Pov Valeria
O som do motor na entrada me assustou. Adrian havia chegado.
Olhei para o relógio do corredor: quase nove da noite. Justamente a hora em que ele costumava aparecer, impecável.
Ajeitei o vestido, passei os dedos no cabelo e forcei um sorriso diante do espelho do hall de entrada. Não queria parecer uma esposa chata. Queria que me visse tranquila, entregue... como se nada em mim suspeitasse da verdade.
A porta abriu.
— Bem-vindo. Disse, caminhando em direção a ele com passos suaves. Tirei o casaco dele e pendurei no cabide, depois estiquei-me na ponta dos pés para beijá-lo na bochecha. — Como foi a viagem?
Adrian deixou as chaves sobre a cômoda e me observou por alguns segundos antes de responder.
O seu olhar era o de sempre: frio, analítico, quase impossível de decifrar.
— Bem. Disse por fim, com voz monótona. — Foi uma viagem produtiva, embora exaustiva. Os investidores ficaram satisfeitos.
Cada palavra era uma facada disfarçada de rotina.
Eu sabia que ele estava mentindo, que nunca tinha saído da cidade, que tinha estado naquele m*aldito baile no Grand Bourbon.
Mas eu sorri. Fiz isso com a melhor atuação da minha vida.
— Fico muito feliz. Respondi, fingindo emoção. — Com certeza foi um sucesso.
Ele assentiu apenas, soltando um suspiro e levando uma mão ao pescoço como se o peso do dia o oprimisse.
— Você jantou? Perguntei, tentando parecer atenta. — Guardei o seu prato favorito para você.
— Não estou com fome. Disse com desânimo, afrouxando os punhos da camisa. — Só quero um banho e dormir.
A minha garganta apertou. Não queria discutir.
Não naquela noite.
— Está bem. Disse, dando um passo à frente. — Mas antes... queria te perguntar algo.
Ele arqueou uma sobrancelha, sem interesse.
— Sexta-feira é seu aniversário. Lembrei com um sorriso forçado. — Tenho uma surpresa para você. Você estará livre nesse dia?
— Suponho que sim. Respondeu, distraído. — Não tenho reuniões importantes.
— Perfeito. Disse, mais animada do que deveria. — Então não faça planos.
— Que tipo de surpresa? Perguntou, olhando para mim com curiosidade.
— Se eu te disser, deixa de ser surpresa. Respondi com um pequeno piscar de olhos.
Ele assentiu, sem sorrir. Aproximou-se do bar e serviu uísque num copo. O seu silêncio encheu a sala. Eu me aproximei por trás, deslizando até abraçá-lo pelas costas. A minha bochecha roçou a sua camisa, o aroma familiar do perfume caro que eu tanto gostava.
— Vou te preparar uma noite especial. Murmurei perto do ouvido dele. — Quero que seja um aniversário que você não esqueça.
Senti-o tensar-se sob as minhas mãos. O seu corpo enrijeceu, como se o meu contato o incomodasse.
Afastei-me lentamente, fingindo não ter notado.
— Não tem nada para me dizer? Perguntou então, virando o rosto para mim.
O seu olhar era intenso, quase inquisitivo.
— Alguma novidade enquanto eu não estava?
Meu pulso acelerou. Senti a pele queimar.
— Não… Respondi, desviando o olhar para o chão. — Tudo está bem. Nada fora do comum.
— Ahá. Ele murmurou, sem desviar os olhos de mim. Depois virou-se e caminhou para o sofá, soltando um longo suspiro.
Sentou-se, desabotoando os primeiros botões da camisa.
Eu o observei por alguns segundos, em silêncio.
Ela tinha aquela maneira de se mover, aquele domínio do espaço... e, mesmo assim, eu me sentia invisível.
Respirei fundo, tentando recuperar um pouco de controle.
Então fiz algo que sabia que não devia fazer, mas precisava de uma reação dele, qualquer sinal de que ainda me desejava.
Inclinei-me diante dele, apoiando as mãos na mesa, deixando que o decote do vestido falasse por mim. O seu olhar cravou-se em mim imediatamente, ardente e voraz.
— Valéria… A sua voz rouca, m*al um sussurro, me atravessou como um raio.
Antes que eu tivesse tempo de reagir, as suas mãos me agarraram pela cintura com força, puxando-me para ele. Os seus lábios encontraram os meus num beijo intenso, desesperado, como se eu tivesse esperado a vida toda por aquele contato. Senti a suas mãos percorrerem as minhas costas, o seu corpo contra o meu, o calor do seu desejo queimando a minha pele.
Deixei-me levar pela urgência do momento. Os meus braços envolveram o seu pescoço, tentando aproximá-lo ainda mais, enquanto os seus beijos subiam dos meus lábios até o meu pescoço, mordiscando-me suavemente, provocando um arrepio que percorreu todo o meu corpo. A sua respiração era pesada, entrecortada, e eu podia sentir como ele lutava para se controlar.
— Adrian… Sussurrei, m*al audível, enquanto o meu coração acelerava a cada toque, a cada carícia.
A suas mãos apertaram mais, os seus lábios buscando os meus com uma fome quase animal, sussurrando o meu nome entre beijos. O mundo ao nosso redor desapareceu. Só existíamos ele e eu, consumidos por um desejo que nos superava.
Mas de repente, parou. Separou os lábios dos meus com um gesto brusco, como se algo dentro dele o obrigasse a frear. As suas mãos me soltaram, e ele deu um passo para trás, ajeitando a camisa rapidamente. Os seus olhos, ainda acesos, buscavam se controlar, mas eu podia ver o conflito no seu olhar.
— Não… Disse, com um fio de voz, engolindo em seco, como se quisesse recuperar algo de si mesmo. — Isso... não agora...
Levantou-se de repente, deixando a tensão vibrando no ar entre nós. Eu fiquei na frente dele, tremendo, com o coração batendo a mil por hora, consciente do fogo que tínhamos acendido e da barreira que ele mesmo havia imposto. Logo ele pegou o casaco e se dirigiu para a saída.
— Para onde você vai? Perguntei, tentando manter o tom sereno.
— Esqueci alguns documentos da empresa. Respondeu sem me olhar.
— Mas... está muito tarde. Disse, dando um passo em direção a ele. — Você poderia ir amanhã.
— Devo ir agora. Replicou com uma firmeza que me gelou o sangue. A sua voz soou cortante, autoritária.
Por um instante quis detê-lo, tocar o seu braço, pedir que ficasse. Mas me contive. Não pensava implorar para ele.
Não de novo.
— Está bem. Disse finalmente, com um tom mais frio. — Vá. Tenho que terminar um dos meus quadros, então pediria que não me incomode durante a noite. Se precisar de algo, peça à camareira.
Adrian me observou, surpreso com a minha resposta. Então, ele assentiu em silêncio e saiu pela porta sem olhar para trás.
Subi para o segundo andar, até o meu estúdio. Acendi as luzes fracas, abri a janela e apoiei as mãos na moldura.
De lá o vi.
Desceu as escadas com passo decidido, entrou no carro e foi embora sem sequer olhar para a casa.
A noite engoliu o barulho do motor.