxima vez iremos juntos. Não vou te deixar sozinha nisso. Gatinha. O apelido que ele usava quando queria me derreter. Abri a caixa. Eram meus chocolates favoritos, os belgas, com recheio de licor de framboesa. Aquele gesto pequeno, tão calculado, fez o meu coração traiçoeiro dar um salto descomunal. A fúria se esfarelou. Sentei na cama e peguei um. Comi-o com deleite, sentindo como o chocolate amargo e o licor doce explodiam na minha boca. Ele me observava, expectante. — Suponho que você já me perdoou. Ele disse, um canto da boca subindo em meio sorriso. Comi outro, olhando fixamente para ele. — Ainda estou chateada. Você vai precisar de muitos desses para que eu pare de estar assim. Ele se aproximou então. Eu o olhei, incrédula, enquanto ele franzia levemente a testa. Estendeu a mão e, com o polegar, limpou suavemente o canto dos meus lábios, onde o chocolate tinha deixado um rastro. O simples contato, tão ínti*mo e doméstico, me deixou nervosa. Contive a respiração, olhando-o nos olhos, vendo como o seu olhar escurecia. Isso deve ter sido o que o quebrou. Ele se inclinou e me devorou a boca. Não me ne*guei. Pelo contrário, intensifiquei o beijo com toda a paixão acumulada da noite de frustração e o amor que se recusa a morrer. Quando nos separamos, ofegantes os dois, eu estava obnubilada, flutuando. Vi-o lamber os lábios, um gesto felino. — Sim, o chocolate está delicioso. E então não pude evitar. Uma gargalhada enorme, libertadora, explodiu da minha garganta. Uma risada que era choro e alegria misturados. Adrián me olhou, franzindo a testa. — De que você está rindo? O que é tão engraçado? — Seus lábios! Consegui dizer entre risos, apontando para ele. — Estão todos sujos de chocolate! Você parece uma criança. — Você fez isso de propósito? Venha aqui! Um sorriso genuíno, o primeiro em semanas, iluminou o meu rosto. Ele se aproximou com claras intenções de me sujar. — Não! Gritei, gritando, e pulei da cama escapando. — Você não vai me alcançar, não vai! E assim aconteceu. Uma perseguição alegre pelo quarto, entre risos e gritos, com ele, o poderoso Adrián Montenegro, me perseguindo. Era uma trégua, eu sabia. Não era a solução. Mas naquele momento, com o sabor doce na boca e a sua risada ecoando pela casa, era o suficiente para mim. Eram migalhas, sim, mas para mim era suficiente. ..... ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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