Pov Valeria
Eu tinha preparado a cesta de piquenique desde cedo. Não era grande coisa: uns sanduíches, fruta, vinho e biscoitos. Mas eu fazia isso com a esperança de me distrair um pouco, de me sentir leve por algumas horas. As últimas semanas tinham sido um turbilhão e eu precisava de um respiro, algo que me lembrasse quem eu era antes de tudo girar em torno de Adrian.
Quando cheguei ao parque, logo vi eles. Os três, jogados sobre a manta xadrez como se o sol fosse deles. Esteban, sério como sempre, concentrado no telefone. Leo, contando algo com a sua habitual exageração. E Matias, observando tudo com aquela calma que sempre me faz sentir em casa. Uma onda de carinho percorreu o meu peito. Eram meu refúgio.
— Meninos! Gritei, correndo em direção a eles com uma alegria que não sentia há semanas.
A cesta caiu na grama e eu os envolvi num abraço em grupo que foi mais uma briga amigável do que uma saudação.
— Ufa! Cuidado, be*sta. Protestou Leo, fingindo sufocamento. — Você nos trouxe o almoço ou veio acabar com a gente?
— Cale a boca e me ajude a tirar isso. Respondi, dando-lhe um tapa leve no braço.
Já estávamos sentados, distribuindo os sanduíches e as frutas, quando Leo soltou a primeira bomba, com aquele sorriso de menino travesso que nunca prenunciava nada de bom.
— Ei, e essa aparição milagrosa? Achamos que você tinha esquecido que tinha que vir hoje... ou pior, de nós.
— Não exagere. Disse, evitando o olhar dele. — Tenho estado... ocupada.
— Sim, claro. Interveio Esteban, sem tirar os olhos do telefone. — Entre o seu casamento e as suas aulas. Você parece um anúncio de televisão, Val. O que eu não entendo é o negócio das ligações. Você deixou cair o celular no mar ou tirou a bateria toda vez que via os nossos nomes?
O meu sorriso congelou. Ele me pegou. Eu tinha sido covarde, não podia dizer a eles que o Adrian tinha ficado chateado da última vez que saímos para a balada e que eu tinha voltado para casa bêbada e que estava terminantemente proibida de voltar a falar com meus amigos.
— Deu-me... tristezaa. Confessei num sussurro, brincando com um cacho de uvas. — Não poder atender quando me ligavam. Pensei que o silêncio era melhor do que uma promessa vazia.
— Ah, por favor. Rosnou Leo. — Isso soa como discurso de novela barata. Aqui somos família. As coisas são ditas na cara.
— Deixa-a em paz, Leo. Interveio Matias, o pacificador de sempre, passando-me uma taça de vinho. — A nossa pequena já é uma mulher casada, com suas próprias batalhas.
— Sim, tão casada que até tem o anel da invisibilidade. Brincou Leo. — Porque, falando nisso, por que não te vimos na Gala Anual da Câmara de Comércio? Todos os empresários vão com as suas parceiras. Era o evento perfeito para usar aquele vestido caríssimo que o Montenegro com certeza te comprou.
O coração deu um salto. Adrián me disse que não iríamos porque ele precisava viajar de imprevisto.
— É que... Adrian não está. Ele saiu de viagem por causa de um investimento. Soltei, sentindo o sabor amargo da mentira.
Houve um silêncio desconfortável. Então, Leo soltou uma risada seca.
— Sério? Valéria, você não se cansa de mentir? O pior, você não se cansa de ser enganada?
— O que você quer dizer? Perguntei, sentindo uma pontada fria de ansiedade percorrer as minhas costas.
— Esqueceu que sou o motorista do senhor Rostón. Disse Leo, e pela primeira vez o seu tom foi sério. — Ontem levei meu chefe ao Hotel Grand Bourbon, bem onde estava acontecendo a gala. E lá estava, impecável no seu smoking, seu marido.
O mundo parou. O parque, as risadas, os pássaros... tudo desapareceu.
— Não... não pode ser. Murmurei, com a voz trêmula. — Ele... fez as malas. Ele disse que era uma viagem.
— A vinte minutos da sua casa? Perguntou Esteban, levantando finalmente o olhar. O seu olhar era firme e cheio de pena. — Valéria, ela mentiu para você.
— Não! Protestei, sentindo-me encurralada. — Talvez ele tenha mudado de planos e não teve tempo de me avisar, quando ele voltar eu perguntarei a ele.
Matias suspirou fundo.
— Pequena, você não sabe mentir. E defendê-lo sai ainda pior.
— Já chega. Disse Estêvão com firmeza. — Não a atormentem mais.
Mas o dano já estava feito. A verdade, afiada e cr*uel, havia se cravado no meu peito. Adrian não estava viajando. Ele tinha ido a uma gala importante, sozinho, e ele tinha mentido para mim. Preferiu inventar uma viagem a me levar com ele.
— Sabíamos disso. Sussurrou Leo, já sem zombaria. — Desde o início. Casar-se com o seu melhor amigo por um acordo não traria nada de bom. A única que está apaixonada nessa história é você, Val. Sempre esteve.
As lágrimas ameaçavam sair, mas eu as contive com orgulho. Olhei para os rostos dos meus amigos, os únicos que me diziam a verdade, mesmo que doesse. Eles tinham razão. Adrian tinha mentido para mim, e eu, como uma to*la, tinha acreditado na história.
Tomei um gole de vinho, tentando acalmar o nó na garganta.
A alegria do piquenique se fora, substituída pelo sabor frio da decepção.
.....
Pov Adrian
Uma martelada surda e persistente nas minhas têmporas tirou-me de um sono pesado e sem forma. Cada batida era um lembrete da estu*pidez de ter esvaziado meia garrafa de uísque sozinho. A luz do meio-dia entrava pelas persianas como uma faca, cravando-se nas minhas pupilas.
— Belo horário para acordar, Montenegro. A voz de Diego, meu amigo e, às vezes, meu único confidente, soou de algum lugar do quarto, carregada de uma reprovação que não precisava ser gritada.
Entreabri os olhos, sentindo a boca pastosa e seca.
— Me*rda... Que horas são? A minha voz soou áspera, como se eu tivesse engolido vidro moído.
— É hora de você tirar a bu*nda do meu apartamento e ir para sua casa. Respondeu Diego, aproximando-se e deixando um copo de água e dois comprimidos para dor na mesinha de cabeceira. — Valéria esteve ligando. Tive que mentir para ela por sua causa. De novo.
Incorporei-me com um grunhido, apoiando os cotovelos nos joelhos. A sala deu uma volta lenta. Tomei os comprimidos e engoli a água de uma só vez, prometendo a mim mesmo, não pela primeira vez, que nunca mais beberia daquela maneira. Era uma falta de controle imperdoável.
— E o que você disse a ela? Perguntei, massageando as têmporas.
— Que você tinha tido uma reunião de trabalho chatíssima e tinha dormido no escritório. Mentira piedosa, embora você não mereça nenhuma piedade. O seu tom era cortante. — Ela acha que você viajou.
Concordei, um gesto mínimo que intensificou a dor de cabeça. A culpa, um sabor ainda mais amargo que o do uísque, percorreu a minha garganta.
— Tudo bem.
— Tudo bem? Diego riu, um som seco e sem humor. — Po*rra, Adrian. Não consigo acreditar que você está mentindo assim para ela. Que culpa ela tem?
Levantei-me da cama, ignorando a protesto de cada músculo. A força do meu corpo, da qual sempre dependi, parecia uma armadura vazia.
— Não consigo ficar perto dela, Diego. Disse, caminhando em direção ao banheiro. A verdade escapou antes que eu pudesse detê-la.
— É tão ru*im assim? Perguntou da porta, cruzando os braços.
Parei em frente ao espelho. O meu reflexo me devolvia a imagem de um homem com o rosto marcado pela fadiga e ressaca, mas com os olhos nublados por algo mais profundo: a confusão.
— Ela... está se iludindo. E isso não é bom. Para nenhum dos dois. Lavei as palavras com um jato de água fria no rosto. O choque térmico me clareou um pouco. — Além disso, está me confundindo. Isso é apenas um acordo. Tanto ela quanto eu devemos lembrar disso.
— E você vai fazer isso fugindo dela? Perguntou, com lógica impecável. — Por que você não esclarece as coisas para ela de uma vez? Que o acordo não deve se desfazer.
Um grunhido de frustração saiu do meu peito enquanto eu secava o rosto com uma toalha áspera.
— Caramba! Já expliquei mil vezes! Gritei, e o som ecoou no pequeno banheiro. — E mesmo assim elaa me olha com aqueles olhos... e acha que isso é um casamento de verdade, ou talvez eu já esteja louco, dizendo bobagens. É minha amiga, por Deus. Ou era. Não deveria ser tão complicado.
Saí do banheiro e o vi sentado novamente no sofá, observando-me com uma calma que me exasperava.
— Você se lembra que você cruzou essa linha ao se tran*sar com ela? Disse, fazendo um gesto de aspas no ar com os dedos. — De que "amizade" você está falando então?
Fiquei parado, com a toalha pendurada nas minhas mãos. Essa verdade, simples e crua, me atingiu com a força de um soco.
— Isso não tem nada a ver. Disse, defensivo. — Ambos concordamos. Seria apenas se*xo. Nada mais.
Diego soltou uma gargalhada breve e cínica.
— Tanto assim te afetou o "só se*xo"? Repetiu as aspas. — E agora você passa o tempo fugindo da própria casa, bebendo até cair redondo. Parece mais que o acordo é grande demais para você, Adrian.
— É só um respiro! Menti, até para mim mesmo. — Para que ambos assimilemos a verdade das coisas. Na última viagem que fizemos... parecíamos uma família de mer*da, Diego. Você entende o que isso poderia causar nela? Ele se confundiria. Começaria a esperar coisas que nunca poderei dar a ela.
Calei-me, respirando com dificuldade. Eu tinha dito demais. Eu havia admitido que aquela viagem, aqueles momentos de falsa normalidade, me afetaram.
Diego me olhou fixamente, sem piedade.
— Então dê uma solução para isso. De uma vez por todas. Pelo bem de vocês dois.
Fiquei parado, olhando pela janela a cidade que se estendia lá embaixo. Controle. Sempre fora a base de tudo: controle sobre os meus negócios, sobre a minha imagem, sobre as minhas emoções. Mas com a Valéria, o controle me escapava entre os dedos como areia. Ela, com sua doçura persistente e sua teimosia silenciosa, estava quebrando todas as minhas defesas.
A imagem do seu riso, do seu olhar cheio de uma esperança que eu estava matando, me atravessou. Diego tinha razão. Fugir e mentir era coisa de covardes. E eu não era um covarde.
— Acho que você tem razão. Admiti, com a voz mais baixa, mais controlada. — Devo resolver isso.
Mas no silêncio da minha mente, uma pergunta ressoou, aterrorizante e persistente:
A solução era endurecer o acordo e lembrá-la dos nossos limites... ou era admitir que esses limites haviam se diluído até se tornarem irreconhecíveis?